Como (não) conversar com garotas em festas

Há alguns anos atrás, em uma festa temática dos anos 20, vestido como algo que eu achava ser um gângster e com meia garrafa de Southern Comfort já consumida (eu fui o único a alardear o viés “Lei Seca” daquela década), encontrei uma edição de “A Origem das Espécies” na prateleira de um amigo e, meio anti-social sentei em uma poltrona e comecei a ler. Foi meu primeiro contato com a obra que é considerada “a maior idéia da História da Humanidade”, ao menos até agora.

Esta definição entre aspas acima é o primeiro impacto do filme “Criação” (Creation, 2009), que dramatiza os meses que precedem a publicação de “Sobre a Origem das Espécies por Meio da Seleção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida”, título original da obra em 1859. Ele foi baseado no livro “Annie’s Box”, escrito por um descendente de Darwin, que teve acesso irrestrito a muita documentação familiar (as famílias se comunicavam por cartas naquele tempo) e descreveu o impacto da teoria na vida familiar de Charles Darwin, especialmente o impacto que a morte de sua primogênita Annie teve em seu afastamento da Igreja e a decisão de finalmente publicar sua teoria.

Algumas vezes o filme peca pelos seus recursos banais de narrativa, talvez culpa do roteirista ou diretor, mas a história é tão grandiosa, as conseqüências advindas da publicação eram tão profundas que é impossível para qualquer entusiasta pela Ciência não se emocionar com passagens vibrantes que ligam os estudos de Darwin, desde sua viagem no Beagle ao cruzamento de pombos, à escrita do livro.

Ainda mais tocante é a interpretação que o ator Paul Bettany faz do cientista inglês. Um homem consumido pela sua própria obra, ao mesmo tempo brilhante e indeciso, colocando sua família em primeiro lugar mesmo tendo em sua mente (e inúmeras anotações) a teoria que iria mudar o Mundo.

Mesmo que esta teoria não tenha mudado o rumo daquela festa em particular. Já com outro copo de whisky aromatizado na mão tentei engatar um papo cabeça sobre o capítulo 7, “Instinto”, com uma garota. Resultado: acordei na sala de estar de um amigo do Sri Lanka, com um pungente odor de especiarias vindo da cozinha, e a final da copa da UEFA na televisão. Ao meu redor pessoas discutiam futebol, e eu tentava encontrar um sentido naquilo tudo. Decidi que na bebedeira desenfreada o “instinto” de procriar removeu algumas barreiras psicológicas e sociais, fazendo eu agir tão naturalmente, algo muito difícil de acontecer. Mais uma vez Darwin estava certo. Eu ainda não.

P.S.: O título do post foi inspirado no conto “How to Talk to Girls at Parties“, do escritor Neil Gaiman. Recomendadíssimo como o filme apresentado acima!

por dougspadotto em Comportamento e ainda não tem comentários

Ninhos: agora só R$ 99,99!

Estou em mini-férias. Mas ao invés de relaxar em uma praça/parque/praia,  me pego fazendo tarefas e pequenas reformas domésticas que vinha protelando. Uma delas hoje foi instalar uma nova torneira na cozinha, pois a anterior já estava quebrada em 3 lugares.

Para isto antes fui até a Leroy Merlin, a Meca da bricolagem, para encontrar a tal torneira que eu tanto queria. Menos de 10 passos dentro da loja e já fiquei me perguntando se não precisava de uma lâmpada nova, ou de uma cortina para dividir alguns ambientes… É o reflexo em mim de algo que eu chamo de “o instinto de pássaro” que o ser humano vem desenvolvendo.

Ao invés de voar, este meio-homem/meio-pássaro somente faz ninhos. O ambiente violento em que vivemos é explorado cientificamente por lugares que vendem não mais um estilo de vida, mas um estilo de morar.

Um ninho humano

Um ninho humano

Não entendo muito de evolução humana, mas o “homem das cavernas” muito provavelmente não ficava o tempo todo dentro das ditas cavernas, e sim na floresta, savana ou montanha caçando, descobrindo novas paragens, e finalmente mudando até de caverna.

Estamos perdendo do kiwi. Não a fruta, o pássaro nativo da Nova Zelândia. A falta de predadores fez com que este pássaro desenvolvesse traços únicos que o aproximam de um mamífero: não voa, tem um bom senso de olfato, consegue aprender e não faz ninhos. Ele vive em buracos, que usa por um período e depois se muda para outro em algum lugar que seja mais vantajoso para sua sobrevivência.

Até depois da introdução de predadores que o levou a mudar alguns de seus hábitos (os kiwis viraram em sua maioria noturnos depois da colonização humana), o kiwi continua sua vida nômade, sempre procurando novas oportunidades e usando sua capacidade de aprender (característica de mamíferos) para se adaptar.

A kiwi!

A kiwi!

O reflexo humano atual, ao ser ameaçado por predadores, é fazer ninhos. E o mercado está aí para suprir todas as nossas necessidades. Sendo que existe tanto mundo por aí, tanto a aprender, até a como combater ou pelo menos evitar os predadores!

Mas nãããooo… preciso comprar essas caixas organizadoras por R$16,95!

P.S.: tip o’ the hat pelo estilo de finalização de posts para meu amigo blogueiro Chefe.

por dougspadotto em Comportamento e ainda não tem comentários

O retorno do macaco aquático

Assim como a evolução dos seres humanos, algumas mudanças de comportamento demoram tanto tempo quanto. Em Julho deste ano, quando assisti pela primeira vez o vídeo no final deste post, eu já queria fazer natação. Depois de quase 3 meses, volto da minha terceira aula duvidando da teoria do macaco aquático.

Basicamente o que esta hipótese levanta é a possibilidade dos seres humanos terem evoluído não dos macacos que foram para a savana, como os babuínos, e sim de um “macaco aquático”, que vivia da coleta de moluscos e desenvolveu características físicas adaptadas a uma vida aquática, entre elas o controle da respiração, falta de pêlos e uma camada de gordura para isolar o frio.

Ironicamente, os humanos agora procuram a natação para eliminar esta mesma “capa de gordura”. Podemos ter o reflexo do mergulho desde bebês, mas deixe eu lhes dizer que cair numa piscina com seriedade não é nada natural! Na segunda piscina o seu fôlego já se esvai, mas mesmo assim o nosso dom de controlar a respiração e algumas características físicas, como um nariz “encapado”, fazem com que pelo menos a água não entre em seus pulmões.

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A maioria dos animais consegue nadar. Quem nunca jogou seu cachorro na piscina quando era criança para ver ele nadando? Virou até uma modalidade de nado. Mas mergulhar, entre todos os animais terrestres os seres humanos são os únicos.

Que bom se uma aula de natação fosse só mergulhar! Mas lá vamos nós gerando propulsão com nossos membros, que tem somente vestígios de membranas natatórias, de todo jeito imaginável: com um braço, só com as pernas, alternando braços, de frente, de costas.

Mesmo com o cansaço e a frustração ao realizar que assim como do macaco da savana já nos afastamos muito do hipotético macaco aquático, um benefício muito grande de colocar a cabeça debaixo d’água e percorrer alguns metros é o silêncio e tranqüilidade que encontramos nesses momentos. Por alguns minutos saímos da floresta e temos tempo de clarear e talvez evoluir nossas mentes.

por dougspadotto em Comportamento,Pessoal e tem (3) comentários

Ring of Fire

Volta e meia na Web aparece um artigo com alguma pesquisa feita na Áustria, Suíça ou Finlândia sobre o impacto de x coisa sobre y outra coisa: comer tomates dá câncer, ovos melhoram a circulação, abrir portas com a mão direita desgasta menos a fechadura… toda semana uma coisa nova.

Porém um tema tão recorrente quanto o “aumenta/diminui as chances de câncer” é o estudo do sono dos casais. Normalmente o homem parece sair perdendo, com seus cérebros sendo aparentemente “drenados” devido ao simples fato de dormir com a parceira. Já mulheres parecem se sair melhor e descansam mais quando dividem sua cama.

Na pesquisa mais recente, o cenário já é outro: ambas as partes do casal podem sofrer de diversas formas pelo simples fato de dormirem juntas. Noites mal dormidas pelo movimento ou sons do(a) parceiro(a), roubo de cobertor… isso primeiro afeta o sono, diretamente impactando a saúde das pessoas, mas também leva a tensões no relacionamento que podem acabar em separação.

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Coloca este pé frio pra lá!

Acredito que dividir a cama representa bem a ânsia do ser humano de ser algo além da sua biologia atual. É um ato de desprendimento, deixar-se inteiramente à mercê de outra pessoa, aceitando-a também ao seu lado e adaptando-se, palavra quase sinônima de evolução. Dormir é a coisa mais mesquinha que podemos fazer, e mesmo assim procuramos dividir isso com alguém especial.

A Humanidade constantemente encontra maneiras de ultrapassar a influência do ambiente em sua jornada evolutiva. Estamos até procurando novos ambientes para conquistar e provar nossa capacidade de adaptação, seja ele na Antártida, no fundo do Mar e em Marte. Mas a evolução cultural, talvez até espiritual, pode acontecer com uma ação bem simples, dividir uma cama, e não é conquistada com o intelecto, mas com um sentimento: amor.

(Ninguém experimentou o poder transformador do amor mais do que Johnny Cash, como documentado na música que dá nome ao post e à música deste vídeo.)

por dougspadotto em Comportamento e ainda não tem comentários

The Age of Not Caring

Na noite antes do festival de Woodstock completar 40 anos, uma figura estranha andava por um bairro de Nova Jérsei nos EUA. Chovia muito, e os cautelosos donos da casa à venda que esta pessoa estava inspecionando chamaram a polícia.

Uma policial de 24 de anos de idade atende ao chamado e se aproxima do cidadão, perguntando o seu nome. Ele responde: “Bob Dylan”.

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Não acreditando, a policial faz diversas perguntas, entre elas sobre onde ele está hospedado. Ele diz que está nos ônibus da turnê, e ela pede para que ele a acompanhe até os ônibus para checar. Chegando lá, o mal-entendido é desfeito, mas não sem uma das lendas vivas do rock passando um tempo numa viatura de polícia.

Ele deve ter achado engraçado até. Bob Dylan vem do início de uma era de “não se importar” (“the age of not caring” do título do post). Mesmo no olho do furacão dos anos 60, ele sempre desmereceu o status de suas músicas nos movimentos sociais daquela época e de todas as épocas subseqüentes.

Bob Dylan é um artista na arte de viver. Ele faz o que bem entende dentro do que gosta, e isso é tudo. Individualista ao máximo, atinge milhões. Uma contradição ambulante.

Já as pessoas que chamaram a polícia refletem o lado ruim da era de não se importar. Deste individualismo doentio que não cria, não vive, só sobrevive entre uma ameaça e outra. Em um tempo em que temos todos os confortos necessários e desnecessários para viver, parece que voltamos à Idade das Cavernas, tentando nos proteger contra os tigres dentes-de-sabre lá fora.

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Ao invés de olhar para trás e celebrar liberdades do passado, temos que olhar ao nosso redor e reconquistar o que é nosso de direito. Andar pela chuva a procura de um novo lar.

por dougspadotto em Atualidade e ainda não tem comentários
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