Amadurecendo a discussão sobre a Linha Verde

por dougspadotto em 3 de março de 2010

Meu carro foi arrombado novamente. Desta vez os meliantes não levaram absolutamente nada, a não ser o valor da franquia do seguro que vou pagar no conserto das fechaduras e da porta. A cultura do ladrão era tão pouca que nem meu iShuffle eles levaram, pensando ser um clipe ou outro acessório fashion. Sinto pena, junto com uma medida de indignação, pelo que aconteceu.

Meus representantes não fazem nada, e eu menos ainda. Somente me nego a viver com medo, e acho isto uma vitória quando comparado com os sentimentos de colegas que ouço por aí. É uma concessão que faço: sofro com o crime, mas me nego a viver assustado. Talvez isso mude quando minha vida ou dos meus entes queridos seja ameaçada e não meus bens materiais, não sei.

Mas o post não é sobre criminalidade, mas outra grande polêmica que envolve nosso maior representante local, o prefeito da cidade, e sua obra-chave: a Linha Verde, uma reestruturação de um contorno, adicionando pistas, canaleta de ônibus e um paisagismo joínha. Como é bom falar mal da Linha Verde, não? Não tem um dia que se passe na Band News sem alguém falando a “vergonha” que é aquilo.

Não é exatamente a primeira coisa que vem à mente ao se pensar "Linha Verde", não?

Nunca fui desta opinião. A Linha Verde melhorou e muito o tempo que levo da minha casa à casa dos meus pais (Jardim das Américas – CIC, aproximadamente 25km). Isso de carro é fácil falar. Mas e sem carro? Algumas organizações muito cool além de criticar a Linha Verde criticam a falta de planejamento para transporte coletivo e/ou alternativo, como a bicicleta. Resolvi pôr a prova estas acusações.

Tenho uma Monark Barra Circular de 1989 que mandei reformar no final do ano passado e que não tinha usado desde então (e muito tempo antes disso). Sempre me enrolei para trazê-la para minha casa porque colocar ela no carro era trabalhoso. Resolvi então “trazê-la” com ela “me trazendo”.

Desde o fim do ano os pneus esvaziaram, e a corrente decidiu sair do lugar no vai e vem dos pneus sendo calibrados. Na mochila, itens essenciais da mudança semanal e para a jornada: laptop, roupas, toalha, 2 livros (nunca viaje sem livros) e 2 camisinhas (quem assitiu “Pulp Fiction” sabe que andar devagar por locais onde normalmente se anda rápido de carro pode ter conseqüências imprevisíveis):

Dividi o trajeto em 6 trechos, sendo o principal a Linha Verde. Chegar até ela foi meio demorado a partir do CIC, mas depois foi uma beleza, mesmo debaixo de eventuais chuviscos. Existe uma ciclovia/calçada em todo o seu percurso (falhando um pouco na travessia perto da Leroy Merlin), com asfalto novo. Além disso, as subidas são suavizadas, sendo que na 1 hora e meia que passei pedalando mal cheguei a suar.

Então, ao invés de criticar, encontre soluções dentro do que a cidade oferece. Ou faça propostas. Não é porque a prefeitura não faz exatamente o que você quer que ela está perseguindo o grupo x ou y. Um bom projeto demanda concessões, e temos que ser civilizados o suficiente para encontrarmos um meio termo entre as várias partes que formam esta metrópole dos pinheirais.

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Máfia sem família

por dougspadotto em 26 de fevereiro de 2010

Chegando perto do Oscar e morando aqui na província dos pinheirais fica difícil ter acesso a todos os filmes nas salas de exibição. Ainda bem que meu colega Beto Torrente oferece sessões especiais de filmes que não chegam por aqui. Foi o caso ontem à noite, quando tive o prazer de uma exibição privada de “Un Prophète” (2009), representante da França este ano na competição de melhor filme estrangeiro.

As comparações com “O Poderoso Chefão” vieram desde o primeiro trailer que vi na Web, mas o filme do diretor Jacques Audiard vai muito além disso. Em uma era individualista porém globalizada, a famiglia vira uma série de alianças entre corsos, árabes, ciganos e franceses. O protagonista, o jovem  Malik El Djebena (Tahar Tahim) é condenado a seis anos de detenção por agredir um policial, e há a insinuação de uma juventude aparentemente cheia de contratempos com a justiça. Só que desta vez ao invés do reformatório a prisão é de verdade.

Sozinho na prisão, Malik encontra proteção com os corsos, liderados por César Luciani (Niels Arestrup). Na França estes habitantes da ilha no Mediterrâneo são o equivalente dos sicilianos na Itália. A organização parece a mesma, e a língua é um misto de francês e italiano delicioso de (tentar) decifrar. Proteção que não vem de graça, marcando a graduação de Malik no crime.

Outra força a ser reconhecida na prisão são os muçulmanos. Para os corsos, são brutos que não usam a cabeça. São usados fora da prisão como músculos e tratados como animais. É entre estes dois mundos que Malik vive e floresce. Desprezado por seus irmãos por ser o criado dos corsos e maltratado por estes, aos poucos toda a humilhação vai trazendo conhecimento e sangue frio para que ele comece a alçar seus primeiros vôos em uma vida de crime organizado, mesmo de dentro da prisão.

Na cacofonia entre o árabe, francês e corso, na claustrofobia de um olhar que não enxerga nada além do que se apresenta logo a sua frente, Malik encontra um caminho, movido não pelo sobrenatural, mas suas próprias pulsões humanas, quase animais, de sobrevivência.

Realmente a aproximação com o clássico de Francis Ford Coppola é válido só que, também um sinal dos tempos, ele comprime os dois filmes em um só, e analisa as novas formas de sobrevivência que as pessoas à margem da sociedade encontram neste mundo onde tudo está tão próximo e interligado porém cada vez mais individualista e mesquinho.

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Negócios de família

por dougspadotto em 20 de fevereiro de 2010

“A banda MoJones vai tocar no Wonka.” “No WON-KA?”. “Sim.” Minha presença estava garantida pois a banda é boa e o vocalista é um grande amigo, mas o choque da mais nova gig desta jam band ser em um dos bares mais hip de Curitiba se manteve até os primeiros dois minutos do show. Depois disso, a música derrubou qualquer diferença ou preconceito.

Apresentando os personagens e cenário deste acontecimento, primeiro temos a banda MoJones, com muito rock n’roll, blues e funk em seu repertório. Em seguida, o Wonka bar, onde a galerinha antenada se encontra para tomar cervejinhas e comer crepes. Lá ninguém com um tênis com menos de 4 cores é alguém. Se seu cabelo não for repicado com navalha, eles oferecem o serviço na entrada para que você não se sinta tão deslocado.

Nas horas de espera antes do show, ninguém parecia mais deslocado do que a própria banda. O bar estava bem cheio, o palco é pequeno e bem próximo da pista, não tinha como não sentir a pressão de tocar em um lugar assim.

Subindo no palco os cinco integrantes pareciam as cinco famílias de Nova York, cercadas pela Yakuza e as Tríades (de onde vieram tantos orientais?) e pela Lei, representada pelo padrão indie que o bar parece impor. Estava na hora de ir para os colchões.

Aliviando o choque do primeiro contato, os capos da MoJones tinham seus fiéis soldatos logo nas primeiras filas, agitando muito e dando aquele apoio. Nas primeiras músicas os acertos de som, menos teclado, mais guitarra, e muito mais Jim Beam e Caracus, tomadas com satisfação pelo vocalista enquanto a banda honrava o seu nome de jam.

Aos poucos o público em geral foi ficando curioso com a barulheira, com as músicas clássicas de bem antes de The Cure ou Lady GaGa, como Stevie Wonder e ZZ Top. Vi mais de um hipster agitando com Black Crowes. Para os fiéis da banda, a estréia ao vivo da primeira música própria, “Crazy Jane”, trouxe sorrisos de orgulho e satisfação (ao menos pra mim).

Já confortáveis no palco e até aceitando pedidos, o show foi chegando ao fim. Eu já estava na parte de cima do bar (embaixo continuava a encher) e ouvi uma nota/grito do Chefe que, se não garantiu a volta da banda ao bar, ao menos imprimiu para sempre (ou pelo menos até reformarem/pintarem de novo o lugar) em suas paredes a marca do verdadeiro rock n’roll.

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Tão cinza…

por Everton em 28 de janeiro de 2010

Viver em Curitiba é se acostumar com o céu cinza e não ligar muito para isso, é realmente ser feliz sem precisar de um dia de Sol.

Porém agora percebo que o tempo talvez esteja influenciando o meu humor… não só o clima, mas também isso, preciso de férias, sem dúvidas!

Enfim, esse breve briefing é pra dizer que estou triste, sei que estar triste é uma escolha e nesse momento essa é ruim, mas tudo vai passar! Mas por enquanto, algumas poesias tristes e uma acreditando que as coisas podem mudar…

O que eu tenho

Vejo as núvens lá fora
o prenúncio de tempos difíceis
sinto uma ânsia, uma vontade de gritar
mas quem me ouviria, se já não grito?

sinto um calafrio
que percorre meu corpo
me avisando que algo está errado
sinto um desespero, uma vontade de fugir
mas para onde, se já cheguei?

sozinho e cercado de pessoas
quero acreditar em algo bom
mas sei esta apenas começando
Sinto uma tristez, uma vontade de chorar
mas quem se importaria, se já chorei?

Espero pelo silêncio
dizendo que é chegada a hora
começo a entorpecer, aquela vontade de deixar
sinto um desalento, uma vontade de me perder
mas perder o que, se já não tenho?

As núvens dizem
que o calafrio
é porque o tempo chegou
e preciso chorar
para finalmente deixar
e encontrar o que eu tenho.

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Um novo

Queria poder escrever um outro fim para nossa história,
um que falasse que viveríamos felizes pra sempre
mesmo sabendo que brigaríamos, choraríamos e até triste ficaríamos
Mas com certeza também riríamos, dançaríamos e felizes seríamos

Vendo de certa maneira, não seria um fim, mas sim um novo começo
acreditanto em tudo o que temos, em tudo o que aprendemos
e não foram poucas coisas, definitivamente foi muita coisa
mas agora eu escrevo meus capítulos e você os seus

No meu livro você ainda é personagem principal,
Tem papel de destaque, mas vive em fuga, não quer mais o mocinho
Queria tanto ler o seu livro e saber o que você escreve
saber se tem uma parte dele onde eu apareça

Talvez na sua história eu seja apenas o vilão mal,
que maltratou seu coração e que nem de perto merece perdão
engraçado que escrevemos histórias parecidas
porém com personagens tão diferentes

Ambas histórias fazem muito sentido sozinhas, em separado
mas com certeza seriam mais completas se de duas fizessemos uma
se o seu vilão se transformasse no mocinho que salva o dia
e que vive com a mocinha pra sempre, melhorando dia-a-dia

Mas não sou eu quem escreve seu livro, sequer tenho influencia
E talvez, apenas talvez, seja hora de eu escrever um novo…

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Ainda

Ainda que eu ame seus belos olhos,
não vou mais fitá-los

Ainda que eu ame sua voz doce,
não vou mais ouvi-la

Ainda que eu ame seu cheiro,
não vou mais senti-lo

se for isso que te fará feliz,
eu ficarei pra trás

Entregarei os pontos
e entenderei que perdi
ou melhor que deixei

Ainda que eu ame suas mãos,
não vou mais tocá-las

Ainda que eu ame seus cabelos,
não vou mais acariciá-los

Ainda que eu ame seu coração,
não vou mais confortá-lo

Se for isso que te fará evoluir,
eu seguirei em frente

engolirei o choro
e aceitarei suas escolhas
sua felicidade

Ainda que eu ame suas qualidades,
Ainda que eu ame seus defeitos,
Ainda que eu a ame por completo,
Ainda que eu ame você e só você
não vou deixar de te amar
mas vou deixar de sofrer

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Só uma vez foi…

Quero encontrar o que eu perdi,
mas não confunda com o que eu deixei
o primeiro eu não escolhi
e para o segundo foi como eu pensei

Quero juntar os pedaços do meu coração
mas não confunda com os do seu
o primeiro eu não tinha noção
e para o segundo foi porque você sofreu

Quero acreditar em amar novamente
mas não confunda com o nosso amor
o primeiro seria apenas diferente
e para o segundo, ah, era o furor

O que perdi, o que deixei
o que escolhi, o que pensei
O meu coração, também o seu
a falta de noção, quanto você sofreu
amar novamente, não o nosso amor
seria diferente, sem todo o furor
porque igual, intenso e bom
só uma vez foi…

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Pense nisso

Tempos ruins, em estradas tortuosas,
Chuva, tempestade e Neblina
Dor, angústia, raiva e remorso
Aquela vontade de parar o mundo

Mas lembre-se minha dona:

Sempre há um porto seguro
Com estradas macias
Onde sempre há Sol
Alegria, carinho, amor e paixão
Aquela vontade de parar o mundo
Só que agora por outro motivo

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Livre adaptação

por dougspadotto em 15 de janeiro de 2010

Aqui em Curitiba existe um espaço cultural chamado Aoca. Alguns que o conhecem podem rir-se desta definição. É na verdade uma casa noturna freqüentada por  universitários, estejam eles na Universidade ou não. O que atrai muitos destes freqüentadores são os ritmos nacionais que a casa apresenta de quinta a sábado. Alguns até “agitam” no pré-show destes dias: a performance muitas vezes solo de um artista que já ouvi ser chamado de “Livre adaptação”.

O apelido carinhoso ao meu ver vem do fato que todas as versões das músicas que ele interpreta soarem como um forró. Seja um samba rock ou um clássico da MPB, mesmo sem o triângulo acompanhando parece que, por exemplo, “Proibida pra mim” foi composta no sertão do Ceará. De longe é bonito apreciar a liberdade e a personalidade que este artista impõe toda semana por lá a tanto tempo.

Longe da escuridão da rua 13 de Maio, no frio de um cinema de shopping, hoje tive o prazer de, agora de perto, me deliciar com outra forma de livre adaptação: se Guy Ritchie tocasse forró, “Sherlock Holmes” (2009) seria pra lá de arretado!

Cada um com seu par? Vamos lá!

O triângulo imaginário que soou no meu ouvido desde os primeiros momentos do filme, que mostram uma cerimônia macabra desmantelada pelos heróis, foi tocado por outro livre adaptador de vitoriana, o mago Alan Moore, escritor dos clássicos “From Hell” e “League of Extraordinary Gentlemen“. Ficava imaginando como o talento de Guy Ritchie serviria bem para eventuais re-adaptações destas obras para a telona. Elas já foram adaptadas mas estão mais para versões de Rolling Stones cantadas por Britney Spears do que para um veloz repente do Nordeste.

Velocidade é algo que Ritchie sabe usar. A tal ponto que ele muitas vezes pára, antecipa ou explica posteriormente suas cenas, que relampejam pela tela em quadros que duram frações de segundo (guarde este seu editor a sete chaves Guy!). Como o Pápa-Léguas, estes slow motions são os seus “beep! beep!” para os coiotes coiós sentados na platéia. Nunca foi tão bom ser esmagado por um cofre Acme!

Direção de arte, fotografia e figurino são reforçados por computação gráfica e um roteiro magnético para formar uma mistura explosiva. Literalmente. A aventura de Sherlock Holmes (Robert Downey Jr.) e do Dr. John Watson (Jude Law) tem a marca de Guy Ritchie não só no seu uso da velocidade, mas da violência, tiros e explosões. Entretanto as bases da mitologia criada por Sir Arthur Conan Doyle são respeitadas, e até ampliadas, como no exame mais próximo do relacionamento de Holmes e Watson, uma amizade beirando a irmandade.

A mitologia cresce também no uso de uma vilã ocasional (do conto “Um Escândalo na Boêmia“), Irene Adler (Rachel McAdams) como ponte para a participação breve do arqui-inimigo de Holmes, Professor Moriarty (interpretado por Brad Pitt em uma eventual continuação?). A adaptação é tão multi-facetada e original que até sobrou espaço para uma crítica à Guerra ao Terror, com falas aqui e ali insinuando o medo como arma e a necessidade de uma liderança forte para combatê-lo, mesmo que este medo seja imaginário.

Lorde Bus... quer dizer, Blackwood (Mark Strong)

O sucesso de bilheteria alcançado pelo filme pode muito bem garantir uma continuação, que é mais do que insinuada no desfecho do filme. Mesmo que ela não se concretize, o filme se mantém muito bem não só como uma (livre) adaptação ou homenagem, mas também como um novo capítulo na saga do detetive mais famoso do Mundo.

Em uma eventual continuação poderíamos ter, junto com a viola e o repente de Ritchie e o triângulo de Moore, a zabumba das Cataratas de Reichenbach?

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