Mais estranho que a ficção

Ultimamente tenho encarado uns filmes cada vez mais esquisitos. Michel Gondry seria um Spielberg comparado com Taika Waititi (de Eagle vs Shark, comentado aqui) ou com Jared Hess,  que guiou um  filme que nem deu sinal de aportar por aqui, “Gentlemen Broncos” (2009). Além de Jemaine Clement (da banda Flight of the Conchords), estes dois filmes tem algo mais em comum: são simplesmente sobre a vida, como cada coisa que acontece nela é esquisita, linda e mágica, tudo ao mesmo tempo.

“Gentlemen Broncos” conta a história do adolescente Benjamin Purvis, educado em casa por sua criativa mãe Judith, e escritor de histórias de ficção científica em tempo quase integral, quando não trabalha no shopping vendendo camisolas para senhoras. Em um festival para jovens escritores em algum remoto interior dos EUA, onde os anos 80 parecem durar para sempre, ele encontra o dr. Ronald Chevalier (Clement), um escritor sem talento porém cheio de si. Sem idéias próprias, ele adapta uma história de Benjamin, que ao mesmo tempo tem que viver com outra adaptação do seu trabalho, esta autorizada, na forma de um filme quase caseiro produzido por sua indeterminada relação Tabatha (Halley Feiffer).


Como “Eagle vs Shark” foi sobre as esquisitices do amor, “Gentlemen Broncos”, além de insanamente divertido, é sobre crescer, se adaptar ao Mundo mesmo com as coisas não indo do seu jeito. Relevar os abusos da realidade contra a sua versão imaginada do que a vida deve ser. E revidar quando necessário (e se possível ao som de Black Sabbath).

Os filmes anteriores deste diretor, Nacho Libre e Napoleon Dynamite, falharam comigo, respectivamente pela overdose de Jack Black e falta de conexão com a minha atualidade. Este, mesmo sendo sobre um adolescente em algum fim de Mundo sonhando com algo maior, me pegou do começo ao fim. Além de todo o fator “feel good” da trilha sonora oitentista, do ambiente criado pelo cenário e figurino e da história cativante, as seqüências das diversas adaptações do livro de Benjamin são impagáveis, tanto pela criatividade do diretor quanto a atuação caricata espetacular de Sam Rockwell.

Ao invés de ser derrubado pela vida, continue sonhando. Uma mensagem tão brega quanto esta só poderia permear um filme esquisito como este, tão esquisito quanto a vida que devemos levar por este lema.

P.S.: O trailer do filme você vê aqui. E o filme está nas locadoras ou no site de torrents mais próximo de você. Dado que você está lendo um blog e não esperando em um semáforo ou ponto de ônibus, acho que a escolha é fácil. Btjunkie, talvez?

por dougspadotto em Arte,Cinema e ainda não tem comentários

Uivando na Lua

Em uma destas noites sufocantes, em que o calor do sol diário parecia continuar a afligir a Terra refletindo na Lua noturna, na poltrona entre tela e janela finalmente assisti a “Lunar” (“Moon“, 2008). Já resignado por ter perdido o show do Metallica e estar prestes a perder o show da Beyoncé, me surpreendi com este filme indie que tinha entrado em meu radar lá por 2007 e do qual perdi contato até então.

O trailer me intrigou, e as comparações com “Solaris” e “2001” foram imediatas senão inevitáveis. Mas o que 2001 tem de extremamente assustador e Solaris de extremamente psicológico, Lunar consegue comprimir estes dois extremos em um filme novo, em que o humano toca o espectador, graças à(s) performance(s) perfeitas de Sam Rockwell, e o elemento de thriller é muito bem dosado pelo diretor.

"A 250.000 milhas de casa, o mais difícil é enfrentar a si mesmo."

O filme acompanha o final de uma jornada de 3 anos de um empregado da Lunar Industries, que coleta material na Lua para a geração de energia limpa na Terra. Ele é o único humano na base, acompanhado de um computador que o ajuda, Gerty (“interpretado” por Kevin Spacey).

A rotina, o isolamento e seus efeitos são muito bem acompanhados nos primeiros minutos do filme. É claustrofóbico, angustiante, em alguns momentos até engraçadinho. Novamente, genial parceria entre diretor e o protagonista aí. A partir do segundo ato, um acidente dá inicio a porção thriller de ficção científica do filme, com clones, conspirações e até uma dose de computador maligno.

Não deixe esta carinha simpática te enganar...

Como observei ali em cima, nada é extremo no filme. Até quando a trama vai se desenrolando com estes elementos conhecidos de sci-fi, o conflito humano continua em primeiro plano, com os clones discutindo memórias, propósitos e seu(s) futuro(s). Sam Rockwell está fantástico assim, acreditem. Este ator, se não parecesse tão deslocado do sistema de Hollywood, estaria empilhando estatuetas por aí. Só que ele parece se encontrar nestes papéis de filmes menores, cults (Confessions of a Dangerous Mind, Matchstick Men e, logo antes de Lunar, Choke). E nós amantes do cinema agradecemos, pois vivemos de filmes bons, não de prêmios.

Vale nominar (não para prêmios, ainda) o diretor do filme, o quase-estreante Duncan Jones, que aparece como uma promessa do cinema de ficção científica de qualidade, com seu filme anterior “Whistle” sobre um assassino via satélite que vira alvo de sua própria arma e seu próximo projeto, “Source Code”, acompanhando um soldado que acorda no corpo de um trabalhador de escritório.

Jogar o humano contra o terror trazido pela tecnologia. Esta velha fórmula parece encontrar novas abordagens nesta era em que o terror tecnológico já está presente em nosso dia a dia, e o que mais nos aterroriza é sermos humanos.

por dougspadotto em Cinema e ainda não tem comentários
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