Neste final de semana viajei com minha família para Aparecida do Norte. Até um amigo que esteve às portas de São Pedro (ou Lúcifer) estranhou esta minha viagem. É o último destino que alguém imaginava para mim, mas eu fui. Família ê, família ah, famííília…
Foi bem divertida a viagem, basta dizer. Mas não consegui não observar as contradições explícitas no que acontecia ao meu redor enquanto eu estava no Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida (o “nacional” ali me faz tremer toda vez).
Desde que o Homem se conhece por gente e construiu aldeias, ele começou a adorar uma certa curva de rio ou árvore especial, Com isso vieram peregrinos para encher estes locais. Mais naturalmente do que formigas em açúcar, o excedente da produção era oferecido aos visitantes pelos moradores da cidade mais próxima ao “santuário”.
Mas o que vi em Aparecida não foi natural. A porção católica que ainda sobrevive dentro de mim teve que ser segurada com as duas mãos pela minha parte agnóstica para não dar uma de Jesus e sair derrubando barraquinhas e quebrando copos de lembrança do Flamengo, Palmeiras e Corinthians junto com imagens santas e tantas outras quinquilharias à venda pelas ruas cercando o santuário “nacional”.
Por falar em santuário, nada mais nacional do que uma basílica enorme, com tijolos à vista com infiltrações, vigas de concreto à mostra e nenhum estilo artístico consistente em nenhum dos vitrais, cerâmicas ou esculturas que a cercam. Se existe algum mérito, parece ser o mérito não intencional de ser uma metáfora do país que visita em massa a igreja: uma mescla inacabada de vontades.
As metáforas são poderosas ao redor da história da origem de Nossa Senhora Aparecida também. Em 1717 pescadores sem sorte encontram uma imagem sem cabeça. Logo depois encontram a cabeça, encaixam-na e começam a pegar peixes e mais peixes. Só que ao invés de “usar a cabeça”, eles iniciaram um culto, agora com muito controle, porém na sua base totalmente irracional.
O que falta no Mundo é realmente “cabeça”, não coroada nem com auréola, nem em uma pessoa ou em uma imagem de barro, mas em cada um de nós, não para explorar a ignorância para o benefício próprio, mas para melhorar a vida de todos.
Na véspera de Natal de 2008 eu me dei um presente. Na verdade, supri uma necessidade. Estava eu de alpargatas com um mapa de Havana comprado no aeroporto na noite anterior, feliz da vida andando pelo Malecón. Passou uma hora de caminhada e, no meio da segunda hora, cheguei ao fim da célebre avenida com a sola do pé ardendo da fricção da corda da sola do calçado. Mesmo assim, feliz da vida, parei, suspirei, escrevi e continuei.
Segui bem para fora da região central de Havana e fui parar em outra avenida, onde cheguei impulsionado pela seguinte marcação no mapa: “Primeira Igreja do Jesus Cristo, Científico”. A tal igreja estava fechada, então olhei ao redor e, ainda com medo de encarar o transporte público da cidade, precisava de outro tipo de calçado. Por providência divina (ou do mercado), do outro lado da esquina da igreja estava uma loja popular, um misto de supermercado e loja. Os preços eram em peso convertible, a “moeda para turistas” de Cuba, mas mesmo assim o movimento era intenso e os preços muito menores do que nas lojas para turistas.
Encontrei um par de sandálias fantástico. De couro, bem simples. Me senti o São Pedro, Científico usando elas. Comprei. Calcei. E fui andando de volta ao Vedado, através de uma rota mais central, com a necrópole Colón e a Praça da Revolução no trajeto.
Mal cheguei á necrópole e a sede só era menor do que outra dor nos pés. Agora a sandália “fantástica” estava cortando os lados dos meus pés. Mesmo assim, melhor perder o lado do que a sola, pensei, e segui adiante, até chegar no final do dia com a sola do pé queimada e os lados cortados. Um ótimo começo para os 16 dias que passei na ilha.
Não foi nem a primeira nem última história para contar
Especialmente porque, aquele pequeno fato no meio de tantas coisas novas e diferentes hoje voltou à minha cabeça quando olhei as havaianas no mercado. Algumas estavam custando quase 30 reais! Com certeza em lojas especializadas em havaianas (que existem!) os preços estejam ainda maiores. É claro que existe uma diferenciação entre modelos mas, na base, são só dois pedaços de borracha ligados de um jeito esperto e confortável.
Ao invés de saudosismo pelos tempos que não voltam mais, comparei como o preço de uma havaiana é formado agora. Com minha pequena base de Economia que estou tendo, vi que existe algo chamado de “preço não-padronizado”, que é manipulado através da diferenciação na produção e qualidade de um produto (o Cheetos da Elma Chips é tão melhor que o da Tip Top, não?) mas principalmente da criação da demanda, da irracionalização do consumo neste caso.
O consumo de havaianas deixou a classe pobre e está agora no mainstream da economia brasileira e até mundial. Ao invés de enfatizar o destaque que alguém consegue através do consumo de uma mercadoria (“você merece um Fusion”), as Havaianas exploram um lado bem “comunista” da mente coletiva: usando havaianas, você será igual a todo mundo, mesmo que este “todo mundo” na publicidade apareça como Lázaro Ramos, Rodrigo Santoro, Luana Piovani. São ídolos na telinha, mas em situações bem cotidianas, nas quais todo mundo pode se identificar.
Os absolutos, sejam da ciência, religião ou sistemas políticos, nunca vão conseguir moldar ou descrever a realidade. Existe uma crós-polinização entre tudo isso, que faz o mundo sempre mudar. A economia moderna, através da propaganda, tenta criar, às vezes com sucesso, uma realidade. Mas por outro lado, como consumidores, o poder está nas nossas mãos, pois podemos forçar os produtores a encontrar novos jeitos de suprir nossas necessidades.
Depois de dois dias de navegação a partir de Ilha Bela eu ainda não sabia, mas tinha contraído vassoura de bruxa. A doença, aprendi mais tarde, primeiro incha os galhos das árvores, depois eles ressecam, infestando a árvore toda. A falta do que fazer em mais de 48 horas me afetava fisicamente, e eu saí saltitante do navio no porto de Ilhéus, pouco me importando com o calor úmido.
Caminhei pelo centro da cidade de Ilhéus em uma calma manhã de domingo, quando nem os turistas do navio nem os habitantes ainda tinham decidido colocar suas cabeças ou câmeras para fora. Eu decidi tirar a minha, e percorri o centro todo, subindo e descendo ladeiras, fotografando como um japonês sem parar e antes das 10 horas já tinha “terminado” o tour, até com direito à visita a um convento vazio.
Sobe ladeira, desce ladeira...
Ilhéus é uma mini-Havana, mas com um PIB equivalente. Só que ao invés do dinheiro trazer progresso ele trouxe merda. Merda humana por todos os lados. O centro fedia e o lixo empilhava. Cheguei até a ver ossos de boi em uma praia no contorno voltando do Bataclan, um ex-cassino e puteiro que agora virou atração turística.
Esperei a chuva de verão passar no bar Vesúvio (célebre por ser palco do romance “Gabriela Cravo e Canela”), bebendo várias e várias Xingus, comendo bolinhos com um molho de pimenta e cebola fantástico que fez o calor e a chuva desaparecerem. Para me achar o Nacif (o turco de “Gabriela”), comi também um chancliche com um pão árabe farinhento. Os pingos mal tinham parado e entrei em um táxi em direção à fazenda Yrerê, a 20km da cidade.
Estados Unidos do Cacau
Da impressão que tive do centro da cidade, em Ilhéus as conquistas de seu passado importam muito menos do que o período de decadência da cultura cacaueira. O que importa é esta decadência, primeiro moral, dos coronéis e suas depravações e desmandos; depois econômica, mais recente, ocasionada pela praga agrícula chamada vassoura de bruxa.
O taxista defendeu que agora há uma indústria tecnológica pujante que impulsiona a cidade. Eu não vi. O turismo com certeza é o fôlego principal do município, o que até a fazenda para a qual eu estava indo soube explorar.
Miniatura de prosperidade e paraíso misturados
A Fazenda Yrerê, de propriedade de um jornalista local chamado Gelson é um primor, especialmente sua casa, com uma área e cozinha de sonho. Sonho que foi introduzido pelo próprio Gelson, contando sem texto decorado a história do chocolate, que começa em um passado longínquo, com os astecas e o seu chocoaxate, jesuítas empreendedores que levaram as mudas para lá e os fazendeiros que ficaram tão ricos que compravam suas patentes, se tornando literalmente coronéis.
Prosperidade colhida e defendida no facão
O sonho poderia passar por pesadelo quando o seu Zé continuou a história e o passeio, contando em conversa fatos e números assombrosos sobre o impacto da vassoura de bruxa na lavoura. Só que o sonho ruim é cheio de cor e esperança, com uma ponta de nostalgia dos tempos de glória do cacau, sem dúvida, mas com uma pragmática visão do futuro, representada por um pé de cacau centenário e ressistente à praga (“é como a AIDS”, ele explica, “tem árvore que contrai mas não desenvolve”), mudas feitas por ele mesmo de uma espécie clonada (“cronada”) imune à doença e o carinho de mãe ao mostrar um pé carregado de pequenos frutos.
Assim que as coisas são
Fortuna financeira pode ser que nem seus netos irão alcançar, mas o gosto da lida, da planta e da floresta, as memórias e sonhos cultivados à sombra da mata Atlântica eles já tem garantidos. E qual fortuna material pode se igualar a isso?
Mantendo o tom conversacional que o blog vem assumindo ultimamente, oi, tudo bem com vocês? Feliz Ano Novo e tal. Passaram bem as festas? Espero que sim.
Depois de encarar uma semana deprimente entre Natal e Ano Novo, trabalhando como se fosse um operador de estação de trem abandonada, eu merecia férias e, graças ao saudoso Getúlio Vargas, tenho meus 30 dias garantidos por lei e não tenho medo de usá-los! Graças aos saudosos Collor de Mello, FHC e agora Lula, a economia vai bem pra quem quiser, e pude novamente viajar.
Ao invés de Chile, Cuba, Chipre ou Cantão resolvi voltar e visitar um país atrás no alfabeto: o Brasil. Além disso, fazia muito tempo que não passava as festas em família e desenvolvimentos emocionais do meio do ano me fizeram aceitar o convite para experimentar uma coisa nova: viajar de cruzeiro.
A nova sensação da classe C, os cruzeiros são atraentes demais para deixar passar: com eles você viaja, se hospeda e come, tudo no mesmo lugar! Não é ótimo!? Não, não é. O que eu gosto é de ser uma rolling stone nas férias. Mínimo planejamento, mínima previsibilidade. Para adicionar um pouco destes ingredientes nestas férias, reservei alguns dias depois do cruzeiro para me embrenhar na travessia da Joatinga, mas teremos um texto só para isso mais tarde. Ah, eu também tirei a barba e fiquei com um bigode inspirado em Magnum PI.
Sucesso duvidoso, mas Campari delicioso
Estava tão inerte no calor úmido do porto de Santos, e já com uma meia dúzia de Xingus na cabeça entrei faminto e sedento. Segundo relatos, a comida era the best e durante as refeições, bebidas eram free (vinho no meu caso, sendo que não bebo cervejas leves). Me debrucei em um vinho branco de qualidade discutível como se fosse um oásis no deserto. Não deu outra. Em 1 hora estava chapado e com dor de cabeça. Tive que apelar para o Campari acima (que já era o segundo). Capotei em um dos sofás da ante-sala do cassino e só fui acordar em alto-mar. Não tinha mais volta.
Por causa de meu ébrio cochilo, perdi o horário de reservar mesas para o jantar, e acabei no segundo turno, em uma mesa de desconhecidos, que encantei falando das histórias curtas do Hemingway e conseguindo não zoar da guria que levou 4 meses para ler “Marley e Eu”. O papo estava tão bom que o garçom hondurenho ficou em cima fazendo pressão para irmos embora. Mas ele não teve sorte e, ao ver a bandeirinha ao lado do nome dele já engatei um papo sobre Zelaya (outro notório bigodón) e a revolução na América Latina e foi-se a meia-noite. Ainda alto li os últimos capítulos de “Anansi Boys” com lágrimas nos olhos ao redor da piscina.
... e até o garçom entrou na festa!
Acordei no dia seguinte com o leviatã do lazer parado em Ilha Bela. Poderia descer, mas o tempo estava feio e decidi começar a ler “Week-end na Guatemala”, para ter o que conversar com os garçons daquele país. Ok, não para isso, só porque estava na minha fila de leituras e eu não estava nem um pouco afim de participar de qualquer das iniciativas de “animação” do cruzeiro, sejam elas aulas de bolero, quizzes ou bingos.
Por falar em bingo, como eu já previa, a média de idade dos passageiros era algo em torno de 64… e as velhinhas (principalmente) se deliciavam com os rapazinhos da animação, que davam toda a atenção do Mundo para cada uma delas. Mais do que a logística de tanta comida e bebida sendo servidas 24 horas por dia em uma embarcação, admiro a dedicação e a paciencia do staff de animação destes cruzeiros.
A breguice imperava tão completamente que meu bigode até parecia cool, ainda mais com eu andando para cima e para baixo agarrado a um livro e tentando achar um recinto (que não fosse o meu cavernoso quarto) que não estivesse tocando axé e/ou não tivesse um grupo da terceira idade se alongando diante de uma quase afônica animadora.
"Ela é dog! / dog / dog / dog!"
A comida era em tremenda quantidade e variedade. Já a qualidade deixava a desejar em alguns momentos, principalmente porque devido a escala em que ela tinha que ser preparada, muito tinha que ser armazenado pronto antes de servir, o que impacta a qualidade final. Mesmo assim, nada horrível. Passável. Mas o vinho… esse eu aprendi. Só em quantidades moderadíssimas e tomando muita água junto!
Já os bares eram ótimos, equipadíssimos com todos os tipos de bases e misturas básicos e alguns exóticos. O preço dos drinks era salgado (e acrescido de um imaginário 15% 15!), mas sempre no fim da tarde eu embalava a leitura sobre a história da Rússia com um Bloody Mary (bem apimentado) ou apreciava um ou outro número musical apreciando um Negroni.
Sim, tinha música ao vivo também, e de qualidade às vezes. Durante a noite o teatro abria também em turnos, com o pessoal do primeiro turno do jantar assistindo o segundo turno do show e vice-versa. Não resisto e tenho que falar: era necessário dividir até o horário do alimento para o espírito, de tanta gente que estava no navio. Os shows eram um misto de musical e variedades (mágica, acrobacias, etc.). Os cantores e dançarinos eram sempre os mesmos, e com um figurino saído de uma loja de aluguel de fantasias mas, assim como todo o resto da experiência, dedicados em fazer o máximo para os passageiros. Até me emocionei com um tango cantado e dançado ao som de “Roxanne”.
Assim como o tom conversacional também me alonguei como os líricos posts recentes, portanto vou encerrando por aqui este resumo da experiência da vida aquática de Douglas Spadotto nessas férias. Em seguida, a parada em Ilhéus: calor, cacau e decadência.
Um tempinho para respirar (ou fumar um, segundo o post anterior, hehehe), mas aqui está a parte 4 das fotos de Cuba. Desta vez, Santiago de Cuba, capital da província do Oriente, às vésperas da comemoração dos 50 anos do Triunfo da Revolução.