Por um conteúdo programático dinâmico

Diz a lenda que as primeiras palavras que eu li foram “conteúdo programático”, da capa de um diário de classe da minha mãe, sentado no gramado do vizinho. O que um diário de classe estava fazendo lá é além do ponto, e acaba mais ou menos aí a minha experiência com todo o aparato que professores, pedagogos e outros especialistas de ensino tem acesso. Todo o resto que apresento aqui vem da minha longa experiência como aluno, especialmente do ensino superior.

Da aparente desconexão entre alunos e professor de uma aula que tive recentemente, anotei algumas idéias de como re-elaborar o sistema de ensino, especialmente de adultos. A aula que deu origem a estas notas era sobre realidade x modelos x representações, então foi terreno fértil para que estas idéias brotassem (e algumas outras, que o professor cortou com a velocidade de um samurai). Basicamente é uma mudança de representação, porque o modelo continua o mesmo.

Portanto, o professor continua a autoridade máxima na sala de aula (se não na disciplina como um todo), existem alunos sentados em carteiras, provas, trabalhos e exames. Mas a forma como estas representações tomam forma é baseada em uma união de realidades, que são a base de qualquer modelo.

No início de cada semestre os alunos escolhem as matérias que irão cursar (em muitos casos, somente confirmam o que o currículo dita). Adicionamos neste processo um estudo prévio, com o acesso fácil as ementas das disciplinas no momento da matrícula. Além disso, o aluno elabora um pequeno texto descrevendo como ele pensa que irá se beneficiar com a participação nesta disciplina, e qualquer sugestão ou interesse pessoal que ele tenha sobre a mesma. Se for repetente, ele pode descrever suas dificuldades no período anterior, o que seria uma mina de ouro para a adaptação do professor, e até serviria como um momento de auto-crítica e preparação para o aluno.

Antes da primeira aula, alunos e professor tem acesso a essas informações, de forma anônima. Na primeira aula, ao invés da insossa apresentação de uma ementa sem sentido, se firma um contrato de aprendizado entre alunos e professor. A ementa pode ser mudada conforme a tendência de interesses da turma, porém dentro dos objetivos do professor e da disciplina como parte integrante de um curso maior. Desta maneira, fundimos as realidades que serão transferidas para o modelo de ensino existente (aulas, prova, etc.).

É uma mudança, tão necessária na nossa sociedade, do mode de pensar “você sabe quem eu sou?” para o “quem você pensa que você é?”. É um eqüalizador que falta tanto no meio acadêmico quanto no dia-a-dia, onde todos tentam tirar vantagem uns dos outros, se achando mais especiais do que o próximo, e não percebendo que entendendo de onde a outra pessoa vem, seus motivos e aspirações, você pode encontrar um ponto comum com os seus e avançar juntos. A sala de aula é um laboratório da realidade da comunidade, vamos usar isso!

Os antigos centros de ensino eram construídos em torno de mestres. Nossas universidades agora abundam de doutores, que só sabem apontar os sintomas da doença que são a falta de preparo ou a deficiência no processo de seleção, e elaboram panacéias coletivas em reuniões de colegiado, que demoram anos para surtir algum efeito amenizador da agonia que os cursos sofrem.

Toda vez que escuto isso eu lembro de uma passagem do livro “Pasajes de la Guerra Revolucionária”, do Che Guevara. Ele parou em um bohío para dar assistência médica para os camponeses e, com seus parcos recursos, amparava os pobres dizendo: “tente trabalhar menos, descansar, e se alimentar melhor”. Uma menina ficou na porta enquanto a fila ia andando, com o Che sempre dando a mesma prescrição. Na vez da avó da menina ser consultada, ela disse: “Ih, avó, este doutor não é de nada, ele fala sempre a mesma coisa para todo mundo.”

Alunos e doutores não precisam conviver assim

As propostas acima podem ter algo de revolucionário (mais por sua ingenuidade), mas se este é o caso, isto só significa que estamos tão distantes uns dos outros que só enxergamos nossos próprios caminhos. Juntos podemos trilhar um caminho muito mais bem ordenado, para não dizer veloz e até divertido. O que é mais do que a “ordem e progresso” que a nossa bandeira promete.

P.S.: Obrigado ao professor por tesourar minha metáfora de bandeira para um “esquema de representação não-único”. Mas não podemos depender de epifanias para o progresso, ele pode e deve ser mais organizado.

por dougspadotto em Comportamento,Gente e tem (3) comentários

Uma nova história das coisas

Tudo tem seus prós e contras. Até a ascensão da sociedade consumista que aparentemente está nos levando a confirmação do calendário maia tem o seu “pró”, que depois se transforma em “contra” e, como no calendário em questão, o ciclo se renova.

O famoso documentário na Web “The Story of Stuff” (A história das coisas), causou  furor desde o seu lançamento, sendo ele mesmo um exemplo de massificação, com mais de 7 milhões de espectadores até hoje. Este simpático filme mostra como o ciclo de produção está tão fora de controle que um rádio custa menos do que o valor do seu aluguel na prateleira da loja em que é vendido. Termina com lições de moral sobre como corrigir as coisas.

stuff

Um protótipo interessante que parece casar a obsolescência programada com a preocupação com o meio ambiente é este laptop, ainda conceitual, feito de papelão. Os críticos dizem que é mais lixo eletrônico só esperando para acontecer, pois a durabilidade de um equipamento assim é uma fração da de seus elegantes MacBooks de alumínio.

Já eu vejo isso como uma oportunidade de aumentar ainda mais o impacto do programa “Um Laptop por Criança” (OLPC), que está indo para a sua versão 3.0 com um conceito de “laptop como folha de papel“.

Em um post anterior sobre a violência e sua aparente justificativa dada a massificação dos meios de produção de armas e do medo (via meios de comunicação), disse: “…deveríamos encontrar soluções para utilizar nossos avanços dos meios de produção para massificar a educação, desenvolvendo consciência.”

O laptop de 100 dólares

O laptop de 100 dólares

A escala industrial que barateou os componentes do XO (o laptop da Fundação OLPC) e trouxe seu custo para menos de 100 dólares também permitiu o aumento do lixo eletrônico. Segundo Nicholas Negroponte, o visionário fundador da OLPC, depois da introdução do XO em sociedades da América Latina, aumentou o interesse da população em adquirir laptops “um pouco melhores”, aquecendo a economia, aumentando o acesso a informação mas ao mesmo tempo gerando uma reserva de lixo eletrônico para um futuro a médio prazo.

Isso sem contar os fashionistas tecnológicos que compraram XOs só como um brinquedo para mostrar para seus amigos.

Isso sem contar os fashionistas tecnológicos que compraram XOs só como um brinquedo para mostrar para seus amigos.

Acho interessante olharmos para o lado bom dessas inovações do mercado de consumo, especialmente de tecnologia, que trazem acesso a educação e informação para pessoas que sem elas estariam ainda na escuridão. A mão invisível do mercado pegará estas “lanternas” obsoletas e as transformará depois, tenho certeza.

por dougspadotto em Atualidade e tem (2) comentários

Império preciso

Ontem terminei de ler o livro “Diplomacia em Alto-Mar“, que é o registro de um depoimento ao CPDOC da FGV dado pelo diplomata Vasco Leitão da Cunha, que serviu por 40 anos (1927-1967) como diplomata e ministro  do Exterior, entre outros cargos públicos os quais ele foi “forçado” a assumir, pois ele sempre defendeu que um diplomata de carreira não pode assumir uma pasta de governo, sendo um mero funcionário do mesmo, capacitado para uma função e uma função apenas: ser a voz do governante no exterior.

No livro ele conta detalhes desde suas primeiras missões na América do Sul até seu cargo como ministro do Exterior passando pela participação de importantes encontros que criaram os órgãos diplomáticos internacionais que existem até hoje como a ONU. Uma memória exemplar, pois ele prestou o depoimento quando já passava dos 80 anos.

Servindo o país antes deste e de muitos outros meteoros caírem

Servindo o país antes deste e de muitos outros meteoros caírem

O “seu Vasco” vem da aristocracia e orgulhoso disso. Menino ele andava em carruagens com barões e viscondes, e sempre que introduz um novo personagem na história diplomática brasileira ele relaciona com a linhagem de onde ele veio, e o que esperar do temperamento ou natureza de tal e tal família.

O que pode parecer saudosismo por um tempo de ainda mais desigualdade fica muito mais brando quando ele descreve a necessidade de possuírmos uma elite pensante (e dirigente) no país. Ele exalta o preparo que os funcionários do Itamaraty têm para lidar com praticamente todos os temas, de Economia ao protocolo, do Direito à gestão da informação. Este preparo no passado era restrito aos filhos de barões e viscondes para conduzir e manter seus títulos e propriedades, sendo “terceirizados” pelo governo quando este tinha necessidade, fazendo-os ministros, coletores de impostos, conselheiros ou enviados especiais.

Mas o que isto tem a ver com império? A última missão do sr. Leitão da Cunha foi como embaixador do Brasil em Washington, onde teve relações muito próximas com Lyndon Johnson, um dos presidentes mais impopulares dos EUA, tendo herdado a guerra do Vietnã do querido presidente Kennedy, coisa que poucos lembram.

Uma das observações finais do diplomata foi sua admiração para com o american way of life, o otimismo inato de todos os habitantes do país, que pode resolver qualquer problema e acha que todos podem também, se seguirem o seu exemplo.

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Mesmo admirando os EUA, Vasco deixa claro a completa falta de universalidade daquele povo. Eles são ótimos especialistas, como eu presencio diariamente no meu trabalho e hoje assistindo a tentativa de lançamento do novo veículo espacial Ares IX.

Assim como os barões e viscondes de outrora no Império Brasileiro, temos agora uma aristocracia que manda no Mundo mas estamos observando que, com preparo, passando pelo “Itamaraty de nações” que foi nossa História recente, acredito que o Brasil possa crescer e assumir o papel de um líder esclarecido imbuído não só de racionalidade mas também de sentimento e universalidade advindas da convivência pacífica de tantas raças e culturas que formaram este nosso país.

por dougspadotto em Atualidade e ainda não tem comentários
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