Raison d’être

No dia 21 do mês passado este blog completou seu primeiro ano de existência. Primeiro! Eu ainda tenho dificuldade em acreditar que faz tão pouco tempo. Parecem pelo menos três! Eu estava me bronzeando na Escandinávia e longe de qualquer computador, então fiquei todo este tempo fora, e como estas pequenas férias offline passaram rápido em comparação!

Dos primeiros posts com cowboys metafísicos e o Poderoso Chefão como cânone da cultura ocidental em trocas relâmpago com minha cara co-editora original (faz pouco mais de seis meses desde o “cisma”?)  aos atuais posts popularíssimos do Everton (Topete) e as contribuições eventuais mas caras de Alexandre (Cabelo), Cristiano, Willian e Vinícius, este blog já passou por tanta coisa, e com ele o Mundo, e com ele, eu. Nós.

Até um filme de Star Trek sem o Piccard tivemos neste ano!

Em “Jornada nas Estrelas: Insurreição” (Star Trek: Insurrection, 1998) os Ba’ku, uma raça de imortais, tem como filosofia que “todo o Mundo cabe em um momento perfeito, e você pode viver nele”. Mesmo sendo imortais, a percepção do momento para esta raça era algo inestimável. A imortalidade desta forma passava como o vento, mesmo não indo a lugar algum.

Sinto um pouco disso olhando para trás na história de um ano deste blog. Prestando atenção aos arredores, seja para brincar, criticar, procurar idéias novas ou simplesmente exercitar o cérebro e os dedos, o tempo pareceu congelar, se movendo devagar, o contrário do que a maioria das pessoas experimenta no seu cotidiano atribulado sem tempo para nada. Nestes momentos congelados, que já parecem tão distantes no passado, um post, link ou vídeo era o Mundo todo enquanto era escrito (e depois lido), por ser algo que reunia as condições dos arredores e o imortalizava em texto e referências. O momento era pensado, e isso o carregava deste valor metafísico impossível de quantificar.

A filosofia simples de Jornada nas Estrelas na verdade tem raízes na ioga tibetana, onde já ouvi falar que prestar atenção ao momento é muito importante. No budismo em geral a “mindfulness” é perseguida (ou não, para os zen budistas, hehe). Até em Friends ela aparece, com o “unagi” do Ross, lembram?

Com este post marco este pequeno retorno, e espero que quem ler o blog também experimente os benefícios das nossas doses diárias de momentos nem tão perfeitos assim, mas que fazem o tempo e o Mundo muito mais divertidos de serem apreciados.

P.S.: Tem layout novo por aí, aguardem! Mesmo com o andar do tempo alterado no blog, fora dele a correria do dia-a-dia impede algumas melhorias estéticas que demandam tempo.

por dougspadotto em Atualidade,Comportamento,Meta e tem (2) comentários

Saindo para uma visita

Como se não fosse uma correria sempre ter conteúdo aqui para o blog, aceitei o convite de uma amiga jornalista, agora blogueira, para escrever às quintas-feiras. A coluna se chama Indignóid, no blog Musicanoid.

O primeiro post (clique para abrir) era para ser novamente sobre os políticos saindo dos cargos, mas andando por uma avenida em obras relembrei de uma cena pitoresca que presenciei em Cuba e a partir daí começou a confusão… ou o “pilar de reflexão contemporânea” conforme a Tatiana gentilmente descreveu! Aproveitem!

Clique aqui para ir, já!

por dougspadotto em Atualidade e ainda não tem comentários

Ajustando

Quebrado de um treino de rugby, no qual cheguei atrasado porque esta tirinha tem muito a ver com o atual estado do blog. Ajustes para não só servir conteúdo mas aumentar a interatividade.

"Eu sou um rockstar!" ... ... "Eu sou um cowboy solidário."

Clique para ver maior

Ah, como eu queria saber desenhar… *aawwwoooo!!!

por dougspadotto em Meta e ainda não tem comentários

Vidas privadas

Alguns de vocês que visitaram o blog ontem à tarde ou que viram o feed de RSS devem estar se perguntando o que aconteceu. Posso garantir que está tudo bem, o susto passou.

Voltando do hospital ironicamente sentei para assistir o episódio mais recente de House MD. Precisava de qualquer coisa para descarregar, e nada como seriados enlatados para fazer isso. Mas qual foi minha surpresa quando o paciente da vez foi uma blogueira que publicava online tudo que acontecia na sua vida offline.

O episódio foi cheio das reviravoltas usuais, mas logo no começo o argumento “privacidade x comunidade” foi trazido em algumas cenas. O dr. Taub, mesmo sendo um adúltero reformado, defendeu que a privacidade é uma invenção moderna. Sem segredos você tem comunidade, e a proteção resultante. House disparou que é bem por este motivo que as pessoas se mudam de vilarejos para as cidades grandes.

Blogs, micro-blogs e redes sociais podem ajudar a nos aproximar, sem dúvida. Mas não podem substituir o contato com a vida real, com pessoas de verdade e, principalmente, não podem servir como ferramentas de decisão. Não é porque um desconhecido em Angola comentou que você estava certo em não tomar um certo remédio que você irá parar.

Claro que o exemplo é extremo. É ficção. Um blog pode ser uma válvula de escape de seus pensamentos mais íntimos. Mesmo que direcionados a algo ou alguém, às vezes é melhor pensar em um post como uma catarse que começa e termina nela mesma. Joga-se toda (ou alguma) de sua energia criativa na massa disforme dos seus pensamentos e cria-se um cinzeiro mesmo que você não fume, ou um vaso que você vai dar para alguém que vai usar por um tempo e depois jogar fora.

Nunca considerei posts ou micro-posts como reais pedidos de ajuda, ou chamados à revolução. Considero-os pequenos cinzeiros e vasos que vou construindo, praticando para um dia talvez moldar uma jarra bonita. Mas depois de hoje, do meu episódio real de House, eu aprendi que não são todos que se comportam assim. Existem pessoas buscando um certo sentido de comunidade, proteção ou simplesmente uma audiência para aliviar as pressões do dia-a-dia, que aparentemente só aumentam quando se corta muito perto do osso e se escolhe revelar segredos pelas metades em uma coleção de links qualquer.

Estamos engatinhando para uma nova forma de comunidade, talvez agora levando em conta a recente a adição da privacidade neste conceito tão avesso a mesma. É normal acontecerem alguns tombos enquanto tentamos ficar de pé. Mas é bom saber que podemos nos apoiar uns nos outros para superar os obstáculos, sejam eles reais ou virtuais.

por dougspadotto em Comportamento,Meta,Pessoal e tem 1 comentário

Cansei de ser cowboy: Episódio 1

Este é o primeiro post realmente colaborativo do blog. Larissa e eu fizemos o brainstorm via MSN baseado numa idéia original dela. Sugeri este cenário e Larissa editou os diálogos, daí fui descrevendo o cenário e personagens junto com ela.

Entardece e o sol se põe entre as suaves montanhas que delimitam o Hunter Valley. Duas figuras saem de um portão de madeira alto, virando à esquerda na estrada asfaltada que segue em linha reta a perder de vista.

A estrada é margeada por pastos muito verdes dos dois lados, sendo que as montanhas ficam à direita dos cowboys, que seguem pelo acostamento, cada qual com seus pertences em uma mochila de algodão e uma sela jogada sobre um ombro. As primeiras estrelas começam a aparecer.

nsw hunter valley road

Larry, de estatura baixa e poucos pêlos no rosto, acende o cigarro que vinha enrolando até chegarem ao portão, dá uma baforada com prazer e começa:

- A realidade é dura. Qual é a opção? Existe a ficção?

Dusty, seu hirsuto companheiro, que desde a saída da fazenda só pensava em onde iriam dormir e encontrar trabalho no dia seguinte, olha ao redor, vê outra estrela surgir e decide acompanhar este trem de pensamento, já que eles estavam à pé mesmo:

- Sim?

Entendendo que este “Sim” é só a tampa que segura opiniões de seu companheiro, Larry exala a fumaça e elabora:

- Veja nos filmes. Na ficção cowboys são seguros de si, sempre com um sorriso no rosto e um brilho nos olhos. Mas olhe nós aqui, fudidos e sem ter para onde ir. Só que entre o John Wayne e nós, qualquer um se emocionaria muito mais com ele.

- Certo, e então… – Dusty sabe que agora é que a história começa.

- A única forma que temos como definir a realidade é por emoções, certo? Então não é um paradoxo que as pessoas se emocionem com a ficção? – conclui Larry em sua hipótese.

Considerando um assunto relevante, especialmente pela parte do “fudidos e sem ter onde ir”, Dusty engrena:

- Hm. Não. Elas se emocionam com ficção porque elas identificam nela a realidade.

Depois de um momento, nem Dusty mais acredita nisso, então incentiva:

- Simples. Mas será só isso?

Com seu cigarro já pela metade (Deus, como ele precisava de um!), Larry prossegue:

- Mas não reagimos emocionalmente com as coisas que acreditamos ser reais? reais? Nós somos reais o suficiente!

- Nope. Reagimos também por… analogia. Porque é “parecido” com o real. Mesmo que este “parecido” seja uma ficção científica mucho loca. Não podemos sentir só pelo real.

“Sempre com estes filmes e analogias”, pensa Larry. Mas é bom. Continua:

- Ok, mas mesmo assim, é uma reação emocional. Se é parecido, você acredita, se você acreditou é porque te emocionou de alguma forma. É um paradoxo.

- Entendi. – concorda Dusty. – Em formato de proposições lógicas: Se A então C e Se B então C. Então Se A então C. Se realidade emociona. E se ficção emociona, então realidade é igual a ficção.

- Isso! Isso! Exatamente! – Larry joga fora o seu cigarro, que solta faíscas ao bater no arame na beira da estrada – Mas pergunte a alguém se acredita que ficção é real. Vai dizer que não. Logo, um paradoxo.

- Pero… (Dusty morou um ano na fronteira) – Só chega a ser um paradoxo se a pessoa separa a ficção do real. Senão, é só lógico. Meio que o observador muda a natureza da realidade dessas proposições lógicas.

Larry vê a conversa chegar a pontos que ele não antecipou, e isso o agrada. Nem enrola outro cigarro. Muda a sela para o outro ombro e continua:

- Mas quando há aceitação de um lado, já a negação do outro. Então há o rompimento, a separação. Não me parece tão lógico assim…

-Isso. Daí é paradoxo. Isso é chave. Assumir que um é falso. Daí aquela cadeia de “se .. então” não vale. “Se verdadeiro então verdadeiro”. “Se verdadeiro então falso”. “Se realidade então emociona”. “Se ficção então não emociona”. Daí concluir que realidade igual à ficção é falso.

Rapidamente Dusty checa sua lógica, e continua:

- Mas o problema é que as pessoas negam esta última parte, mesmo quando “Se verdadeiro então verdadeiro”. “Se verdadeiro então falso.” Ou seja: “Se realidade então emociona. Se ficção então emociona”. Duas verdades. E negam a conclusão. Paradoxo.

O céu já está escuro, só um fio de sol ainda delimita os topos das montanhas. Larry já começa a enrolar outro cigarro:

- Um pouco confuso mate, mas eu entendi. Então: Respondemos emocionalmente as coisas que acreditamos ser reais e não acreditamos que ficção seja real e reagimos emocionalmente à ficção igual a: um paradoxo.

- Minha professora de Lógica não diria melhor. – zomba Dusty.

- Vai se fuder! – Larry dá um chute com sua bota na perna de Dusty.

- Enrola mais um pra mim aí… parece que esta caminhada ainda vai longe.

por dougspadotto em Uncategorized e tem (2) comentários
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