Pause

Minha dieta de cultura nessas semanas passadas está mais pulverizada do que adubo químico. Parece que fazem meses que não vou ao cinema. Teatro foi semana passada, concerto de música duas semanas atrás. Mas é uma, daí outra, daí talvez outra. Muito diferente das minhas semanas de meses passados, com eventos culturais, a maioria cinema, todos os dias da semana.

Mas pensando bem não há tanta diferença em quantidade. Só a forma de audiência dessas manifestações que mudou. Ao invés de cinema, teatro e concertos, tenho torrents, blogs e uma variedade tremenda de sites de streaming the música à minha disposição, 24 horas por dia, 7 dias por semana. Com uma intensidade que faz até esta divisão de horas, dia e semana obsoleta. Me pego às 3 da manhã lendo a BBC, ou assistindo algum filme que sempre quis assistir mas que, “aquele momento” da escolha, seja no cinema da locadora, nunca chegou.

Então quando a descoberta de um novo “disco” acontece, e o tempo é reservado só para apreciá-lo é encontrado, quando aquele sentimento de ouvir pela primeira vez a “faixa dois” do CD (porque a primeira só dá uma introdução) é sentido, é algo magicamente nostálgico. E neste caso, reflexivo.

Em meio a maratonas de “Curb you Enthusiasm”, filmes indicados ao Oscar e remakes de Evangelion, separei um tempo para ouvir o novo CD da banda de hip-hop The Roots, “How I Got Over“. Ele demorou anos para ser lançado. Entrou no meu radar, saiu, e quando voltou ele já estava entre nós. E como foi bom. Tanto como música como um botão de pause potencialmente depressivo sobre a velocidade que venho adquirindo para sorver estes bens culturais.

Passando roupa neste sábado, ouvi pela terceira vez o CD e finalmente seu padrão foi evoluindo. As letras claras, a mescla com instrumentos ao vivo (que dá um novo ar ao hip hop, que estava se tornando “madonesco” à la Jay-Z) e as batidas poderosas trouxeram a experiência de ouvir música de volta a um nível “clássico”. Recheado de participações especiais, e com algo quase inédito em músicas de hip-hop, refrões, é um “puta disco”. Recomendo.

Do fim de semana ouvindo um CD apenas, caí no padrão pulverizado já na segunda-feira enquanto trabalhava. Não deu outra. O pause do The Roots levantou seu potencial depressivo e agora estou em dúvida, talvez mais lento ao sair correndo por um repositório quase infinito de cultura (e bobagens). Hoje à noite vou sair e saborear mais um (só um) item na agenda. Voltar para casa, dormir, acordar…

por dougspadotto em Arte,Atualidade e ainda não tem comentários

Uma nova história das coisas

Tudo tem seus prós e contras. Até a ascensão da sociedade consumista que aparentemente está nos levando a confirmação do calendário maia tem o seu “pró”, que depois se transforma em “contra” e, como no calendário em questão, o ciclo se renova.

O famoso documentário na Web “The Story of Stuff” (A história das coisas), causou  furor desde o seu lançamento, sendo ele mesmo um exemplo de massificação, com mais de 7 milhões de espectadores até hoje. Este simpático filme mostra como o ciclo de produção está tão fora de controle que um rádio custa menos do que o valor do seu aluguel na prateleira da loja em que é vendido. Termina com lições de moral sobre como corrigir as coisas.

stuff

Um protótipo interessante que parece casar a obsolescência programada com a preocupação com o meio ambiente é este laptop, ainda conceitual, feito de papelão. Os críticos dizem que é mais lixo eletrônico só esperando para acontecer, pois a durabilidade de um equipamento assim é uma fração da de seus elegantes MacBooks de alumínio.

Já eu vejo isso como uma oportunidade de aumentar ainda mais o impacto do programa “Um Laptop por Criança” (OLPC), que está indo para a sua versão 3.0 com um conceito de “laptop como folha de papel“.

Em um post anterior sobre a violência e sua aparente justificativa dada a massificação dos meios de produção de armas e do medo (via meios de comunicação), disse: “…deveríamos encontrar soluções para utilizar nossos avanços dos meios de produção para massificar a educação, desenvolvendo consciência.”

O laptop de 100 dólares

O laptop de 100 dólares

A escala industrial que barateou os componentes do XO (o laptop da Fundação OLPC) e trouxe seu custo para menos de 100 dólares também permitiu o aumento do lixo eletrônico. Segundo Nicholas Negroponte, o visionário fundador da OLPC, depois da introdução do XO em sociedades da América Latina, aumentou o interesse da população em adquirir laptops “um pouco melhores”, aquecendo a economia, aumentando o acesso a informação mas ao mesmo tempo gerando uma reserva de lixo eletrônico para um futuro a médio prazo.

Isso sem contar os fashionistas tecnológicos que compraram XOs só como um brinquedo para mostrar para seus amigos.

Isso sem contar os fashionistas tecnológicos que compraram XOs só como um brinquedo para mostrar para seus amigos.

Acho interessante olharmos para o lado bom dessas inovações do mercado de consumo, especialmente de tecnologia, que trazem acesso a educação e informação para pessoas que sem elas estariam ainda na escuridão. A mão invisível do mercado pegará estas “lanternas” obsoletas e as transformará depois, tenho certeza.

por dougspadotto em Atualidade e tem (2) comentários

Falando bobagens

Ao me aprofundar no tema sexo e gemidos, esbarrei com esta matéria da BBC Magazine de hoje: uma reportagem especial sobre o mercado pornográfico para pessoas cegas (em inglês, sorry). Quanta sofisticação em algo que até agora neste blog está sendo descrito como tão animal.

Vou ... você como um ... no ... e então ...

Vou ... você como um ... no ... e então ...

A indústria pornográfica, talvez por atuar em um recanto tão discriminado do  comérico de prazeres (diferente do chocolate, álcool e cigarros), até hoje não tinha se sofisticado muito em suas produções. Atuações e texto são sofríveis para dizer pouco, mas parece que isto está evoluindo.

Segundo a matéria, existem sites que vendem clips de 12 minutos de “dirty talk”, com homens e mulheres provocando uns aos outros em um texto bem cuidado e, segundo os consumidores, muito sexy.

Talvez nossas necessidades animais estejam indo para um próximo nível, longe de gemidos, grunhidos e necessidades biológicas, mas sim puro estímulo mental. Será?

por dougspadotto em Round 3 e ainda não tem comentários

Serviços mínimos (Simplicidade)

O sol entre nuvens. A brisa que não chega a ser vento. O morno que não chega a ser calor me deseja um suave bom dia ao sair pelas ruas do bairro.

Por reflexo peço o café puro e misto quente de praxe, espero e saio para a mesinha.

Chegam as verduras. “Como uma padaria, poderia, usar tanto verde?”. Feirante entra, senhora confere o caderninho amassado e ele vai embora.

Chega a Coca-Cola, símbolo oposto do verde de antes. Mas, para meu espanto, são garrafas de um litro que fazem sua entrada triunfal depois que a senhora confirma o pedido. Seria uma volta a tempos menos exagerados?

Só posso esperar que sim, e ao sair, vejo o carregador que antes debochei internamente pensando que poderia ser substituído por um robô retirar cuidadosamente dentre os fardos uma porção de garrafas de… água.

por dougspadotto em Uncategorized e ainda não tem comentários
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