Era uma manhã de terça-feira quando começou. Aproveitando uma oportunidade providencial, desci até a casa de praia de um amigo para passar uma semana longe da loucura da Babilônia invernal curitibana.
Chegando à restinga úmida de orvalho para uma caminhada matinal, notei uma casa à venda. Baixa, de tijolos à vista e com sinais de abandono, não era algo a ser notado com tanta curiosidade, não fosse uma lembrança: me disseram esta era a casa do ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner.

Alfredo Stroessner (1912 – 1996), foi presidente do Paraguai por 35 anos, depois de um golpe de Estado que o levou ao poder. Ele foi “reeleito” com margens absurdas durante todos estes anos, o que não aliviou em nada seu perfil de ditador. Na América Latina, somente Fidel Castro permaneceu mais tempo no poder.
Durante seu governo, ele pagou as dívidas do país com o Banco Mundial, ordenou grandes obras de infraestrutura (inclusive participando nas negociações que levaram à construção da usina hidrelétrica de Itaipu) e trouxe um período de estabilidade sem precedentes à pequena nação sulamericana.
Mas todo este progresso veio a um preço muito alto, com um sistema unipartidário onde toda oposição estava sujeita à tortura, prisão e mortes horrendas, parte da infame Operação Condor, um predecessor bizarro do Mercosul, que ligava todas as ditaduras da América do Sul em um sistema de inteligência e repressão de dar inveja à CIA dos nossos dias.
Entre progresso e repressão, a fortuna da família Stroessner nestas três décadas cresceu à galope. Mas um galope de cavalo paraguaio, porque a megalomania inerente dos paraguaios parece diretamente propocional à sua extensão territorial. As propriedadades da família incluíam participações em empresas de extração de diamantes, companhias aeronáuticas e apartamentos em Buenos Aires e Miami. E uma casa de veraneio no bairro de Brejatuba, em Guaratuba, Paraná.

Ao lado da casa há uma pedra onde no passado parecia existir uma placa de metal. Talvez algo que dizia “ex-residência do presidente Alfredo Stroessner”, não há como saber. Mas a restinga antes da praia foi convertida em uma pequena praça, chamada: “praça Alfredo Stroessner”.
Bingo! Era isso aí, eu precisava visitar esta casa. Ligar para a imobiliária, marcar uma hora e literalmente entrar na História.
Desde 1989, quando ele foi removido do poder por outro golpe de Estado, promovido pelo seu co-sogro, Stroessner se refugiou no Brasil, país que sempre lhe atraiu, seja pela parceria ditatorial mas também pela característica bem paraguaia de preferir Guaratuba como refúgio de verão. Guaratuba é, segundo alguns, o “mar paraguaio”. Um homem que encabeçou o país por tanto tempo tem gostos tão comuns quanto o professor torturado na “Técnica”, o centro de tortura do regime? Difícil de acreditar.
Com a comodidade da rede wi-fi na casa de praia, me lancei em busca de fatos concretos nesta “confiável” fonte de informações, a Internet. Aos poucos pude concluir que era fato: Stroessner teve uma casa em Brejatuba. Agora faltava descobrir se a ela era mesmo a pequena casa de tijolinhos à vista.

Um post de um blog feito por um jornalista anunciou que sim, a casa com pichações em frente à praça era a antiga residência do presidente. Tentei contato com o autor do post sem sucesso. Uma busca direta no Google até me trouxe um número da rua, 1260, que fui verificar e não encontrei, em uma avenida onde os números ilogicamente pulavam de 800 para 500, depois de 1700 a 1200.
Frustrado com estas breves buscas físicas, voltei à Internet, e fui recomendado este outro blog, que relata o uso da ex-casa do presidente como centro de tortura da polícia local, especialmente no caso ainda mais bizarro do assassinato ritual pela qual a família Abagge ficou conhecida nos anos 90. A ironia era tão grande que parecia algo mitológico. Eu parecia estar em busca de um unicórnio em um pasto de cavalos.
A casa custa muito mais do que eu sonharia em poder pagar no momento, e isso era o que me impedia de ligar e marcar uma visita. Mas o fim de semana estava chegando e a curiosidade continuava no ar. Liguei para a imobiliária e as chaves estavam lá. Era só passar por lá e um corretor abriria as portas da mítica casa.
Depois de outra caminhada na praia, entrei na imobiliária. Com um chinelo sujo de areia e camiseta puída, não tinha chance de ser levado a sério como comprador. Então, resignado mas confiante, perguntei a uma vendedora se a casa de frente para o mar e da “praça dos paraguaios”, como é popularmente conhecida, era a ex-residência do presidente, ao qual ela respondeu “Não, já perguntaram isto para o Ricardo (?), mas não é não”, com um sorriso meigo que desarmou qualquer pergunta subseqüente. Agradeci, e fui embora.
Ainda andei sem rumo pela praia de Brejatuba, tentando encontrar na arquitetura das casas alguma pista sobre qual teria sido a casa do ditador, mas a curiosidade foi sendo tranqüilizada e, aos poucos, como o próprio Stroessner, que morreu pacificamente aos 93 anos de idade em Brasília, desapareceu.

Uma das últimas fotos tiradas do ditador paraguaio Alfredo Stroessner