Uivando na Lua

por dougspadotto em 5 de fevereiro de 2010

Em uma destas noites sufocantes, em que o calor do sol diário parecia continuar a afligir a Terra refletindo na Lua noturna, na poltrona entre tela e janela finalmente assisti a “Lunar” (“Moon“, 2008). Já resignado por ter perdido o show do Metallica e estar prestes a perder o show da Beyoncé, me surpreendi com este filme indie que tinha entrado em meu radar lá por 2007 e do qual perdi contato até então.

O trailer me intrigou, e as comparações com “Solaris” e “2001” foram imediatas senão inevitáveis. Mas o que 2001 tem de extremamente assustador e Solaris de extremamente psicológico, Lunar consegue comprimir estes dois extremos em um filme novo, em que o humano toca o espectador, graças à(s) performance(s) perfeitas de Sam Rockwell, e o elemento de thriller é muito bem dosado pelo diretor.

"A 250.000 milhas de casa, o mais difícil é enfrentar a si mesmo."

O filme acompanha o final de uma jornada de 3 anos de um empregado da Lunar Industries, que coleta material na Lua para a geração de energia limpa na Terra. Ele é o único humano na base, acompanhado de um computador que o ajuda, Gerty (“interpretado” por Kevin Spacey).

A rotina, o isolamento e seus efeitos são muito bem acompanhados nos primeiros minutos do filme. É claustrofóbico, angustiante, em alguns momentos até engraçadinho. Novamente, genial parceria entre diretor e o protagonista aí. A partir do segundo ato, um acidente dá inicio a porção thriller de ficção científica do filme, com clones, conspirações e até uma dose de computador maligno.

Não deixe esta carinha simpática te enganar...

Como observei ali em cima, nada é extremo no filme. Até quando a trama vai se desenrolando com estes elementos conhecidos de sci-fi, o conflito humano continua em primeiro plano, com os clones discutindo memórias, propósitos e seu(s) futuro(s). Sam Rockwell está fantástico assim, acreditem. Este ator, se não parecesse tão deslocado do sistema de Hollywood, estaria empilhando estatuetas por aí. Só que ele parece se encontrar nestes papéis de filmes menores, cults (Confessions of a Dangerous Mind, Matchstick Men e, logo antes de Lunar, Choke). E nós amantes do cinema agradecemos, pois vivemos de filmes bons, não de prêmios.

Vale nominar (não para prêmios, ainda) o diretor do filme, o quase-estreante Duncan Jones, que aparece como uma promessa do cinema de ficção científica de qualidade, com seu filme anterior “Whistle” sobre um assassino via satélite que vira alvo de sua própria arma e seu próximo projeto, “Source Code”, acompanhando um soldado que acorda no corpo de um trabalhador de escritório.

Jogar o humano contra o terror trazido pela tecnologia. Esta velha fórmula parece encontrar novas abordagens nesta era em que o terror tecnológico já está presente em nosso dia a dia, e o que mais nos aterroriza é sermos humanos.

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A comédia da vida real

por dougspadotto em 21 de julho de 2009

Tenho assistido em doses homeopáticas ao documentário The Comedian (2002), produzido e estrelado por Jerry Seinfeld, acompanhado de mais um grande elenco de comediantes de stand-up. O documentário acompanha o retorno de Jerry aos palcos alguns anos após o fim de sua bem-sucedida série de TV, e também um comediante trabalhando para fazer um nome e conseguir a fama (Orny Adams).

Diálogo de gerações

Diálogo de gerações

O filme tem um valor agregado muito maior do que resultaria da simples colagem de pedaços de shows de diversos comediantes. O grande trunfo do filme são os bastidores da vida destes profissionais, com toda a angústia e glória que a profissão pode trazer.

É um filme sobre a paixão pelo que você faz. Todo mundo com um amor suficiente pela sua profissão sofre com os mesmos demônios e se recompensa com os mesmos louros, que nem sempre são monetários.

Nos primeiros momentos com o comediante em ascensão Orny Adams, é visível a montanha-russa de emoções que é a vida de um profissional apaixonado, com um sentimento de dever cumprido sem igual, seguido de muita dúvida sobre se ele pode continuar fazendo isso. Sempre há uma ponta de receio quanto ao próximo trabalho.

Dúvidas e sucesso

Dúvidas e sucesso

“Trabalho, trabalho, trabalho…”. Diversas vezes Jerry mostra no documentário que fazer as pessoas rirem é trabalho duro. Ele chega até a comparar a profissão com a de construtores civis. E a comparação funciona também no orgulho proveniente de ver algo sendo construído, seja um prédio ou uma parede de risadas.

O filme termina com Jerry conversando com o lendário Bill Cosby, que mesmo em sua aposentadoria ainda se dedica à difícil arte da comédia stand-up, movido a muito pouco além da paixão pelo ofício. A fama e o dinheiro vem e vão, assim como a satisfação de fazer um bom trabalho aparentemente parece ir e vir. Mas a paixão pelo que se faz é para sempre.

JerrySeinfeld

escrito por Douglas
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Natalie Portman, uma atriz "bipolar"

por dougspadotto em 30 de junho de 2009

Assisti ontem novamente à Guerra nas Estrelas: A Vingança dos Sith (Star Wars: Episode III – Revenge of the Sith, 2005) para um estudo detalhado para um projeto de barba que estou maquinando (sim, Ewan), mas o que me esmigalhou o coração e me deixou ligado na telinha (assisti no laptop) foi a espera das poucas cenas em que a queridíssima Natalie Portman aparece.

Quanto pathos pode carregar aquela pequena figura! Duas cenas em que ela chora desesperada o seu amor que vai para o Lado Negro são o suficientes para me transformar em gelatina! Observem o trecho de uma delas:

Mas não é só neste filme que a senhorita (sim! solteira ainda! aquele hippie venezuelano não conseguiu tirá-la do mercado) Portman traz uma carga emocional “desproporcional”, no bom sentido, que salta da tela.

Relembro a cena inicial de Free Zone (2005), do diretor israelense Amos Gitai, onde a personagem da atriz segue por uma estrada na Jordânia em desesperadas lágrimas.

freezone

Choro desesperador

Ao mesmo tempo que a atriz consegue nos trazer às lágrimas, ela também consegue fazer o peito se aquecer com um singelo sorriso. Sorrisos que parecem valer ainda mais à pena se comparados aos abismos emocionais pelos quais suas personagens passam.

Sorriso contido

Sorriso contido

Iremos ver menos e menos dela nas telas, agora que ela está focando na carreira de psicóloga, mas sempre teremos estes seus momentos clássicos para rever sempre que precisarmos de um empurrãozinho no emocional, para cima ou para baixo.

Porque, uma vez na tela, não podemos tirar os olhos dela (chora, co-editora! Hihihi):

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"Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás"

por dougspadotto em 27 de maio de 2009

Ou vice-versa, meu caro Che, ou vice-versa. Podemos agregar ternura, mas sem “amolecer”, por assim dizer.

Fico receoso de ver as pessoas só como uma coisa ou outra. Não é com homens virando mulheres e mulheres virando homens que chegaremos a um entendimento. Mas a mescla de qualidades para a anulação de “defeitos” é o caminho a seguir.

Nossa vida em família, a criação e a convivência até a idade adulta e além dela, moldam nossa percepção, mas também nossos jeitos de ser, até no nível básico de o que é ser masculino ou feminino.

E aí está a beleza da “mudança” que está vindo, já veio ou virá. O preconceito deste círculo que nos “forma” praticamente não existe mais, e agora o único obstáculo vem do indivíduo decidir o que quer ser. Essa liberdade existencial tem suas armadilhas também. Não é à toa que tanta gente faz psicanálise atualmente.

Precisamos entender nossas opções, avaliar bem os caminhos e seguir o que mais nos apetece para atingir a felicidade.

Em busca da felicidade

Em busca da felicidade

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Terceirizando alter-egos

por dougspadotto em 26 de maio de 2009

Analisando o post anterior da Larissa, não parei de balançar a cabeça concordando, e só posso tentar adicionar.

Sem dúvida um relacionamento amoroso é a busca por plenitude. O melhor que você acha de uma pessoa é o que você queria para você mesmo. Amor tem a ver com admiração e, no melhor dos casos, busca pela perfeição. Busca por absorver o que é melhor da pessoa para você, colocando um verniz novo na sua máscara, até ela ficar perfeita e se tornar o seu rosto, para sempre.

É possível sim o “para sempre” aqui. Acredito nisso. Mas para isso a admiração e busca pela felicidade (“perfeição” é forte demais) devem ser uma via dupla incondicionalmente aberta entre os dois. E encontrar isso é bem mais difícil do que parece.

Estas camadas de verniz ficam mais fáceis de encontrar em relacionamentos de amizade, onde o compromisso é menos exclusivo. Por isso que normalmente amizades duram para sempre, relacionamentos bem menos. Apresento-lhes meu amigo Vijai:

हैलो दोस्त !

हैलो दोस्त !

Não preciso que ele queira ser como eu. Eu o encontro pela Internet quando quero falar de cricket ou futebol. Gosto da cultura dele e acho que só pode adicionar eu conviver com ele, despretensiosamente, até um tufão destruir Bangalore.

(Vijai é um personagem fictício que criei para este post)

Talvez poderíamos transportar esta falta de pretensão para um relacionamento amoroso (viver ele como se fosse o último dia antes do tufão atingir Bangalore por assim dizer), mas isto com certeza esgotaria uma, se não as duas partes deste arranjo.

Amor tem muito a ver com sorte, além de todo o trabalho envolvido em absorver a máscara do parceiro. É a relação social mais difícil de se conquistar e manter. Mas é a que mais nos aproxima de nos tornarmos reais e não um conjunto de máscaras.

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