O olho do furacão

por dougspadotto em 29 de janeiro de 2010

A crítica de arte é importante. É uma das origens da discussão que leva a apreciação completa de uma obra. Mais do que uma recomendação do que assistir/ouvir/experimentar, ela ajuda no “depois” da experiência. Ler várias críticas diferentes de um filme por exemplo é um prazer imenso, com cada take sobre as imagens e história aumentando em ordens de magnitude o valor da sessão.

No caso do desafortunadamente entitulado “Amor sem Escalas” (Up in the Air, 2009) a crítica na imprensa brasileira mais parece um eco (eco, eco, eco…). O filme “é sobre” (o que já arrepia os mais formais) relacionamentos em uma era digital. Ponto.

Hein?

Ponto perdido. Me permitam levantar a voz sobre o eco e adicionar à discussão que um dos temas mais fortes do filme é a busca de objetivos em meio em meio à crise, seja da meia idade ou financeira mundial. George Clooney vive um “especialista em encerramentos”, que viaja pelos EUA demitindo pessoas e os ligando a um programa de recolocação no mercado de trabalho. No clima financeiro atual dos EUA, esta recolocação chega a ser uma piada de mau gosto.

Mas não é. Ryan Bingham, o personagem de Clooney, faz com que as pessoas demitidas sintam-se bem, ou ao menos não fiquem fora de controle. Seria uma profissão insuportável para uma pessoa sensível. Mas sua convicção sobre seu modo de vida é tão grande que sobra espaço para ele ser o melhor no que faz. Ele é um solitário que viaja de cidade em cidade, sem contato com família e amigos, e se orgulha disso.

O que o confunde e desvia de seu objetivo são os “relacionamentos” nos quais ele se envolve, seja com uma charmosa desconhecida (Vera Farmiga), uma colega de trabalho (Anna Kendrick) ou sua família distante. Poderia ser um romance bem comum se não fossem os momentos poderosos retratados de Ryan em seu trabalho, visitando empresas em colapso, carregando o peso da recessão e das malas de dinheiro que sua empresa de “exterminadores” está lucrando com a crise. Só que o romance e relacionamentos do personagem principal no fim só aumentam a certeza de que seu modo de vida, seu objetivo final de viajar mais de 300 dias por ano encerrando carreiras e motivando novas (destaque para a cena em que ele salva sua colega de trabalho ao assumir uma demissão convencendo o empregado de que este era um novo começo, sem usar clichês) é o que o define. As crises trazidas pela tecnologia, pelo ambiente e pela idade são atravessadas e somos (ou podemos) ser mais fortes no final.


As imagens lindas dos vôos e os truques espertinhos de cena feitos pelo diretor Jason Reitman (exemplo: Ryan saindo de uma loja de ternos para o corredor de um aeroporto) também precisam ser valorizadas. A escolha de extras entre pessoas que foram realmente demitidas durante a crise é o toque (e não truque) de gênio deste filme que revela a sua verdadeira alma: pessoas que perdem o seu norte, mas que, acreditando nelas mesmas, poderão continuar.

Se este toque, o roteiro enxuto e a ótima cinematografia não fossem nada menos do que geniais, ele não mereceria tantas indicações para os prêmios do ano. O valor desta obra, na minha opinião, foi traduzir o sentimento de um país em uma história pessoal e até divertida. Mas isto é o que eu acho. E vocês?

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O Software Livre e o Eixo do Mal

por dougspadotto em 28 de outubro de 2009

Mais um livro que foi-se nesta semana mal-dormida foi o tomo 3 das “Reflexiones de Fidel” que eu trouxe de Cuba. É uma coleção de artigos que o Comandante escreveu entre 3 de Agosto e 18 de Setembro de 2007. No papel ele parece mais comedido que em seus discursos quando se trata da extensão, mas mesmo assim não tem medo de abordar praticamente todo e qualquer assunto.

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O último artigo deste volume é entitulado “Mentiras deliberadas, muertes extrañas y agresión a la economia mundial“. Nele Fidel expõe, com longas citações de auto-biografias e documentos, os detalhes da operação Farewell, um conjunto de ações de inteligência econômica tomadas para derrubar a antiga URSS.

A operação é extensa e vai desde intercâmbios estudantis até a Guerra nas Estrelas, esta última sendo o último prego no caixão da sucateada nação soviética, incapaz de competir neste nível de tecnologia.

Mas o que mais me chamou a atenção foi uma missão da qual já tinha lido na Internet, sobre a inclusão de código malicioso em softwares especializados que a URSS pirateava do Ocidente. Um caso sério e documentado foi a colossal explosão de um gasoduto causado por um “reset” dos valores de configuração programado como cavalo de Tróia.

Logo depois do meu próprio link sobre as implicações do movimento do Software Livre no caso de uma tentativa de reproduzir a operação Farewell nos dias atuais, o próprio Fidel cita um líder do movimento (sem dar o nome) que disse que “a medida que se complejizan las tecnologías será más difícil detectar acciones de ese tipo”.

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Fidel também conclui dizendo que desde o fim da URSS Cuba formou centenas de milhares de pessoas em nível superior. “¡Que otra arma ideológica nos puede quedar que un nivel superior de conciencia!”, exalta o eterno líder cubano. “Si lo que desea es conocer verdaderas fieras, dejen que en el ser humano no prevalezcan los instintos”, completa.

Por que o império americano conseguiu derrubar a gigante União Soviética e não “nanicos” como Cuba e Coréia do Norte? Educação. Doutrinação para alguns, mas na base dos programas sociais destes regimes comunistas (posso falar com certeza de Cuba, não me atrevo a especular muito sobre a Coréia) está o desejo genuíno de desenvolver o ser humano, e não o mercado.

Com a liberdade do software livre e o “arsenal ideológico” advindo de uma educação superior gratuita e de qualidade, a porção tecnológica do dossiê Farewell não tem chance de ser implementado nos dias atuais. E com o império e grande parte do Ocidente passando por agruras financeiras, nem a econômica pode ser colocada em prática. Mesmo porque, combatendo em duas frentes com relação ao software, Cuba já adota o software livre como opção, estando livre do custo proibitivo do sofware fechado e se beneficiando de sua tecnologia avançada e, mais importante, segura.

Se não fosse o embargo criminoso imposto à Cuba, o Mundo teria um exemplo claro do que acontece quando um país é educado de maneira a maximizar seus esforços pelo bem comum, e não pelo lucro.

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Anedotas e exemplos

por dougspadotto em 27 de outubro de 2009

Um pouco do colorido da vida do ex-chanceler Vasco Leitão da Cunha. A primeira eu tirei da Internet mesmo:

O chanceler Vasco Leitão da Cunha aproveita uma ida para o aeroporto de Brasília, no carro oficial, para dar entrevista a um repórter. No caminho, um cachorro atravessa a avenida. O motorista dá uma guinada, o carro desliza, quase bate num poste ou capota. Passado o susto, o chanceler respira fundo e, diplomaticamente, adverte o pálido motorista. “ Meu caro Josias, tenha sempre seu bom coração, mas nunca esqueça de acionar o seu bom cérebro. Se tivesse acontecido o pior, imagine a manchete amanhã:  “MOTORISTA MATA UM MINISTRO PARA SALVAR UM CACHORRO”.

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Estas outras eu digito do livro, que vale a pena mesmo a leitura, até mesmo para desafiar alguns preconceitos contra a direita e a esquerda igualmente:

Na II Guerra Mundial, em Monte Castelo: “… Almoçamos na linha de batalha, ao norte de Florença. Osvaldo Cordeiro Farias ofereceu-nos um almoço no posto de comando do coronel Sousa Carvalho, e fomos bombardeados o tempo todo. Foi engraçadíssimo. Havia uma banda que tocava enquanto caía a metralha… Era uma beleza… Os pracinhas cantavam: ‘Que é que fizeram com a sua bicicleta, Maria? Tedeschi portare via…’”

(tedeschi significa “alemães” em italiano. Esta parte desta popular música da FEB fala  que eles levaram embora a bicicleta da Maria)

Vocês podem encontrar a música original neste link. É divertidíssima mesmo!

Em Cuba: “… Um homem sério, que me deu a melhor das impressões desde a primeira vez que o vi, foi o Che Guevara. Ele estava no sul de Cuba, não em Sierra Maestra, e chegou a Havana antes do Fidel, que veio devagar, ocupando porto por porto. O Che chegou com a tropa do diretório estudantil e, durante a noite os estudantes invadiram o hotel onde estava alojada a embaixada da Colômbia, que já tinha um asilado do Batista. Os rapazes queriam levar o asilado. Fui avisado e logo tomei minhas providências. Às sete da manhã do dia seguinte estava o Che lá na minha embaixada querendo falar comigo, dizendo que tinha ficado furioso com o comportamento dos rapazes, que reconhecia que era um comportamento inaceitável e que não ia mais admitir coisas desse gênero, de que os diplomatas tivessem de se queixar. É da essência da atividade a imunidade do chefe da missão, onde quer que esteja. De maneira que os estudantes não podiam ter invadido as habitações do embaixador da Colômbia no hotel. O Che pediu que eu os desculpasse, disse que eram cabeças quentes, mas que aquilo não se repetiria. Eu não o conhecia! Fiquei impressionado com a sua correção.
Houve outros casos depois, até cômicos. Um pelego do Batista muito conhecido se asilou na embaixada argentina. Quando anunciaram que estavam chegando rebeldes que queriam entrar, ele se meteu na cama do embaixador! O embaixador me disse: ‘Acabo de receber uma visita na minha cama!’ “

Como era de esperar, o sr. da Cunha é da opinião que Che foi forçado a sair de Cuba pelo Fidel.

Muy amigo

Muy amigo

Depois de Cuba, ele foi convidado a assumir a Secretaria Geral do Itamaraty, uma posição vista como menor que a de um embaixador. Assim foi a reação de sua esposa, dona Nininha:

“… Aceitei, telefonei para Havana e contei à minha mulher, que me disse: ‘Meu amor, és uma besta!’”

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E encontrei nesta reportagem especial sobre a África na BBC a opinião de um cidadão norte-americano que exemplifica bem como eles realmente acreditam que tudo tem solução, seguindo o exemplo bem americano da auto-determinação (eu coloquei o negrito) :

“…It is time for the peoples of Africa to look back into their past and identify people now to help direct them into a future which is fair and just. Easier said than done, but if the people take the power that is inherent to them it is possible.” — John, United States

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Império preciso

por dougspadotto em 27 de outubro de 2009

Ontem terminei de ler o livro “Diplomacia em Alto-Mar“, que é o registro de um depoimento ao CPDOC da FGV dado pelo diplomata Vasco Leitão da Cunha, que serviu por 40 anos (1927-1967) como diplomata e ministro  do Exterior, entre outros cargos públicos os quais ele foi “forçado” a assumir, pois ele sempre defendeu que um diplomata de carreira não pode assumir uma pasta de governo, sendo um mero funcionário do mesmo, capacitado para uma função e uma função apenas: ser a voz do governante no exterior.

No livro ele conta detalhes desde suas primeiras missões na América do Sul até seu cargo como ministro do Exterior passando pela participação de importantes encontros que criaram os órgãos diplomáticos internacionais que existem até hoje como a ONU. Uma memória exemplar, pois ele prestou o depoimento quando já passava dos 80 anos.

Servindo o país antes deste e de muitos outros meteoros caírem

Servindo o país antes deste e de muitos outros meteoros caírem

O “seu Vasco” vem da aristocracia e orgulhoso disso. Menino ele andava em carruagens com barões e viscondes, e sempre que introduz um novo personagem na história diplomática brasileira ele relaciona com a linhagem de onde ele veio, e o que esperar do temperamento ou natureza de tal e tal família.

O que pode parecer saudosismo por um tempo de ainda mais desigualdade fica muito mais brando quando ele descreve a necessidade de possuírmos uma elite pensante (e dirigente) no país. Ele exalta o preparo que os funcionários do Itamaraty têm para lidar com praticamente todos os temas, de Economia ao protocolo, do Direito à gestão da informação. Este preparo no passado era restrito aos filhos de barões e viscondes para conduzir e manter seus títulos e propriedades, sendo “terceirizados” pelo governo quando este tinha necessidade, fazendo-os ministros, coletores de impostos, conselheiros ou enviados especiais.

Mas o que isto tem a ver com império? A última missão do sr. Leitão da Cunha foi como embaixador do Brasil em Washington, onde teve relações muito próximas com Lyndon Johnson, um dos presidentes mais impopulares dos EUA, tendo herdado a guerra do Vietnã do querido presidente Kennedy, coisa que poucos lembram.

Uma das observações finais do diplomata foi sua admiração para com o american way of life, o otimismo inato de todos os habitantes do país, que pode resolver qualquer problema e acha que todos podem também, se seguirem o seu exemplo.

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Mesmo admirando os EUA, Vasco deixa claro a completa falta de universalidade daquele povo. Eles são ótimos especialistas, como eu presencio diariamente no meu trabalho e hoje assistindo a tentativa de lançamento do novo veículo espacial Ares IX.

Assim como os barões e viscondes de outrora no Império Brasileiro, temos agora uma aristocracia que manda no Mundo mas estamos observando que, com preparo, passando pelo “Itamaraty de nações” que foi nossa História recente, acredito que o Brasil possa crescer e assumir o papel de um líder esclarecido imbuído não só de racionalidade mas também de sentimento e universalidade advindas da convivência pacífica de tantas raças e culturas que formaram este nosso país.

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Corações e mentes, não audiência

por dougspadotto em 24 de julho de 2009

Alguém lembra quando começou a segunda guerra no Golfo? 2003 senhoras e senhores… mais de 5 anos, e sem sinal de vitória. A não ser para os vitoriosos, que acham que ela terminou há mais de 3 anos com a faixa “Mission Accomplished” (“Missão Cumprida”) que seu ex-presidente fez tão popular.

Hoje li na BBC duas matérias muito interessantes e completamente não-relacionadas com o Iraque que podem explicar o porquê desta situação. Primeiro, esta matéria foca no controle da informação histórica, com a Rússia criando um escritório para manter a versão corrente da História da II Guerra Mundial, que aponta o Exército Vermelho como liberador da Europa ignorando qualquer insinuação que esta liberação foi na verdade uma nova invasão, dado que os países liberados caíram todos sob a Cortina de Ferro nos anos seguintes.

Liberdade liberd...mhunmf!
Liberdade liberd…mhunmf!

A outra anuncia o lançamento da TV estatal chinesa, a CCTV, em árabe para ser transmitida no Oriente Médio e Norte da África. Segundo a estatal, a mídia ocidental é parcial no relato dos acontecimentos da nação chinesa, e a expansão para o mercado árabe é uma tentativa de mostrar a China “real” para estes países (e potenciais parceiros comerciais, a medida que a China continua seu crescimento aparentemente sem freios).

Enquanto a Rússia olha para trás em como manter a informação sob controle, a China olha para frente em como construir a sua reputação global para acompanhar seu “crescimento pacífico”. E onde ficam os EUA, enfiados em uma “Guerra contra o Terror” há quase uma década?

De certa maneira, o decrépito império americano se congratula de suas consecutivas (porém imaginárias) vitórias nas batalhas contra o Terror para manter um mercado interno aquecido. A máquina de guerra gera empregos, e os jornais sensacionalistas literalmente atacam sua audiência com mais e mais medos e mais e mais produtos que os protegerão melhor, “caso os terroristas ataquem”.

Enquanto isso a população iraquiana continua alienada e abandonada, sem perspectivas a não ser alimentar seu ódio dos americanos. Desde o começo da guerra os EUA ainda utilizam a distribuição de panfletos de propaganda anti-Al Qaeda como ferramentas para conquistar os corações e mentes dos “iraquianos livres”.

Imagina quando uma família iraquiana ligar sua TV em um dos intervalos entre os freqüentes apagões e assiste a CCTV em árabe, mostrando quão próspera e pacífica é a China, sua vizinha de continente e tão ansiosa para fazer negócios com eles, em sua língua, a qualquer hora, sem pedir democracia nem nenhum outro conceito abstrato em troca?

Uma nova Rota da Seda via satélite?
Uma nova Rota da Seda via satélite?
escrito por Douglas
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