Curitiba – PR, Bélgica

Acompanhado de minha ilustríssima namorada participei ontem do primeiro evento “Dinner & a Movie” do Brooklyn Café aqui em Curitiba. Requiãozices à parte, a classificação própria do lugar é “coffee shop”. Lugar bem simpático na Trajano Reis, a nossa germinante “rua do Rock”.

Os pratos foram interessantíssimos e deliciosos. De esferas de manga a brotos de samambaia até cogumelos, o chef Washington Silvera deu um show para os presentes. Vocês podem acompanhar a apresentação do menu aqui:

Mas, da mesma forma que a Trajano Reis não é a rua do rock, por mais comovente que seja a aglomeração dos tipos mais bacanas da cidade pela região nas noites de quinta a domingo, o Brooklyn não foi um café do pessoal trendy de Estocolmo e não segurou bem a audiência para o filme que seguiu o jantar (na verdade foi em paralelo).

O cult “O Grande Lebowski” (“The Big Lebowski“, 1998) foi apresentado na parede do café. Escolha ótima que complementaria a noite, se não fosse o frio tremendo que fazia. O pé direito alto do lugar e a falta de aquecimento forçou a nossa saída antes do final do filme (e da sobremesa). Outro motivo para a saída foi a vontade de assistir o primeiro debate dos candidatos à presidência.

Uma vez Simón Bolívar se irritou com a chacota dos europeus sobre sua tendência absolutista. Irado, disse: “deixem que vivamos a nossa adolescência!”. Mas, neste caso, talvez seja bom ouvir o conselho da nossa mãe Europa e vestir um casaco.

Por mais bacanas que sejam as idéias de eventos culturais alternativos, precisamos que a organização leve em conta o ambiente, seja o calor escaldante de Salvador ou o frio esquizofrênico de Curitiba. De qualquer maneira, o importante é continuar experimentando. Brotos de beterraba, alguém?

Só faltou o Tofu Matador

por dougspadotto em Atualidade,Culinária,Gente e ainda não tem comentários

Somos teatro. Escute o silêncio. Geladeira.

No frio úmido tipicamente curitibano de ontem à noite (não que esta noite vá ser diferente), eu e minha excelentíssima participamos, isso mesmo, participamos, de uma leitura de textos da autora mexicana Ángeles Mastretta e do irlandês Samuel Beckett.

Participamos pode ser uma palavra forte para ficarmos na platéia ouvindo uma adaptação nem teatral nem acadêmica de uma seleção de textos de “Mulheres de Olhos Grandes” da mexicana e “Frustres” (Fizzles) do irlandês que fez seu nome em Paris. Mas não é forte. Especialmente em se tratando deste segundo autor e seus textos.

A “faixa bônus” da leitura foi um painel com os organizadores e realizadores do projeto, e deu muito o que pensar além dos textos (bem, daí o nome “bônus”, não é?).

Não me meti a fazer links entre Mastretta e Almodóvar, Beckett e haicais e o mercado de literatura. Sou tímido. Não acho que tenho a desenvoltura intelectual para “ficar bem” em uma discussão dessas. Mesmo tendo certeza que me sairia melhor do que alguns dos que participaram (curitibano eu, não?).

O fato de não encontrarmos uma autora que escrevesse sobre algo que não os problemas femininos apareceu na caminhada de volta para casa no frio. Mas a relevância de Beckett continuou até hoje ao meio-dia, quando uma corrente de pensamento que começou na faixa bônus continuou:

Beckett trata dos “vazios”. É o que todos dizem. Mais de 50 anos se passaram desde a revolução trazida ao teatro pelos seus textos, e além de referência seu estilo já virou até sátira. Um texto “beckettiano” parece falar nada. Não parece haver conexão entre as coisas que ele escreve. “Meu silêncio. Bananeira do avô. Carro de boi. Ele vai.” – junte textos deste tipo e uma guria mostrando os peitos e você tem 78% das peças de teatro entre 1950 e 2000.

Mas por que ao mesmo tempo em um dos textos de “Frustres” eu tive vislumbres de H. P. Lovecraft, Douglas Adams, Rudyard Kipling e praticamente todo o resto do arsenal de ficção de que eu disponho para preencher os vazios? Me peguei em alguns momentos até me colocando na cena, que parece ao mesmo tempo ser de um inválido espionando um ex-amor, um veterano de guerra mutilado ou até mesmo um parasita alienígena dentro de um ser humano.

Beckett tem uma obra de 50 anos e milhares de páginas. Não pode ser um autor do “nada”, do “vazio”. Nestes vazios, como na música, está Deus. Está a consciência do que realmente somos. O resto, nossa vida observável, até nossa ficção, é que é a ilusão. A verdade está nestes espaços.

“Here’s my life, why not, it is one, if you like, if you must, I don’t say no, this evening. There has to be one, it seems, once there is speech, no need of a story, a story is not compulsory, just a life, that’s the mistake I made, one of the mistakes, to have wanted a story for myself, whereas life alone is enough.” (“Aqui está minha vida, por quê não, é uma vida, se você quiser, se você precisar, eu não digo não, esta noite. Deve existir uma, eu acho, uma vez que há a fala, nenhuma necessidade de uma história, uma história não é compulsória, somente uma vida, este foi o erro que eu cometi, um dos meus erros, querer uma história para mim, quando só uma vida é suficiente.”) – Textos para nada (1955)

P.S.: título do post com um tip o’ the hat para esta camiseta.

por dougspadotto em Arte,Atualidade e ainda não tem comentários

Amadurecendo a discussão sobre a Linha Verde

Meu carro foi arrombado novamente. Desta vez os meliantes não levaram absolutamente nada, a não ser o valor da franquia do seguro que vou pagar no conserto das fechaduras e da porta. A cultura do ladrão era tão pouca que nem meu iShuffle eles levaram, pensando ser um clipe ou outro acessório fashion. Sinto pena, junto com uma medida de indignação, pelo que aconteceu.

Meus representantes não fazem nada, e eu menos ainda. Somente me nego a viver com medo, e acho isto uma vitória quando comparado com os sentimentos de colegas que ouço por aí. É uma concessão que faço: sofro com o crime, mas me nego a viver assustado. Talvez isso mude quando minha vida ou dos meus entes queridos seja ameaçada e não meus bens materiais, não sei.

Mas o post não é sobre criminalidade, mas outra grande polêmica que envolve nosso maior representante local, o prefeito da cidade, e sua obra-chave: a Linha Verde, uma reestruturação de um contorno, adicionando pistas, canaleta de ônibus e um paisagismo joínha. Como é bom falar mal da Linha Verde, não? Não tem um dia que se passe na Band News sem alguém falando a “vergonha” que é aquilo.

Não é exatamente a primeira coisa que vem à mente ao se pensar "Linha Verde", não?

Nunca fui desta opinião. A Linha Verde melhorou e muito o tempo que levo da minha casa à casa dos meus pais (Jardim das Américas – CIC, aproximadamente 25km). Isso de carro é fácil falar. Mas e sem carro? Algumas organizações muito cool além de criticar a Linha Verde criticam a falta de planejamento para transporte coletivo e/ou alternativo, como a bicicleta. Resolvi pôr a prova estas acusações.

Tenho uma Monark Barra Circular de 1989 que mandei reformar no final do ano passado e que não tinha usado desde então (e muito tempo antes disso). Sempre me enrolei para trazê-la para minha casa porque colocar ela no carro era trabalhoso. Resolvi então “trazê-la” com ela “me trazendo”.

Desde o fim do ano os pneus esvaziaram, e a corrente decidiu sair do lugar no vai e vem dos pneus sendo calibrados. Na mochila, itens essenciais da mudança semanal e para a jornada: laptop, roupas, toalha, 2 livros (nunca viaje sem livros) e 2 camisinhas (quem assitiu “Pulp Fiction” sabe que andar devagar por locais onde normalmente se anda rápido de carro pode ter conseqüências imprevisíveis):

Dividi o trajeto em 6 trechos, sendo o principal a Linha Verde. Chegar até ela foi meio demorado a partir do CIC, mas depois foi uma beleza, mesmo debaixo de eventuais chuviscos. Existe uma ciclovia/calçada em todo o seu percurso (falhando um pouco na travessia perto da Leroy Merlin), com asfalto novo. Além disso, as subidas são suavizadas, sendo que na 1 hora e meia que passei pedalando mal cheguei a suar.

Então, ao invés de criticar, encontre soluções dentro do que a cidade oferece. Ou faça propostas. Não é porque a prefeitura não faz exatamente o que você quer que ela está perseguindo o grupo x ou y. Um bom projeto demanda concessões, e temos que ser civilizados o suficiente para encontrarmos um meio termo entre as várias partes que formam esta metrópole dos pinheirais.

por dougspadotto em Atualidade e tem (2) comentários

Máfia sem família

Chegando perto do Oscar e morando aqui na província dos pinheirais fica difícil ter acesso a todos os filmes nas salas de exibição. Ainda bem que meu colega Beto Torrente oferece sessões especiais de filmes que não chegam por aqui. Foi o caso ontem à noite, quando tive o prazer de uma exibição privada de “Un Prophète” (2009), representante da França este ano na competição de melhor filme estrangeiro.

As comparações com “O Poderoso Chefão” vieram desde o primeiro trailer que vi na Web, mas o filme do diretor Jacques Audiard vai muito além disso. Em uma era individualista porém globalizada, a famiglia vira uma série de alianças entre corsos, árabes, ciganos e franceses. O protagonista, o jovem  Malik El Djebena (Tahar Tahim) é condenado a seis anos de detenção por agredir um policial, e há a insinuação de uma juventude aparentemente cheia de contratempos com a justiça. Só que desta vez ao invés do reformatório a prisão é de verdade.

Sozinho na prisão, Malik encontra proteção com os corsos, liderados por César Luciani (Niels Arestrup). Na França estes habitantes da ilha no Mediterrâneo são o equivalente dos sicilianos na Itália. A organização parece a mesma, e a língua é um misto de francês e italiano delicioso de (tentar) decifrar. Proteção que não vem de graça, marcando a graduação de Malik no crime.

Outra força a ser reconhecida na prisão são os muçulmanos. Para os corsos, são brutos que não usam a cabeça. São usados fora da prisão como músculos e tratados como animais. É entre estes dois mundos que Malik vive e floresce. Desprezado por seus irmãos por ser o criado dos corsos e maltratado por estes, aos poucos toda a humilhação vai trazendo conhecimento e sangue frio para que ele comece a alçar seus primeiros vôos em uma vida de crime organizado, mesmo de dentro da prisão.

Na cacofonia entre o árabe, francês e corso, na claustrofobia de um olhar que não enxerga nada além do que se apresenta logo a sua frente, Malik encontra um caminho, movido não pelo sobrenatural, mas suas próprias pulsões humanas, quase animais, de sobrevivência.

Realmente a aproximação com o clássico de Francis Ford Coppola é válido só que, também um sinal dos tempos, ele comprime os dois filmes em um só, e analisa as novas formas de sobrevivência que as pessoas à margem da sociedade encontram neste mundo onde tudo está tão próximo e interligado porém cada vez mais individualista e mesquinho.

por dougspadotto em Arte,Cinema e ainda não tem comentários

Negócios de família

“A banda MoJones vai tocar no Wonka.” “No WON-KA?”. “Sim.” Minha presença estava garantida pois a banda é boa e o vocalista é um grande amigo, mas o choque da mais nova gig desta jam band ser em um dos bares mais hip de Curitiba se manteve até os primeiros dois minutos do show. Depois disso, a música derrubou qualquer diferença ou preconceito.

Apresentando os personagens e cenário deste acontecimento, primeiro temos a banda MoJones, com muito rock n’roll, blues e funk em seu repertório. Em seguida, o Wonka bar, onde a galerinha antenada se encontra para tomar cervejinhas e comer crepes. Lá ninguém com um tênis com menos de 4 cores é alguém. Se seu cabelo não for repicado com navalha, eles oferecem o serviço na entrada para que você não se sinta tão deslocado.

Nas horas de espera antes do show, ninguém parecia mais deslocado do que a própria banda. O bar estava bem cheio, o palco é pequeno e bem próximo da pista, não tinha como não sentir a pressão de tocar em um lugar assim.

Subindo no palco os cinco integrantes pareciam as cinco famílias de Nova York, cercadas pela Yakuza e as Tríades (de onde vieram tantos orientais?) e pela Lei, representada pelo padrão indie que o bar parece impor. Estava na hora de ir para os colchões.

Aliviando o choque do primeiro contato, os capos da MoJones tinham seus fiéis soldatos logo nas primeiras filas, agitando muito e dando aquele apoio. Nas primeiras músicas os acertos de som, menos teclado, mais guitarra, e muito mais Jim Beam e Caracus, tomadas com satisfação pelo vocalista enquanto a banda honrava o seu nome de jam.

Aos poucos o público em geral foi ficando curioso com a barulheira, com as músicas clássicas de bem antes de The Cure ou Lady GaGa, como Stevie Wonder e ZZ Top. Vi mais de um hipster agitando com Black Crowes. Para os fiéis da banda, a estréia ao vivo da primeira música própria, “Crazy Jane”, trouxe sorrisos de orgulho e satisfação (ao menos pra mim).

Já confortáveis no palco e até aceitando pedidos, o show foi chegando ao fim. Eu já estava na parte de cima do bar (embaixo continuava a encher) e ouvi uma nota/grito do Chefe que, se não garantiu a volta da banda ao bar, ao menos imprimiu para sempre (ou pelo menos até reformarem/pintarem de novo o lugar) em suas paredes a marca do verdadeiro rock n’roll.

por dougspadotto em Arte,Gente,Música e ainda não tem comentários
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