Em poucos dias faço anos. Segundo a astrologia, estou no auge do meu inferno astral. Quanto mais eu penso nisso, mais parecem que as coisas ficam arrastadas, pesadas, ruins. Por isso hoje eu resolvi subornar Caronte e pegar o barco de volta. Fiquei completamente loco no visual do blog e, pra variar, me entupi de cinema e leituras.
O filme que mais teve a ver com este meu período foi “The Men Who Stare at Goats” (2009), que deve chegar no Brasil mês que vem mas que, através das maravilhas da “distribuição independente” que a Internet permite, pude assistir esta semana.
Baseado no livro homônimo de Jon Ronson, que com a pesquisa de John Sergeant tentou encontrar ligações entre as operações psicológicas do Exército americano (e suas subsidiárias) no Iraque com as iniciativas de criação de um exército pacífico nos anos 80, o filme adiciona personagens e se torna uma suposta meta-história sobre a origem e escrita do livro, juntando o jornalista Bob Wilton (Ewan McGregor), abandonado por sua noiva e decidido a mudar sua vida, com o misterioso Lyn Cassady (George Clooney).
Juntos eles vivem “loucas aventuras” no Iraque, enquanto flashbacks contam a história do “New Earth Army”, do qual Lyn foi o maior talento durante sua existência . Este exército sem armas foi uma iniciativa do oficial Bill Django (Jeff Bridges) que, depois de uma epifania no Vietnã tentou encontrar um novo jeito de manter a paz sem guerra. Para isso ele embarcou em uma jornada por diversos movimentos new age (mostrada em uma hilária montagem no filme), retornando e sendo bem recebido por um general (Stephen Lang, de Avatar) que estava convencido de que os russos já estavam pesquisando “guerra psíquica” antes dos EUA. Isto porque eles (os russos) achavam que os americanos estavam pesquisando este tipo de armamento, baseado em um rumor francês. Durante a Guerra Fria, isto era tudo o que bastava.
Então, no decorrer dos anos 80 um pelotão foi treinado para dançar, meditar, visualizar, se comunicar telepaticamente, atravessar paredes, dissipar nuvens. Sim, dissipar nuvens. Esta brincadeira que muitos fazem era levada a sério como treino neste novo exército. A doutrinação militar convenceu os recrutas, principalmente Lyn, de que eles possuíam e podiam desenvolver seus poderes.
Mas como toda história, esta também tem um vilão (Kevin Spacey), que descredita a iniciativa e encerra o sonho de um novo exército. Avançando para os anos 2000, no Iraque, é ele que nossos heróis encontram no deserto do Iraque, usando mensagens subliminares, música infantil e outros meios de tortura psicológica como um terceirizado do Exército americano. E ele tem Bill como seu empregado desiludido, tendo que aplicar o “lado negro” do New Earth Army nessas operações.
Mesmo à beira da morte e vendo que todo o seu modo de ver o mundo era uma mentira feita para desviar dinheiro do exército, Lyn, junto com o recém-convertido Bob e libertado Bill contra-atacam e, usando táticas bem terrenas, salvam o dia. Bill e Lyn, altos em LSD, decolam em um helicóptero para o deserto, e Bob fica para trás para contar a história, que de tão inacreditável vira apenas um factóide na televisão.
Ao invés de ver nisto uma derrota, Bob segue os “ensinamentos” de Lyn e Bill, que na verdade não são nada mais do que acreditar em si mesmo e ser bom com os outros. Este é um poder maior do que qualquer exército jamais poderá alcançar. Não há inferno (astral ou terreno) que resista.



