Ação de graças: o filtro

por dougspadotto em 26 de novembro de 2009

Hoje nos EUA e Canadá é comemorado o dia de Ação de Graças, um dos feriados deles que ainda não chegou por aqui (uma vez que o Halloween já está aqui a alguns anos como um pré-carnaval). A data é móvel, parecida com a Páscoa, e é usado para agradecer as boas coisas que aconteceram no decorrer do ano. Se vocês seguiram o link acima, podem reparar que a data coincide com o fim da colheita, e foi celebrado pela primeira vez pelos colonizadores nos EUA em conjunto com os nativos. Uma história clássica que as produções de Hollywood já nos ensinaram melhor do que o alfabeto.

Mas se tem outra coisa que estas mesmas produções nos ensinaram, especialmente em filmes mais “realistas”, é que o dia de Ação de Graças é uma oportunidade de lavar a roupa suja dentro das famílias, com cenas de discussão ao redor de uma mesa farta aparecendo em diversas oportunidades. Como esta aqui, no filme “Tempestade de Gelo” (Ice Storm, 1997) de Ang Lee (desculpem, sem legendas):

Tudo indica que as graças são substituídas pela reunião da família para discutir seus problemas deste ou de outros anos, limpando um pouco o caminho para um Natal e Ano Novo menos tensos. Usando outra metáfora, é como limpar a entrada da garagem da neve acumulada, mesmo sabendo que o inverno está só começando.

Olhando por este lado, acharia legal se importássemos esta data, e que cada famĺia (ou grupo de amigos, como a família eStendida da propaganda da Sadia) adote um dia de Ação de Graças e “discuta suas relações” para limpar o caminho para um feliz Natal e próspero Ano Novo!

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Mas dá pra substituir o peru por um churras mesmo... né?

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A felicidade de Teresa

por dougspadotto em 23 de setembro de 2009

Ontem, no “Dia sem carro” de Curitiba, tão efetivo quanto o “Dia sem submarino”, liguei o meu carro pela primeira vez no dia no final da tarde e fui para outro evento promovido pela prefeitura que tem recebido tanta publicidade quanto: a Mostra de Cinema Cubano promovida pela FCC.

Enganado pelo @CuritibaCultura, pensei que iria assistir ao moderno épico de guerra “Kangamba” (2008), mas fui surpreendido com um outro clássico cubano, “Retrato de Teresa” (1979).

Um dos pôsteres mais populares à venda nos sebos da ilha

Um dos pôsteres mais populares à venda nos sebos da ilha

A cópia ruim, com som horrível e sem legendas adicionou um pouco de inquietação à surpresa, mas aos poucos fui me acostumando (afinal, o sotaque eu conheço) e aos poucos a história triste de uma mãe se desdobrando para ser feliz sob a enorme pressão da revolução cubana foi abrindo mais e mais portas à reflexão.

Pressionada a produzir mais na tecelagem em que trabalha, co-dirigindo uma peça de dança do sindicato e ainda lidando com as tarefas do lar, Teresa mal tem tempo de respirar. Até seus momentos de reflexão são interrompidos por “companheiros” com novas idéias que ELA pode colocar em prática.

A princípio ela justifica sua jornada tripla ou quádrupla dizendo que não quer ser uma escrava do lar, como todas as mulheres da sua família. Nesta discussão seu marido vai embora, só para tentar voltar assim que vê que sua mulher está tendo sucesso sem ele.

Tanto Ramón (o marido) quanto Teresa não encontram felicidade plena somente na produtividade, na realização profissional que sob a revolução é relacionada ao fervor revolucionário e não aos objetivos pessoais. Ele como técnico de TVs sendo promovido para a divisão de TVs coloridas, ela aparecendo na TV como a formosa co-diretora de uma peça cultural.

"Ó vida, ó azar"

"Ó vida, ó azar"

Além de uma reflexão sobre revolução, tempos modernos (no sentido “Chapliniano” da palavra), feminismo e família, o filme destaca que, como Léon Tolstói escreveu em “A Felicidade Conjugal”: “… a felicidade só é real quando compartilhada”. Alguns podem dizer que as personagens conseguiram isto, realizando-se em meio a seus companheiros revolucionários, outros que o desfecho é triste e todas as conquistas são vazias sem alguém próximo para compartilhá-las. Faça a sua decisão.

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McMeditação

por dougspadotto em 9 de setembro de 2009

Contra o imediatismo mercadológico que a indústria do cinema imprime sobre todos os amantes da sétima arte eu tenho meu antídoto: Wes Anderson. Todos os filmes dele eu pareço ver com um ou dois anos de atraso, e não foi diferente com “Viagem a Darjeeling” (The Darjeeling Limited, 2007).

O filme, que segue o estilo de todos os outros filmes do diretor (à exceção da falta de Bill Murray como protagonista) conta a bizarra história de três irmãos que embarcam em uma jornada espiritual pela Índia a bordo de um trem. Como em seus outros filmes, este também parece começar do meio, com a tensão entre as personagens que só vai mostrando sua origem e é resolvida a medida que elas vivem novas “aventuras”.

Bizarro? Você não viu nem o começo.

Bizarro? Você não viu nem o começo.

O comportamento controlador do irmão que idealizou a “jornada”, Francis (vivido por Owen Wilson) é a caricatura do modo ocidental de viver, com metas e objetivos claros e quadrados a serem cumpridos, alterados diariamente. Aplicados no filme na busca pelo auto-conhecimento, uma prática tão oriental, isto só poderia causar tensão e muita comicidade.

Perdidos no quadrilátero da vida ocidental adulta, os outros dois irmãos, interpretados por Jason Schwartzman e Adrien Brody, se rendem ao controle do irmão. Peter (Brody) está prestes a se tornar pai e só pensa no divórcio e Jack (Schwartzman) vive um relacionamento em crise constante, preenchendo os vazios gerados por suas idas e vindas com sexo casual.

Das várias reviravoltas vividas pelas personagens, a “cura espiritual” vem depois do tempo que eles vivem em uma aldeia remota e recebem as boas vindas de um povo simples, que vive seu dia-a-dia entre família e amigos. É impressionante que eles precisem ter ido tão longe para concluir algo que estava junto deles o tempo todo, só bloqueado pelo imediatismo aparentemente planejado do Ocidente.

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Somos oprimidos pela ânsia de conquistar um estilo de vida que muda constantemente. “Só mais um sofá, só mais um sofá e eu serei completo”, como já disse o Narrador em Fight Club (1999). Esquecemos que o que dá sentido às nossas vidas são as pessoas que nos cercam. Uma temporada sozinho na Índia em meditação só nos enquadraria em outro estilo de vida com seus objetivos mutantes (um novo tapete de yoga, um incenso enrolado à mão pelas meninas de Uttar Pradesh ou o último livro do guru da sua preferência). O que nos completa são as pessoas ao nosso redor por mais estranhas que elas possam parecer.

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Noções ancestrais em 10 minutos

por dougspadotto em 22 de agosto de 2009

Às vezes 10 minutos são tudo que basta de alguma coisa. Seja a mini-entrevista com Meryl Streep no site Salon.com, seja a reflexão sobre suas declarações e a aplicação de algumas delas.

Antes do seu sumário sobre o que há de errado no mundo sendo originado na perda dos relacionamentos reais, ela observa que a “blogosfera” é eminentemente masculina, porque enquanto eles blogam, as mulheres estão cozinhando, limpando e fazendo tudo o mais que pode ser feito.

Não deixa de ser verdade, mas também não podemos generalizar assim. Se existe um espaço completamente igualitário, mesmo que ainda indomado e selvagem, é a Internet. Tanto blogs de meninos quanto de meninas têm os mesmos recursos para se tornar um sucesso ou uma falha.

O 'blogosfera', logo antes da camada de sujeira de teclado, a 'lintosfera'

O 'blogosfera', logo antes da camada de sujeira de teclado, a 'lintosfera'

Nada mais clichê do que blogar sobre blogs, então deixe-me voltar ao assunto principal que a sexagenária atriz re-explicou depois de suas declarações no perfil da diretora de seu último filme, Norah Ephron.

Ela lista relacionamentos, não só o casamento mas também boas amizades e um ambiente familiar como a “cola” da sociedade — falando em clichês, que tal este, hein?

Mas ela faz um trabalho admirável em explicar nossa fascinação sobre shows de culinária, pois eles ecoam memórias de proteção e nutrição, ao redor do fogão ou lareira, em um Mundo em que os valores estão sendo perdidos. É muito verdade.

Em um post anterior destaquei o valor de se estar sozinho, já neste reconheço que estar junto, por mais trabalho que dê, também tem o seu valor. Não são as más experiências de relacionamentos que devem definir o valor de todos eles. É como generalizar que blogar é coisa de meninos.

Com isso, levanto e vou fuçar mais na cozinha com minha família, preparando um banquete para hoje, acertando festas para depois e permitindo descobrir novas ligas para colar uma vida feliz!

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Foto meramente ilustrativa (e muito comportada em comparação)

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Pride (In the Name of Love)

por dougspadotto em 13 de junho de 2009

O coletivo de leões em inglês é pride. Esta palavra significa “orgulho” se traduzida literalmente para o português. Qual é o coletivo dos seres humanos? Humanidade? Será que nos identificamos como parte de um grupo único de indivíduos? Não temos tantas diferenças de raça, cor, fé, política e time de futebol que ainda nos dividem como se fôssemos espécies concorrentes neste Planeta?

Com os seus

Com os seus

Claro que a pride de leões não é usada para descrever todos os leões do Mundo, mas uma organização menor, muito parecida com um coletivo bem conhecido de nós humanos: família.

A maioria de nós nasce e morre em uma mesma família, mas através das complexas relações sociais que experimentamos durante a vida começamos a formar famílias fora do nosso sangue. Mas aquele coletivo original nunca é esquecido.

Mexam com o seu irmão, irmã, pai ou mãe para você ver. Em qualquer momento, mesmo se distantes, há o impulso de proteger este seu círculo contra tudo e contra todos, até contra as famílias artificiais que flutuam por sua vida. Este é o núcleo ao qual você pertence, não há como resistir.

Sejam italianos, canadenses, africanos ou chineses, esta organização, este pequeno coletivo no meio deste mar de indivíduos tão iguais mas tão diferentes que é a Humanidade, sempre será nosso porto seguro, e iremos protegê-lo a todo custo. Defenderemos nosso orgulho como membros deste grupo até o fim.

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