Vidas privadas

Alguns de vocês que visitaram o blog ontem à tarde ou que viram o feed de RSS devem estar se perguntando o que aconteceu. Posso garantir que está tudo bem, o susto passou.

Voltando do hospital ironicamente sentei para assistir o episódio mais recente de House MD. Precisava de qualquer coisa para descarregar, e nada como seriados enlatados para fazer isso. Mas qual foi minha surpresa quando o paciente da vez foi uma blogueira que publicava online tudo que acontecia na sua vida offline.

O episódio foi cheio das reviravoltas usuais, mas logo no começo o argumento “privacidade x comunidade” foi trazido em algumas cenas. O dr. Taub, mesmo sendo um adúltero reformado, defendeu que a privacidade é uma invenção moderna. Sem segredos você tem comunidade, e a proteção resultante. House disparou que é bem por este motivo que as pessoas se mudam de vilarejos para as cidades grandes.

Blogs, micro-blogs e redes sociais podem ajudar a nos aproximar, sem dúvida. Mas não podem substituir o contato com a vida real, com pessoas de verdade e, principalmente, não podem servir como ferramentas de decisão. Não é porque um desconhecido em Angola comentou que você estava certo em não tomar um certo remédio que você irá parar.

Claro que o exemplo é extremo. É ficção. Um blog pode ser uma válvula de escape de seus pensamentos mais íntimos. Mesmo que direcionados a algo ou alguém, às vezes é melhor pensar em um post como uma catarse que começa e termina nela mesma. Joga-se toda (ou alguma) de sua energia criativa na massa disforme dos seus pensamentos e cria-se um cinzeiro mesmo que você não fume, ou um vaso que você vai dar para alguém que vai usar por um tempo e depois jogar fora.

Nunca considerei posts ou micro-posts como reais pedidos de ajuda, ou chamados à revolução. Considero-os pequenos cinzeiros e vasos que vou construindo, praticando para um dia talvez moldar uma jarra bonita. Mas depois de hoje, do meu episódio real de House, eu aprendi que não são todos que se comportam assim. Existem pessoas buscando um certo sentido de comunidade, proteção ou simplesmente uma audiência para aliviar as pressões do dia-a-dia, que aparentemente só aumentam quando se corta muito perto do osso e se escolhe revelar segredos pelas metades em uma coleção de links qualquer.

Estamos engatinhando para uma nova forma de comunidade, talvez agora levando em conta a recente a adição da privacidade neste conceito tão avesso a mesma. É normal acontecerem alguns tombos enquanto tentamos ficar de pé. Mas é bom saber que podemos nos apoiar uns nos outros para superar os obstáculos, sejam eles reais ou virtuais.

por dougspadotto em Comportamento,Meta,Pessoal e tem 1 comentário

Eu como tarefa

Se Chaplin estivesse vivo ele desbancaria qualquer “The Office” com um “Tempos Mais Modernos” satirizando os delírios de produtividade que se manifestam nos escritórios ao redor do Mundo. Mas como não temos mais aquele gênio presente, temos o Twitter.

Sim, Twitter pode ser a marca, mesmo que irônica, da produtividade do trabalhador de escritório. É o ego de pessoas amarradas ao computador por 8, 12, 16 horas diárias manifestado em 140 caracteres.

Sinto pena de quem emite tweets do tipo “odeio meu emprego”, “quero matar meu chefe” e “socorro, ainda são 3:27 da tarde!”. No mundo do trabalho virtual, onde os objetivos cumpridos raramente são palpáveis, vejo cada tweet como um tijolo de uma parede etérea levantada diariamente pela crescente categoria dos pedreiros virtuais, na qual me incluo.

Tijolos intocáveis

Tijolos intocáveis

Diferente do construtor civil normal, o trabalho atrelado ao computador e à Internet é solitário, ainda mais se feito a partir dos cada vez mais populares home offices. Algum contato humano, algum julgamento de valor é necessário para manter um elo com um mundo maior do que as listas de tarefas diárias e objetivos do quartil, mesmo que de uma forma virtual.

O problema é quando isto começa a abraçar demais da sua vida real. Quando moldar e manter a sua personalidade virtual atrapalha sua personalidade real, seja ela pessoal ou profissional.

Assim como as maravilhas que a linha de produção nos trouxe, dos Fords modelo T aos processadores de alimentos, a “nova economia” também oferece novos benefícios, mas também problemas a serem tratados. Nossa poluição agora é da alma, do ego, que pode suprimir a aplicação do conhecimento em nossos trabalhos de escritório da mesma forma como a poluição destruía os pulmões do mineradores de carvão, tomando suas forças e os deixando sem emprego.

Se o canário morrer, algo está bem errado...

Se o canário morrer, algo está bem errado...

por dougspadotto em Comportamento e ainda não tem comentários
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