Casa de metalúrgico, espeto de pau

“A estratégia do Brasil de poupar regimes autoritários e criar condições de diálogo com países que promovem graves violações de direitos humanos sofreu ontem um duro revés e mostrou todas as suas limitações.”

O parágrafo de abertura desta notícia no Estadão sobre a Coréia do Norte “dando um perdido” no Brasil foi tão boa, tão “catártica”, que não só virou o primeiro deste post como me impulsionou a escrever um pouco do óbvio, devido a overdose de palhaçadas diplomáticas a que nosso presidente Lula vêm nos sujeitando. Começou em Cuba, vendo um dissidente morrer de fome e falando que “não tinha recebido a carta”. Ele não lê jornais?

Depois dessa barbaridade a imprensa brasileira manteve o fogo cerrado e pressionou nosso estimado líder até ele dar com a língua nos dentes e falar que greve de fome é besteira, e que prisioneiros políticos são “criminosos comuns”. Todo mundo já está enjoado de ouvir sobre a história de vida de Lula, sua luta sindical nos tempos de ditadura, que incluiu até prisão e, opa opa, greve de fome.

Nos tempos do Brasil democrático dos últimos 8 anos, o que acompanhamos sempre com apreensão foi a possibilidade de um golpe de estado petista e a instauração de uma ditadura. Se não pelas declarações de Lula, por seus amigos internacionais: Chavez, Ahmadinejad, Kim Jong-Il e Fidel, entre outros.

Eu mesmo já defendi no blog e continuo defendendo a revolução cubana. Porém, existem sim excessos quando o regime é comparado com um sistema democrático, não podemos ignorar isso, e muito menos pode o nosso presidente.

Mas ele escolhe ignorar estes problemas graves, e agora tem ilusões de resolver o conflito árabe-palestino. Lá, onde a diplomacia e a guerra são modos de vida, a visita do “profeta do diálogo” foi vista como uma curiosidade, como os presentes que D. Pedro II (únicou outro líder brasileiro a visitar a região antes) deve ter levado à região quando visitou a região em 1876. É nosso indiozinho com penas de papagaio, tentando dar uma de cacique em briga de gente grande.

Esta semana ele visitou Israel. Daqui menos de dois meses, visita o Irã. O “pai dos pobres” versão 2.0 vai virar, nestes seus últimos 9 meses de governo, um garoto de mensagens entre palestinos e iranianos, que já se entendem e concordam em empurrar os israelenses para o mar. Israel não levou a sério a visita, entendendo que o modo de operar de Lula é na base do idealismo, algo que não vai bem com qualquer tipo de negociação de paz. Não existe mensalão na Assembléia Geral ou Conselho de Segurança da ONU. Consenso nestes fóruns acontece através de negociação real, baseada na confiança entre os envolvidos.

Como confiar em um homem que diz uma coisa e faz outra?

por dougspadotto em Atualidade,História e ainda não tem comentários

Muito bem Flipper!

E aí curitibanos, todos felizes? Vamos ficar mais alguns minutos vivos e podendo passear pelos nossos parques ou parados nos semáforos da Linha Verde tremendo de medo de sermos assaltados desde que a lei anti-fumo entrou em vigor, pouco mais de 24 horas atrás! Yey!

Enlutado, não saí desde a semana passada, nem para as “festas do último cigarro” feitas por alguns bares da cidade. Não tinha nada a comemorar. Foi com um sentimento meio de tristeza que fui ao encontro dos camaradas em um dos 2 pubs irlandeses da cidade ontem. O menos McDonaldico dos dois.

A temperatura durante o dia alcançou os 34 graus Celsius, e eu por trabalhar em casa estava estilosamente vestido de bermuda jeans e Havaianas (daquelas com desenhos, tipo uns R$5 mais caras que as normais). Saí de assistir “Te Amarei para Sempre” (The Time Traveller’s Wife, 2009) suspirando minha paixonite pela respectiva quando tentei entrar no acima referido pub.

Apresentando as armas do crime

Apresentando as armas do crime

Fui barrado pela minha vestimenta, que talvez fosse pouco céltica. Emputecido, virei as costas e fui embora, mas liguei para os amigos já dentro do pub. Me chamaram de volta, como é isso, não pode. Falaram com as garçonetes, garçons, seguranças até chegar no gerente. Me deixaram entrar, mas que eu ficasse avisado que da próxima vez não iria passar. Me senti de volta ao colégio, indo para a aula com uma calça fora do padrão porque as outras ficaram para lavar.

Logo depois de entrar começou o maior toró, mas já estava pingando quando estávamos organizando o piquete na frente do local. Fiquei no toldo do valet esperando os trâmites e colocando lenha na fogueira quando presenciei um reflexo da absurda lei anti-fumo: nem no toldo um casal pôde fumar. Tiveram que ficar debaixo das gotas pré-dilúvio dividindo rapidamente um pito. Romântico,  porém triste.

Aviso: o sorriso Kolynos não acompanha o ato de fumar

Aviso: o sorriso Kolynos não acompanha o ato de fumar

A reclamação e pressão democrática me fizeram entrar. Vitória! A companhia que me ajudou a entrar estava boa, mas a Guinness estava quente. Lá vai eu reclamar de novo. Ouvi do barman uma história sobre um “técnico” da Guinness dizendo para servir ela quente mesmo. Duvidei, pedi outra coisa, de menor valor.

Mas já era hora de eu matar a saudade da minha babe, e tive que ir embora. Depois de um beijo de boa noite voltei para minha casa, só para receber um telefonema: “Cara! Você ganhou os ingressos para o show do Killers! Mas perdeu porque não está aqui!”. Mais SMSes seguiram-se com metade do bar tirando uma com a minha cara.

smsotario

Mas que otário...

Não pude deixar de ficar pensando que este sorteio foi talvez armado, para que, na melhor tradição ditatorial, os privilégios fizessem o cidadão aceitar qualquer regra que lhe fosse imposta dali por diante.

Pra completar, me disseram que depois que fui embora a Guinness ficou gelada.

Mas eu não vou me abater! Não sou o Flipper para fazer truques em troca de peixes! Esta é a ingrata vida de um freedom fighter boêmio. A luta continua companheiros! Duas quintas a partir de ontem, no dia 03/12, vamos de terno e gravata e Havaianas no pub, todos!

Revolução, companheiros!

Revolução, companheiros!

por dougspadotto em Atualidade e tem (9) comentários

A não tão sonífera ilha

Acompanhando durante esta semana os preparativos e hoje a celebração dos 60 anos da fundação da República Popular da China, escorreguei na irônica noção de almoçar em um restaurante de cozinha de Formosa (Taiwan) que encontrei aqui em Curitiba.

Ataquei a Web em busca de informação sobre o que me espera para o almoço e, como de praxe acabei descobrindo muito mais do que esperava. Durante o dia escreverei aqui alguns fatos e observações pessoais sobre o Império do Meio, a China.

Como ainda é cedo para o almoço, vamos falar de política. De ditadura, repressão e controle. E não estou falando da República Popular da China (comunista, vermelha, comedora de criancinhas), e sim da simples República da China, conhecida como Taiwan ou, para os saudosos lusófonos, Formosa.

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中華民國

Estabelecida 37 anos antes da sua contraparte comunista, a República da China, hoje limitada à ilha de Formosa e outras ilhotas, já abrangeu todo o continente chinês, servindo como o governo oficialmente reconhecido de todos os chineses até os anos 70. Foi a fundadora da ONU e o assento no Conselho de Segurança era ocupado por seus representantes.

Seu início foi turbulento como muito da história da China. Com o fim da dinastia Qing, o Kuomintang (KMT), partido mais poderoso na época, assumiu o poder, e um presidente foi eleito. Até aí tudo bem mas, como o poder absoluto corrompe absolutamente, o presidente eleito, Yuan Shikai, sem oposição, dissolve o parlamento e se declara imperador.

Com este golpe, Yuan perde seus aliados, e a China descende em um período de guerra civil, que só vai estabilizar sob o novo líder do KMT, Chiang Kai-Shek que, com a ajuda de consultores soviéticos consegue consolidar o país. Só que logo após conseguir o poder, Chiang organiza um expurgo dos elementos comunistas do KMT, forçando-os para o interior.

Este acontecimento volta para assombrar o KMT após a II Guerra Mundial, quando os comunistas liderados por Mao Tsé-Tung marcham a partir do interior reconquistando o continente chinês, forçando Chiang Kai-Shek para fora do país, restrito à Taiwan.

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Uma vez na ilha, a perseguição comunista torna-se mais e mais retórica, enquanto a repressão na República nacionalista fica bem real, com a República da China sob o KMT tornando-se uma ditadura feroz, acuada por elementos que queriam a independência da ilha ou a integração com o regime comunista. Estima-se que durante o “Terror Branco” 140 mil pessoas tenham sido presas, torturadas e assassinadas pelo governo da ilha.

Parece pouco se comparado com os milhões que morreram durante os desastres comunistas no continente, mas colocando em perspectiva o tamanho territorial e populacional, o regime reconhecido mundialmente era tão bárbaro quanto o comunista.

Mas não é só em repressão e desastres que as duas repúblicas se aproximam. Ambas são exemplos de desenvolvimento tecnológico e principalmente econômico a partir dos anos 80, fruto de sua ênfase na educação e a manutenção de um regime fiscal rigoroso e amigável às exportações.

Espero que o dia de hoje (e estes posts) sirvam como incentivo para que todos busquem uma visão mais esclarecida sobre o que é o Bem ou o Mal em um contexto geopolítico e cultural. Encontramos na História da China do século XX os ingredientes básicos de luta pelo poder que se repetem em todo o Mundo, mas em especial observamos a transformação de regimes aparentemente opostos em modelos para o futuro.

Que chinês sou eu?

Que chinês sou eu?

P.S.: Taiwan passou por recentes reformas políticas, e agora possui um partido que defende a independênica fazendo oposição a um KMT que agora quer a re-unificação com a República Popular. Vai entender, né?

por dougspadotto em Atualidade,História e ainda não tem comentários

A casa de Stroessner não está à venda

Era uma manhã de terça-feira quando começou. Aproveitando uma oportunidade providencial, desci até a casa de praia de um amigo para passar uma semana longe da loucura da Babilônia invernal curitibana.

Chegando à restinga úmida de orvalho para uma caminhada matinal, notei uma casa à venda. Baixa, de tijolos à vista e com sinais de abandono, não era algo a ser notado com tanta curiosidade, não fosse uma lembrança: me disseram esta era a casa do ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner.

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Alfredo Stroessner (1912 – 1996), foi presidente do Paraguai por 35 anos, depois de um golpe de Estado que o levou ao poder. Ele foi “reeleito” com margens absurdas durante todos estes anos, o que não aliviou em nada seu perfil de ditador. Na América Latina, somente Fidel Castro permaneceu mais tempo no poder.

Durante seu governo, ele pagou as dívidas do país com o Banco Mundial, ordenou grandes obras de infraestrutura (inclusive participando nas negociações que levaram à construção da usina hidrelétrica de Itaipu) e trouxe um período de estabilidade sem precedentes à pequena nação sulamericana.

Mas todo este progresso veio a um preço muito alto, com um sistema unipartidário onde toda oposição estava sujeita à tortura, prisão e mortes horrendas, parte da infame Operação Condor, um predecessor bizarro do Mercosul, que ligava todas as ditaduras da América do Sul em um sistema de inteligência e repressão de dar inveja à CIA dos nossos dias.

Entre progresso e repressão, a fortuna da família Stroessner nestas três décadas cresceu à galope. Mas um galope de cavalo paraguaio, porque a megalomania inerente dos paraguaios parece diretamente propocional à sua extensão territorial. As propriedadades da família incluíam participações em empresas de extração de diamantes, companhias aeronáuticas e apartamentos em Buenos Aires e Miami. E uma casa de veraneio no bairro de Brejatuba, em Guaratuba, Paraná.

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Ao lado da casa há uma pedra onde no passado parecia existir uma placa de metal. Talvez algo que dizia “ex-residência do presidente Alfredo Stroessner”, não há como saber. Mas a restinga antes da praia foi convertida em uma pequena praça, chamada: “praça Alfredo Stroessner”.

Bingo! Era isso aí, eu precisava visitar esta casa. Ligar para a imobiliária, marcar uma hora e literalmente entrar na História.

Desde 1989, quando ele foi removido do poder por outro golpe de Estado, promovido pelo seu co-sogro, Stroessner se refugiou no Brasil, país que sempre lhe atraiu, seja pela parceria ditatorial mas também pela característica bem paraguaia de preferir Guaratuba como refúgio de verão. Guaratuba é, segundo alguns, o “mar paraguaio”. Um homem que encabeçou o país por tanto tempo tem gostos tão comuns quanto o professor torturado na “Técnica”, o centro de tortura do regime? Difícil de acreditar.

Com a comodidade da rede wi-fi na casa de praia, me lancei em busca de fatos concretos nesta “confiável” fonte de informações, a Internet. Aos poucos pude concluir que era fato: Stroessner teve uma casa em Brejatuba. Agora faltava descobrir se a ela era mesmo a pequena casa de tijolinhos à vista.

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Um post de um blog feito por um jornalista anunciou que sim, a casa com pichações em frente à praça era a antiga residência do presidente. Tentei contato com o autor do post sem sucesso. Uma busca direta no Google até me trouxe um número da rua, 1260, que fui verificar e não encontrei, em uma avenida onde os números ilogicamente pulavam de 800 para 500, depois de 1700 a 1200.

Frustrado com estas breves buscas físicas, voltei à Internet, e fui recomendado este outro blog, que relata o uso da ex-casa do presidente como centro de tortura da polícia local, especialmente no caso ainda mais bizarro do assassinato ritual pela qual a família Abagge ficou conhecida nos anos 90. A ironia era tão grande que parecia algo mitológico. Eu parecia estar em busca de um unicórnio em um pasto de cavalos.

A casa custa muito mais do que eu sonharia em poder pagar no momento, e isso era o que me impedia de ligar e marcar uma visita. Mas o fim de semana estava chegando e a curiosidade continuava no ar. Liguei para a imobiliária e as chaves estavam lá. Era só passar por lá e um corretor abriria as portas da mítica casa.

Depois de outra caminhada na praia, entrei na imobiliária. Com um chinelo sujo de areia e camiseta puída, não tinha chance de ser levado a sério como comprador. Então, resignado mas confiante, perguntei a uma vendedora se a casa de frente para o mar e da “praça dos paraguaios”, como é popularmente conhecida, era a ex-residência do presidente, ao qual ela respondeu “Não, já perguntaram isto para o Ricardo (?), mas não é não”, com um sorriso meigo que desarmou qualquer pergunta subseqüente. Agradeci, e fui embora.

Ainda andei sem rumo pela praia de Brejatuba, tentando encontrar na arquitetura das casas alguma pista sobre qual teria sido a casa do ditador, mas a curiosidade foi sendo tranqüilizada e, aos poucos, como o próprio Stroessner, que morreu pacificamente aos 93 anos de idade em Brasília, desapareceu.

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Uma das últimas fotos tiradas do ditador paraguaio Alfredo Stroessner

por dougspadotto em História e ainda não tem comentários

O rei do pop

Eu e minha co-editora não concordamos em muitos, muitos, muitos assuntos. Mas concordamos em vários também, e inclusive em respeitar as opiniões de cada um. Então tudo bem.

Vamos testar esta tolerância em outra discussão pois: o rei está chegando!

Não, não é a segunda vinda de Michael Jackson. É a turnê de 50 anos de carreira do rei Roberto Carlos, que chega à Curitiba em Outubro.

São tantas emoções

Um homem...

Talvez seja eu ficando velho, acredito que não, talvez seja a significância do número 50 (mais cedo este ano comemorei os 50 anos da Revolução Cubana in loco), mas na verdade acho que é só a conclusão de uma coisa: Roberto Carlos é pura diversão!

Ele foi e é um fenômeno pop tupiniquim, e também universal, pois passou por todas as agruras de um ídolo: filhos não-reconhecidos, manias, conversão religiosa, drogas, acidentes… não necessariamente nesta ordem.

Mas sem contar esta análise de bastidores, a sua música, escrita em diversas parcerias, fala muito mais. Fala de carros velozes, garotas e bobagens assim lá no começo; fala de mulheres gordinhas e amores perdidos… de novo, não necessariamente nesta ordem.

De qualquer maneira que você monte a carreira e as contribuições de Roberto Carlos nestes 50 anos de carreira, é impossível não extrair daí uma gema pop valiosa, que rende um sorriso no rosto ou talvez até uma lágrima.

... tantas emoções

... tantas emoções

Um ângulo polêmico que preciso abordar logo de começo é o contexto histórico em que surgiu o fenômeno Roberto Carlos. Ditadura militar, Jovem Guarda, anos 60. Ninguém tinha razão naqueles anos. E nem queria. Todas as regras do jogo estavam sendo reescritas de semana em semana, de passeata em passeata, de prisão em prisão.

Mesmo nesta conjuntura Roberto trouxe um gostinho de rebeldia à grande massa de jovens, que de usar calças justas migravam talvez para um baseado e uma leitura do Manifesto Comunista. Gosto de pensar que Roberto Carlos talvez tenha feito muito mais para formar a geração das Diretas do que qualquer tropicalista.

Afinal, foi um show dele que vi em uma tv mal-sintonizada em um bar no meio de Cuba, em Camaguey, no final do ano passado, e não do Gilberto Gil, que provavelmente estava viajando com dinheiro do contribuinte em sua turnê.

por dougspadotto em Round 1 e tem (3) comentários
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