O sonho americano, finalmente realizado

Podem voltar as comparações de Obama com o Superman. Ele realmente parece ter sido enviado por Jor-El para salvar o planeta Terra (ou o povo americano). A aprovação de seu plano de assistência médica (como é difícil traduzir healthcare) esta semana foi comparável aos feitos do último filho de Krypton.

Hoje durante uma aula optativa de Economia, introdutória mesmo, o professor começou a tocar no conceito de Economia e, do jeito que eu já decifrei depois de somente duas aulas, foi ligando uma coisa a outra até chegar (praticamente) no dia de ontem. Passamos de Adam Smith a David Ricardo, de Marx aos marginalistas e terminando em Keynes em menos de 2 horas. Nada senão magistral e empolgante, o máximo de empolgante que uma aula às 9 horas da noite pode chegar.

Não terminamos exatamente em Keynes. Enquanto alguns alunos menos empolgados deixavam a sala, ele tentou ainda chegar ao fim do lastro ouro no final dos anos 60 com Nixon mas, foi durante a menção de Keynes e sua demanda agregada que uma coisa clicou com a outra, quando ele falou sobre investimentos do Estado na economia e suas conseqüências. Isso me lembrou do fato que mais me surpreendeu no documentário “Capitalism: A Love Story” (2009), do diretor Michael Moore. Já chegamos neste fato. Quando você ler “Roosevelt” é porque chegamos lá.

Retornando à aula, Keynes publicou o livro em que explica este e outros conceitos em 1936, alguns anos depois da Quebra da Bolsa de NY, com os EUA ainda tentando sair da Grande Depressão e a Europa prestes a entrar na II Guerra Mundial. Franklin Delano Roosevelt, talvez já familiar com alguns dos estudos de Keynes, aumentou agressivamente o investimento estatal (o “New Deal”), construindo estradas, represas e casas para todos, dando emprego e assim aquecendo o motor da economia usando para isso a mecânica descrita pelo economista britânico Keynes.

Represa Hoover, um dos "super-feitos" do New Deal

Em 1945, com a II Guerra Mundial em seus momentos finais e muito debilitado, Roosevelt declarou em rede nacional que, entre outras conquistas que o povo americano ainda tinha por conquistar era uma cobertura universal de cuidados à saúde, além da garantia de proteção contra exploração através da ação de sindicatos em conjunto com o governo. Ele morreu alguns dias depois sem ver seu plano realizado.

Mas seus assessores foram enviados para a Alemanha e Japão, para ajudar a escrever novas constituições para estes países e, sem surpresas, estes países foram alguns dos precursores do welfare state (Estado do Bem-Estar), com garantias de emprego, moradia, saúde e aposentadoria que os Estados Unidos estavam longe de conquistar.

Um caminho que levou pelo menos 65 anos em um desses casos, e é triste observar que tantos americanos ainda vivem em uma ilusão neoclássica de individualismo, em que só a vontade individual conta e é a soma dessas vontades que cria uma economia. Eles não conseguem ver que todo o racionalismo que enquadra os cálculos mágicos que criaram os ativos podres que quase os levaram à falência não se aplica em uma realidade dominada pela propaganda, pelos interesses dos detentores dos meios de produção, que criam uma ilusão de que tudo pode ser alcançado através do trabalho e iniciativa, um sonho, que nunca irá se realizar. O lugar onde “o trabalho liberta” foi fechado em 1945 pelo Exército Russo, que com certeza não acreditava no individualismo como força promotora de bem estar social.

Navegando entre os extremos, enfrentando as contradições dos sistemas, como um indivíduo e líder, o objetivo alcançado pelo presidente Obama mostra que mudanças são possíveis, mesmo no mais resistente dos meios. Às vezes a “inevitabilidade do processo histórico” precisa de um soco bem no meio do estômago para depois voltar a respirar e voltar a encontrar contradições para seguir em frente.

por dougspadotto em Atualidade e ainda não tem comentários

O olho do furacão

A crítica de arte é importante. É uma das origens da discussão que leva a apreciação completa de uma obra. Mais do que uma recomendação do que assistir/ouvir/experimentar, ela ajuda no “depois” da experiência. Ler várias críticas diferentes de um filme por exemplo é um prazer imenso, com cada take sobre as imagens e história aumentando em ordens de magnitude o valor da sessão.

No caso do desafortunadamente entitulado “Amor sem Escalas” (Up in the Air, 2009) a crítica na imprensa brasileira mais parece um eco (eco, eco, eco…). O filme “é sobre” (o que já arrepia os mais formais) relacionamentos em uma era digital. Ponto.

Hein?

Ponto perdido. Me permitam levantar a voz sobre o eco e adicionar à discussão que um dos temas mais fortes do filme é a busca de objetivos em meio em meio à crise, seja da meia idade ou financeira mundial. George Clooney vive um “especialista em encerramentos”, que viaja pelos EUA demitindo pessoas e os ligando a um programa de recolocação no mercado de trabalho. No clima financeiro atual dos EUA, esta recolocação chega a ser uma piada de mau gosto.

Mas não é. Ryan Bingham, o personagem de Clooney, faz com que as pessoas demitidas sintam-se bem, ou ao menos não fiquem fora de controle. Seria uma profissão insuportável para uma pessoa sensível. Mas sua convicção sobre seu modo de vida é tão grande que sobra espaço para ele ser o melhor no que faz. Ele é um solitário que viaja de cidade em cidade, sem contato com família e amigos, e se orgulha disso.

O que o confunde e desvia de seu objetivo são os “relacionamentos” nos quais ele se envolve, seja com uma charmosa desconhecida (Vera Farmiga), uma colega de trabalho (Anna Kendrick) ou sua família distante. Poderia ser um romance bem comum se não fossem os momentos poderosos retratados de Ryan em seu trabalho, visitando empresas em colapso, carregando o peso da recessão e das malas de dinheiro que sua empresa de “exterminadores” está lucrando com a crise. Só que o romance e relacionamentos do personagem principal no fim só aumentam a certeza de que seu modo de vida, seu objetivo final de viajar mais de 300 dias por ano encerrando carreiras e motivando novas (destaque para a cena em que ele salva sua colega de trabalho ao assumir uma demissão convencendo o empregado de que este era um novo começo, sem usar clichês) é o que o define. As crises trazidas pela tecnologia, pelo ambiente e pela idade são atravessadas e somos (ou podemos) ser mais fortes no final.


As imagens lindas dos vôos e os truques espertinhos de cena feitos pelo diretor Jason Reitman (exemplo: Ryan saindo de uma loja de ternos para o corredor de um aeroporto) também precisam ser valorizadas. A escolha de extras entre pessoas que foram realmente demitidas durante a crise é o toque (e não truque) de gênio deste filme que revela a sua verdadeira alma: pessoas que perdem o seu norte, mas que, acreditando nelas mesmas, poderão continuar.

Se este toque, o roteiro enxuto e a ótima cinematografia não fossem nada menos do que geniais, ele não mereceria tantas indicações para os prêmios do ano. O valor desta obra, na minha opinião, foi traduzir o sentimento de um país em uma história pessoal e até divertida. Mas isto é o que eu acho. E vocês?

por dougspadotto em Atualidade,Cinema e tem 1 comentário

O Software Livre e o Eixo do Mal

Mais um livro que foi-se nesta semana mal-dormida foi o tomo 3 das “Reflexiones de Fidel” que eu trouxe de Cuba. É uma coleção de artigos que o Comandante escreveu entre 3 de Agosto e 18 de Setembro de 2007. No papel ele parece mais comedido que em seus discursos quando se trata da extensão, mas mesmo assim não tem medo de abordar praticamente todo e qualquer assunto.

Perfil_Fidel_Reflexiones

O último artigo deste volume é entitulado “Mentiras deliberadas, muertes extrañas y agresión a la economia mundial“. Nele Fidel expõe, com longas citações de auto-biografias e documentos, os detalhes da operação Farewell, um conjunto de ações de inteligência econômica tomadas para derrubar a antiga URSS.

A operação é extensa e vai desde intercâmbios estudantis até a Guerra nas Estrelas, esta última sendo o último prego no caixão da sucateada nação soviética, incapaz de competir neste nível de tecnologia.

Mas o que mais me chamou a atenção foi uma missão da qual já tinha lido na Internet, sobre a inclusão de código malicioso em softwares especializados que a URSS pirateava do Ocidente. Um caso sério e documentado foi a colossal explosão de um gasoduto causado por um “reset” dos valores de configuração programado como cavalo de Tróia.

Logo depois do meu próprio link sobre as implicações do movimento do Software Livre no caso de uma tentativa de reproduzir a operação Farewell nos dias atuais, o próprio Fidel cita um líder do movimento (sem dar o nome) que disse que “a medida que se complejizan las tecnologías será más difícil detectar acciones de ese tipo”.

Tux_Guevara2

Fidel também conclui dizendo que desde o fim da URSS Cuba formou centenas de milhares de pessoas em nível superior. “¡Que otra arma ideológica nos puede quedar que un nivel superior de conciencia!”, exalta o eterno líder cubano. “Si lo que desea es conocer verdaderas fieras, dejen que en el ser humano no prevalezcan los instintos”, completa.

Por que o império americano conseguiu derrubar a gigante União Soviética e não “nanicos” como Cuba e Coréia do Norte? Educação. Doutrinação para alguns, mas na base dos programas sociais destes regimes comunistas (posso falar com certeza de Cuba, não me atrevo a especular muito sobre a Coréia) está o desejo genuíno de desenvolver o ser humano, e não o mercado.

Com a liberdade do software livre e o “arsenal ideológico” advindo de uma educação superior gratuita e de qualidade, a porção tecnológica do dossiê Farewell não tem chance de ser implementado nos dias atuais. E com o império e grande parte do Ocidente passando por agruras financeiras, nem a econômica pode ser colocada em prática. Mesmo porque, combatendo em duas frentes com relação ao software, Cuba já adota o software livre como opção, estando livre do custo proibitivo do sofware fechado e se beneficiando de sua tecnologia avançada e, mais importante, segura.

Se não fosse o embargo criminoso imposto à Cuba, o Mundo teria um exemplo claro do que acontece quando um país é educado de maneira a maximizar seus esforços pelo bem comum, e não pelo lucro.

por dougspadotto em Atualidade,História e tem (3) comentários

Anedotas e exemplos

Um pouco do colorido da vida do ex-chanceler Vasco Leitão da Cunha. A primeira eu tirei da Internet mesmo:

O chanceler Vasco Leitão da Cunha aproveita uma ida para o aeroporto de Brasília, no carro oficial, para dar entrevista a um repórter. No caminho, um cachorro atravessa a avenida. O motorista dá uma guinada, o carro desliza, quase bate num poste ou capota. Passado o susto, o chanceler respira fundo e, diplomaticamente, adverte o pálido motorista. “ Meu caro Josias, tenha sempre seu bom coração, mas nunca esqueça de acionar o seu bom cérebro. Se tivesse acontecido o pior, imagine a manchete amanhã:  “MOTORISTA MATA UM MINISTRO PARA SALVAR UM CACHORRO”.

ccachorro_rua

Estas outras eu digito do livro, que vale a pena mesmo a leitura, até mesmo para desafiar alguns preconceitos contra a direita e a esquerda igualmente:

Na II Guerra Mundial, em Monte Castelo: “… Almoçamos na linha de batalha, ao norte de Florença. Osvaldo Cordeiro Farias ofereceu-nos um almoço no posto de comando do coronel Sousa Carvalho, e fomos bombardeados o tempo todo. Foi engraçadíssimo. Havia uma banda que tocava enquanto caía a metralha… Era uma beleza… Os pracinhas cantavam: ‘Que é que fizeram com a sua bicicleta, Maria? Tedeschi portare via…’”

(tedeschi significa “alemães” em italiano. Esta parte desta popular música da FEB fala  que eles levaram embora a bicicleta da Maria)

Vocês podem encontrar a música original neste link. É divertidíssima mesmo!

Em Cuba: “… Um homem sério, que me deu a melhor das impressões desde a primeira vez que o vi, foi o Che Guevara. Ele estava no sul de Cuba, não em Sierra Maestra, e chegou a Havana antes do Fidel, que veio devagar, ocupando porto por porto. O Che chegou com a tropa do diretório estudantil e, durante a noite os estudantes invadiram o hotel onde estava alojada a embaixada da Colômbia, que já tinha um asilado do Batista. Os rapazes queriam levar o asilado. Fui avisado e logo tomei minhas providências. Às sete da manhã do dia seguinte estava o Che lá na minha embaixada querendo falar comigo, dizendo que tinha ficado furioso com o comportamento dos rapazes, que reconhecia que era um comportamento inaceitável e que não ia mais admitir coisas desse gênero, de que os diplomatas tivessem de se queixar. É da essência da atividade a imunidade do chefe da missão, onde quer que esteja. De maneira que os estudantes não podiam ter invadido as habitações do embaixador da Colômbia no hotel. O Che pediu que eu os desculpasse, disse que eram cabeças quentes, mas que aquilo não se repetiria. Eu não o conhecia! Fiquei impressionado com a sua correção.
Houve outros casos depois, até cômicos. Um pelego do Batista muito conhecido se asilou na embaixada argentina. Quando anunciaram que estavam chegando rebeldes que queriam entrar, ele se meteu na cama do embaixador! O embaixador me disse: ‘Acabo de receber uma visita na minha cama!’ “

Como era de esperar, o sr. da Cunha é da opinião que Che foi forçado a sair de Cuba pelo Fidel.

Muy amigo

Muy amigo

Depois de Cuba, ele foi convidado a assumir a Secretaria Geral do Itamaraty, uma posição vista como menor que a de um embaixador. Assim foi a reação de sua esposa, dona Nininha:

“… Aceitei, telefonei para Havana e contei à minha mulher, que me disse: ‘Meu amor, és uma besta!’”

mulher_braba

E encontrei nesta reportagem especial sobre a África na BBC a opinião de um cidadão norte-americano que exemplifica bem como eles realmente acreditam que tudo tem solução, seguindo o exemplo bem americano da auto-determinação (eu coloquei o negrito) :

“…It is time for the peoples of Africa to look back into their past and identify people now to help direct them into a future which is fair and just. Easier said than done, but if the people take the power that is inherent to them it is possible.” — John, United States

_46613235_85526838

por dougspadotto em História e ainda não tem comentários

Império preciso

Ontem terminei de ler o livro “Diplomacia em Alto-Mar“, que é o registro de um depoimento ao CPDOC da FGV dado pelo diplomata Vasco Leitão da Cunha, que serviu por 40 anos (1927-1967) como diplomata e ministro  do Exterior, entre outros cargos públicos os quais ele foi “forçado” a assumir, pois ele sempre defendeu que um diplomata de carreira não pode assumir uma pasta de governo, sendo um mero funcionário do mesmo, capacitado para uma função e uma função apenas: ser a voz do governante no exterior.

No livro ele conta detalhes desde suas primeiras missões na América do Sul até seu cargo como ministro do Exterior passando pela participação de importantes encontros que criaram os órgãos diplomáticos internacionais que existem até hoje como a ONU. Uma memória exemplar, pois ele prestou o depoimento quando já passava dos 80 anos.

Servindo o país antes deste e de muitos outros meteoros caírem

Servindo o país antes deste e de muitos outros meteoros caírem

O “seu Vasco” vem da aristocracia e orgulhoso disso. Menino ele andava em carruagens com barões e viscondes, e sempre que introduz um novo personagem na história diplomática brasileira ele relaciona com a linhagem de onde ele veio, e o que esperar do temperamento ou natureza de tal e tal família.

O que pode parecer saudosismo por um tempo de ainda mais desigualdade fica muito mais brando quando ele descreve a necessidade de possuírmos uma elite pensante (e dirigente) no país. Ele exalta o preparo que os funcionários do Itamaraty têm para lidar com praticamente todos os temas, de Economia ao protocolo, do Direito à gestão da informação. Este preparo no passado era restrito aos filhos de barões e viscondes para conduzir e manter seus títulos e propriedades, sendo “terceirizados” pelo governo quando este tinha necessidade, fazendo-os ministros, coletores de impostos, conselheiros ou enviados especiais.

Mas o que isto tem a ver com império? A última missão do sr. Leitão da Cunha foi como embaixador do Brasil em Washington, onde teve relações muito próximas com Lyndon Johnson, um dos presidentes mais impopulares dos EUA, tendo herdado a guerra do Vietnã do querido presidente Kennedy, coisa que poucos lembram.

Uma das observações finais do diplomata foi sua admiração para com o american way of life, o otimismo inato de todos os habitantes do país, que pode resolver qualquer problema e acha que todos podem também, se seguirem o seu exemplo.

uncle-sam-4th-of-july-american-flag

Mesmo admirando os EUA, Vasco deixa claro a completa falta de universalidade daquele povo. Eles são ótimos especialistas, como eu presencio diariamente no meu trabalho e hoje assistindo a tentativa de lançamento do novo veículo espacial Ares IX.

Assim como os barões e viscondes de outrora no Império Brasileiro, temos agora uma aristocracia que manda no Mundo mas estamos observando que, com preparo, passando pelo “Itamaraty de nações” que foi nossa História recente, acredito que o Brasil possa crescer e assumir o papel de um líder esclarecido imbuído não só de racionalidade mas também de sentimento e universalidade advindas da convivência pacífica de tantas raças e culturas que formaram este nosso país.

por dougspadotto em Atualidade e ainda não tem comentários
  • RSS
  • Twitter
  • Facebook
  • NetworkedBlogs
  • Orkut