E se o Super-Homem existisse?

por dougspadotto em 8 de dezembro de 2009

Há pouco menos de um ano encontrei santos. Eles não curam paralisias ou trazem sorte. Talvez prosperidade, não do individual como pregado em nossas inúmeras igrejas, mas da comunidade.

Na “Grande Antilha”, a república de Cuba, toda casa em que fiquei tinha um retrato de Fidel, Camilo e, em menos quantidade, Che. As pessoas que eu encontrava e conversava sobre a revolução falavam destes seus heróis com uma paixão extraterrena. Eles deviam tudo à longínqua luta que estes homens começaram há mais de 50 anos.

Por mais que a propaganda queira imbuir estas pessoas de características especiais (lembro do curador que me deixou entrar em uma exposição fotográfica de Fidel antes de sua abertura dizer que ele era “um gigante”), elas também adoecem, como podemos acompanhar nos últimos anos de ausência de Fidel, do “desaparecimento físico” de Camilo e o assassinato de Ernesto “Che” Guevara.

Este último, argentino mas cubano honorário, é o que mais atrai culto fora da ilha, por ter sido um revolucionário global, quando o termo “globalização” ainda só se manifestava em alguns artigos acadêmicos obscuros. Ele continua popular através da emblemática estampa de camiseta, seus slogans (alguns deles na verdade citações de outros), e também  imortalizado em seus próprios diários, biografias, músicas e filmes.

Uma das últimas manifestações deste último são os dois filmes de Steven Soderbergh, “Che, o Argentino” (Che: Part One, 2008) e “Che: Guerrilha” (Che: Part Two, 2008).

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Os dois filmes são baseados nos diários que Che escreveu, primeiro durante a revolução cubana, e depois da sua malfadada tentativa de revolução na Bolívia. O primeiro livro tive o privilégio de obter e ler, em uma edição distribuída a todos os estudantes cubanos que terminaram o ensino secundário (algo quase inimaginável antes da revolução). Impulsionado pela paixão de ter presenciado alguns benefícios, bem como malefícios, da revolução, devorei o livro em poucos dias. O primeiro filme portanto para mim parece ter sido um pouco desapaixonado, tirando a aura mágica que coloquei ao redor do Che.

Com idas e vindas no tempo, desde os preparativos para a revolução até seu discurso na ONU após o seu triunfo, o filme pareceu além disso instável, desequilibrado. Mesmo assim, como todo livro filmado, foi interessante ver os personagens imaginários (mesmo que reais) na telona.

Bashir, Santoro, Del Toro: Fidel, Raul e Che

Bashir, Santoro, Del Toro: Fidel, Raul e Che

Inicialmente foi divulgado que os filmes foram separados por formarem um filme só de 4 horas e meia. Mas o tom do segundo filme é bem diferente. Sem idas e vindas, ele continua sim logo após o triunfo da Revolução que encerra o primeiro filme. Mas a conexão ou similaridade acaba aqui. Todas as falhas do primeiro filme parecem corrigidas neste.

Começamos com Che e sua família. Nenhum diálogo concreto. Somente cenas de um jantar e um descanso no sofá, sem uma palavra trocada com sua esposa. Neste ponto ele já tinha “desaparecido” da política cubana e se preparava para seus próximos passos revolucionários. Ele segue disfarçado para a Bolívia, com o apoio de Fidel.

Um país que Che visitou durante sua juventude e onde testemunhou as primeiras injustiças contra os pobres, como mostrado em “Diários de Motocicleta” (The Motorcycle Diaries, 2004), a Bolívia tinha, em sua opinião, as condições para a revolução porque, como ele mesmo disse, “em todo lugar onde o homem é explorado por outro homem, há condições para a revolução”.

Che na Bolívia

Che na Bolívia

Mas não foi assim. Por mais revezes que a revolução cubana tenha sofrido, o que é mostrado no diário e no filme é uma seqüência muito maior de fracassos, derrotas e dificuldades. Che sofre com sua asma, com problemas logísticos e deserções. A todo momento sua convicção é testada, e em nenhuma ela parece falhar.

Ele sofre e se contradiz, ele sofre e perde o controle, ele sofre. Mas nunca desiste. Essa insistência por si só é a inspiração para os poucos revolucionários que continuaram com ele até o último momento, quando foram cercados por um número absurdo de tropas e obliterados. No fim, ele é executado anunciando que seu corpo pode morrer, mas a revolução nunca!

O mais próximo da divindade, santidade ou idolatria que um homem pode alcançar Che alcançou, não sendo um Super-Homem, mas sendo nada mais do que humano.

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O Software Livre e o Eixo do Mal

por dougspadotto em 28 de outubro de 2009

Mais um livro que foi-se nesta semana mal-dormida foi o tomo 3 das “Reflexiones de Fidel” que eu trouxe de Cuba. É uma coleção de artigos que o Comandante escreveu entre 3 de Agosto e 18 de Setembro de 2007. No papel ele parece mais comedido que em seus discursos quando se trata da extensão, mas mesmo assim não tem medo de abordar praticamente todo e qualquer assunto.

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O último artigo deste volume é entitulado “Mentiras deliberadas, muertes extrañas y agresión a la economia mundial“. Nele Fidel expõe, com longas citações de auto-biografias e documentos, os detalhes da operação Farewell, um conjunto de ações de inteligência econômica tomadas para derrubar a antiga URSS.

A operação é extensa e vai desde intercâmbios estudantis até a Guerra nas Estrelas, esta última sendo o último prego no caixão da sucateada nação soviética, incapaz de competir neste nível de tecnologia.

Mas o que mais me chamou a atenção foi uma missão da qual já tinha lido na Internet, sobre a inclusão de código malicioso em softwares especializados que a URSS pirateava do Ocidente. Um caso sério e documentado foi a colossal explosão de um gasoduto causado por um “reset” dos valores de configuração programado como cavalo de Tróia.

Logo depois do meu próprio link sobre as implicações do movimento do Software Livre no caso de uma tentativa de reproduzir a operação Farewell nos dias atuais, o próprio Fidel cita um líder do movimento (sem dar o nome) que disse que “a medida que se complejizan las tecnologías será más difícil detectar acciones de ese tipo”.

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Fidel também conclui dizendo que desde o fim da URSS Cuba formou centenas de milhares de pessoas em nível superior. “¡Que otra arma ideológica nos puede quedar que un nivel superior de conciencia!”, exalta o eterno líder cubano. “Si lo que desea es conocer verdaderas fieras, dejen que en el ser humano no prevalezcan los instintos”, completa.

Por que o império americano conseguiu derrubar a gigante União Soviética e não “nanicos” como Cuba e Coréia do Norte? Educação. Doutrinação para alguns, mas na base dos programas sociais destes regimes comunistas (posso falar com certeza de Cuba, não me atrevo a especular muito sobre a Coréia) está o desejo genuíno de desenvolver o ser humano, e não o mercado.

Com a liberdade do software livre e o “arsenal ideológico” advindo de uma educação superior gratuita e de qualidade, a porção tecnológica do dossiê Farewell não tem chance de ser implementado nos dias atuais. E com o império e grande parte do Ocidente passando por agruras financeiras, nem a econômica pode ser colocada em prática. Mesmo porque, combatendo em duas frentes com relação ao software, Cuba já adota o software livre como opção, estando livre do custo proibitivo do sofware fechado e se beneficiando de sua tecnologia avançada e, mais importante, segura.

Se não fosse o embargo criminoso imposto à Cuba, o Mundo teria um exemplo claro do que acontece quando um país é educado de maneira a maximizar seus esforços pelo bem comum, e não pelo lucro.

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Anedotas e exemplos

por dougspadotto em 27 de outubro de 2009

Um pouco do colorido da vida do ex-chanceler Vasco Leitão da Cunha. A primeira eu tirei da Internet mesmo:

O chanceler Vasco Leitão da Cunha aproveita uma ida para o aeroporto de Brasília, no carro oficial, para dar entrevista a um repórter. No caminho, um cachorro atravessa a avenida. O motorista dá uma guinada, o carro desliza, quase bate num poste ou capota. Passado o susto, o chanceler respira fundo e, diplomaticamente, adverte o pálido motorista. “ Meu caro Josias, tenha sempre seu bom coração, mas nunca esqueça de acionar o seu bom cérebro. Se tivesse acontecido o pior, imagine a manchete amanhã:  “MOTORISTA MATA UM MINISTRO PARA SALVAR UM CACHORRO”.

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Estas outras eu digito do livro, que vale a pena mesmo a leitura, até mesmo para desafiar alguns preconceitos contra a direita e a esquerda igualmente:

Na II Guerra Mundial, em Monte Castelo: “… Almoçamos na linha de batalha, ao norte de Florença. Osvaldo Cordeiro Farias ofereceu-nos um almoço no posto de comando do coronel Sousa Carvalho, e fomos bombardeados o tempo todo. Foi engraçadíssimo. Havia uma banda que tocava enquanto caía a metralha… Era uma beleza… Os pracinhas cantavam: ‘Que é que fizeram com a sua bicicleta, Maria? Tedeschi portare via…’”

(tedeschi significa “alemães” em italiano. Esta parte desta popular música da FEB fala  que eles levaram embora a bicicleta da Maria)

Vocês podem encontrar a música original neste link. É divertidíssima mesmo!

Em Cuba: “… Um homem sério, que me deu a melhor das impressões desde a primeira vez que o vi, foi o Che Guevara. Ele estava no sul de Cuba, não em Sierra Maestra, e chegou a Havana antes do Fidel, que veio devagar, ocupando porto por porto. O Che chegou com a tropa do diretório estudantil e, durante a noite os estudantes invadiram o hotel onde estava alojada a embaixada da Colômbia, que já tinha um asilado do Batista. Os rapazes queriam levar o asilado. Fui avisado e logo tomei minhas providências. Às sete da manhã do dia seguinte estava o Che lá na minha embaixada querendo falar comigo, dizendo que tinha ficado furioso com o comportamento dos rapazes, que reconhecia que era um comportamento inaceitável e que não ia mais admitir coisas desse gênero, de que os diplomatas tivessem de se queixar. É da essência da atividade a imunidade do chefe da missão, onde quer que esteja. De maneira que os estudantes não podiam ter invadido as habitações do embaixador da Colômbia no hotel. O Che pediu que eu os desculpasse, disse que eram cabeças quentes, mas que aquilo não se repetiria. Eu não o conhecia! Fiquei impressionado com a sua correção.
Houve outros casos depois, até cômicos. Um pelego do Batista muito conhecido se asilou na embaixada argentina. Quando anunciaram que estavam chegando rebeldes que queriam entrar, ele se meteu na cama do embaixador! O embaixador me disse: ‘Acabo de receber uma visita na minha cama!’ “

Como era de esperar, o sr. da Cunha é da opinião que Che foi forçado a sair de Cuba pelo Fidel.

Muy amigo

Muy amigo

Depois de Cuba, ele foi convidado a assumir a Secretaria Geral do Itamaraty, uma posição vista como menor que a de um embaixador. Assim foi a reação de sua esposa, dona Nininha:

“… Aceitei, telefonei para Havana e contei à minha mulher, que me disse: ‘Meu amor, és uma besta!’”

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E encontrei nesta reportagem especial sobre a África na BBC a opinião de um cidadão norte-americano que exemplifica bem como eles realmente acreditam que tudo tem solução, seguindo o exemplo bem americano da auto-determinação (eu coloquei o negrito) :

“…It is time for the peoples of Africa to look back into their past and identify people now to help direct them into a future which is fair and just. Easier said than done, but if the people take the power that is inherent to them it is possible.” — John, United States

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A felicidade de Teresa

por dougspadotto em 23 de setembro de 2009

Ontem, no “Dia sem carro” de Curitiba, tão efetivo quanto o “Dia sem submarino”, liguei o meu carro pela primeira vez no dia no final da tarde e fui para outro evento promovido pela prefeitura que tem recebido tanta publicidade quanto: a Mostra de Cinema Cubano promovida pela FCC.

Enganado pelo @CuritibaCultura, pensei que iria assistir ao moderno épico de guerra “Kangamba” (2008), mas fui surpreendido com um outro clássico cubano, “Retrato de Teresa” (1979).

Um dos pôsteres mais populares à venda nos sebos da ilha

Um dos pôsteres mais populares à venda nos sebos da ilha

A cópia ruim, com som horrível e sem legendas adicionou um pouco de inquietação à surpresa, mas aos poucos fui me acostumando (afinal, o sotaque eu conheço) e aos poucos a história triste de uma mãe se desdobrando para ser feliz sob a enorme pressão da revolução cubana foi abrindo mais e mais portas à reflexão.

Pressionada a produzir mais na tecelagem em que trabalha, co-dirigindo uma peça de dança do sindicato e ainda lidando com as tarefas do lar, Teresa mal tem tempo de respirar. Até seus momentos de reflexão são interrompidos por “companheiros” com novas idéias que ELA pode colocar em prática.

A princípio ela justifica sua jornada tripla ou quádrupla dizendo que não quer ser uma escrava do lar, como todas as mulheres da sua família. Nesta discussão seu marido vai embora, só para tentar voltar assim que vê que sua mulher está tendo sucesso sem ele.

Tanto Ramón (o marido) quanto Teresa não encontram felicidade plena somente na produtividade, na realização profissional que sob a revolução é relacionada ao fervor revolucionário e não aos objetivos pessoais. Ele como técnico de TVs sendo promovido para a divisão de TVs coloridas, ela aparecendo na TV como a formosa co-diretora de uma peça cultural.

"Ó vida, ó azar"

"Ó vida, ó azar"

Além de uma reflexão sobre revolução, tempos modernos (no sentido “Chapliniano” da palavra), feminismo e família, o filme destaca que, como Léon Tolstói escreveu em “A Felicidade Conjugal”: “… a felicidade só é real quando compartilhada”. Alguns podem dizer que as personagens conseguiram isto, realizando-se em meio a seus companheiros revolucionários, outros que o desfecho é triste e todas as conquistas são vazias sem alguém próximo para compartilhá-las. Faça a sua decisão.

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O político egoísta e o ornitorrinco

por dougspadotto em 20 de agosto de 2009

Se pudéssemos enumerar as razões de tanta tristeza em nossas sociedades, após alguma reflexão chegaríamos à corrupção como a fonte da maioria delas. Por sua vez, a corrupção tem uma fonte ainda mais profunda, algo que existe na natureza humana de querer sempre mais para si e para os seus, não importando as conseqüências.

A compra e venda de influências, muitas mas não todas as vezes com dinheiro público, faz o sistema “sangrar” recursos que seriam melhor aplicados em bens que beneficiariam uma comunidade como um todo, não só os envolvidos nas negociatas.

Sejam estes recursos financeiros porém até mesmo humanos, pois um criminoso que é inocentado através do tráfico de influências continuará fazendo mal à sociedade. E mais importante, o campo da acusação, vendo seus esforços legais desprezados pelos atalhos da corrupção, perdem a esperança, e no final acabam entrando para este jogo sujo ou pior, desistem.

A atração para o “lado negro” é muito forte, pela constatação de que é o caminho mais rápido para conquistar seus objetivos. Mas há também a atração natural de garantir a sua subsistência em detrimento dos outros, o “gene egoísta” já confirmado como um fato científico popular.

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Vamos olhar o caso recente do presidente Sarney, que teve todas as acusações arquivadas antes mesmo de qualquer apuração ou julgamento. Em um “acordão” que fede, mesmo acontecendo no meio do nada, em Brasília.

Por um lado, reconhecemos em Sarney e todos os políticos que nomeiam parentes o reflexo direto da evolução, tentando garantir a sobrevivência dos seus do melhor jeito possível, para que possam procriar e ter filhos fortes. Isso não é biologicamente verdadeiro, pois dinastias têm o costume de virar uma coleção de mutantes devido ao cruzamento entre parentes. Serve simplemente como uma ilustração da evolução agindo em outros meios.

Primos Sarney, circa 2087

Primos Sarney, ano 2087

Nestas garantias de cargos e um estilo de vida privilegiado, recursos do Estado são desviados por meios legais, estampados em gordos contra-cheques dados a parentes. Ao invés de gastar com produção de armas como os EUA, simplesmente jogamos dinheiro na direção de um setor improdutivo, que é o próprio Estado, que poderia com este dinheiro garantir melhores condições de vida para sua população.

Finalmente, este costume sujo faz cidadãos íntegros perderem a fé no sistema, como claramente exemplificado nas recentes desfiliações do PT, partido responsável por garantir o “acordão” de olho na, literalmente, nova geração que é a eleição de 2010.

A Evolução sempre tem seus becos sem-saída, então resta torcer para que a atual direção da evolução do cenário político brasileiro esteja no caminho do ornitorrinco. Mas nós mesmos podemos agilizar esta extinção, pois é fácil exterminar estes ornitorrincos. Eles são lentos e sucumbem a um único tiro certeiro: o voto.

Atire no ornitorrinco!

Atire no ornitorrinco!

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