Como se não fosse uma correria sempre ter conteúdo aqui para o blog, aceitei o convite de uma amiga jornalista, agora blogueira, para escrever às quintas-feiras. A coluna se chama Indignóid, no blog Musicanoid.
O primeiro post (clique para abrir) era para ser novamente sobre os políticos saindo dos cargos, mas andando por uma avenida em obras relembrei de uma cena pitoresca que presenciei em Cuba e a partir daí começou a confusão… ou o “pilar de reflexão contemporânea” conforme a Tatiana gentilmente descreveu! Aproveitem!
Na véspera de Natal de 2008 eu me dei um presente. Na verdade, supri uma necessidade. Estava eu de alpargatas com um mapa de Havana comprado no aeroporto na noite anterior, feliz da vida andando pelo Malecón. Passou uma hora de caminhada e, no meio da segunda hora, cheguei ao fim da célebre avenida com a sola do pé ardendo da fricção da corda da sola do calçado. Mesmo assim, feliz da vida, parei, suspirei, escrevi e continuei.
Segui bem para fora da região central de Havana e fui parar em outra avenida, onde cheguei impulsionado pela seguinte marcação no mapa: “Primeira Igreja do Jesus Cristo, Científico”. A tal igreja estava fechada, então olhei ao redor e, ainda com medo de encarar o transporte público da cidade, precisava de outro tipo de calçado. Por providência divina (ou do mercado), do outro lado da esquina da igreja estava uma loja popular, um misto de supermercado e loja. Os preços eram em peso convertible, a “moeda para turistas” de Cuba, mas mesmo assim o movimento era intenso e os preços muito menores do que nas lojas para turistas.
Encontrei um par de sandálias fantástico. De couro, bem simples. Me senti o São Pedro, Científico usando elas. Comprei. Calcei. E fui andando de volta ao Vedado, através de uma rota mais central, com a necrópole Colón e a Praça da Revolução no trajeto.
Mal cheguei á necrópole e a sede só era menor do que outra dor nos pés. Agora a sandália “fantástica” estava cortando os lados dos meus pés. Mesmo assim, melhor perder o lado do que a sola, pensei, e segui adiante, até chegar no final do dia com a sola do pé queimada e os lados cortados. Um ótimo começo para os 16 dias que passei na ilha.
Não foi nem a primeira nem última história para contar
Especialmente porque, aquele pequeno fato no meio de tantas coisas novas e diferentes hoje voltou à minha cabeça quando olhei as havaianas no mercado. Algumas estavam custando quase 30 reais! Com certeza em lojas especializadas em havaianas (que existem!) os preços estejam ainda maiores. É claro que existe uma diferenciação entre modelos mas, na base, são só dois pedaços de borracha ligados de um jeito esperto e confortável.
Ao invés de saudosismo pelos tempos que não voltam mais, comparei como o preço de uma havaiana é formado agora. Com minha pequena base de Economia que estou tendo, vi que existe algo chamado de “preço não-padronizado”, que é manipulado através da diferenciação na produção e qualidade de um produto (o Cheetos da Elma Chips é tão melhor que o da Tip Top, não?) mas principalmente da criação da demanda, da irracionalização do consumo neste caso.
O consumo de havaianas deixou a classe pobre e está agora no mainstream da economia brasileira e até mundial. Ao invés de enfatizar o destaque que alguém consegue através do consumo de uma mercadoria (“você merece um Fusion”), as Havaianas exploram um lado bem “comunista” da mente coletiva: usando havaianas, você será igual a todo mundo, mesmo que este “todo mundo” na publicidade apareça como Lázaro Ramos, Rodrigo Santoro, Luana Piovani. São ídolos na telinha, mas em situações bem cotidianas, nas quais todo mundo pode se identificar.
Os absolutos, sejam da ciência, religião ou sistemas políticos, nunca vão conseguir moldar ou descrever a realidade. Existe uma crós-polinização entre tudo isso, que faz o mundo sempre mudar. A economia moderna, através da propaganda, tenta criar, às vezes com sucesso, uma realidade. Mas por outro lado, como consumidores, o poder está nas nossas mãos, pois podemos forçar os produtores a encontrar novos jeitos de suprir nossas necessidades.
Há pouco menos de um ano encontrei santos. Eles não curam paralisias ou trazem sorte. Talvez prosperidade, não do individual como pregado em nossas inúmeras igrejas, mas da comunidade.
Na “Grande Antilha”, a república de Cuba, toda casa em que fiquei tinha um retrato de Fidel, Camilo e, em menos quantidade, Che. As pessoas que eu encontrava e conversava sobre a revolução falavam destes seus heróis com uma paixão extraterrena. Eles deviam tudo à longínqua luta que estes homens começaram há mais de 50 anos.
Por mais que a propaganda queira imbuir estas pessoas de características especiais (lembro do curador que me deixou entrar em uma exposição fotográfica de Fidel antes de sua abertura dizer que ele era “um gigante”), elas também adoecem, como podemos acompanhar nos últimos anos de ausência de Fidel, do “desaparecimento físico” de Camilo e o assassinato de Ernesto “Che” Guevara.
Este último, argentino mas cubano honorário, é o que mais atrai culto fora da ilha, por ter sido um revolucionário global, quando o termo “globalização” ainda só se manifestava em alguns artigos acadêmicos obscuros. Ele continua popular através da emblemática estampa de camiseta, seus slogans (alguns deles na verdade citações de outros), e também imortalizado em seus próprios diários, biografias, músicas e filmes.
Uma das últimas manifestações deste último são os dois filmes de Steven Soderbergh, “Che, o Argentino” (Che: Part One, 2008) e “Che: Guerrilha” (Che: Part Two, 2008).
Os dois filmes são baseados nos diários que Che escreveu, primeiro durante a revolução cubana, e depois da sua malfadada tentativa de revolução na Bolívia. O primeiro livro tive o privilégio de obter e ler, em uma edição distribuída a todos os estudantes cubanos que terminaram o ensino secundário (algo quase inimaginável antes da revolução). Impulsionado pela paixão de ter presenciado alguns benefícios, bem como malefícios, da revolução, devorei o livro em poucos dias. O primeiro filme portanto para mim parece ter sido um pouco desapaixonado, tirando a aura mágica que coloquei ao redor do Che.
Com idas e vindas no tempo, desde os preparativos para a revolução até seu discurso na ONU após o seu triunfo, o filme pareceu além disso instável, desequilibrado. Mesmo assim, como todo livro filmado, foi interessante ver os personagens imaginários (mesmo que reais) na telona.
Bashir, Santoro, Del Toro: Fidel, Raul e Che
Inicialmente foi divulgado que os filmes foram separados por formarem um filme só de 4 horas e meia. Mas o tom do segundo filme é bem diferente. Sem idas e vindas, ele continua sim logo após o triunfo da Revolução que encerra o primeiro filme. Mas a conexão ou similaridade acaba aqui. Todas as falhas do primeiro filme parecem corrigidas neste.
Começamos com Che e sua família. Nenhum diálogo concreto. Somente cenas de um jantar e um descanso no sofá, sem uma palavra trocada com sua esposa. Neste ponto ele já tinha “desaparecido” da política cubana e se preparava para seus próximos passos revolucionários. Ele segue disfarçado para a Bolívia, com o apoio de Fidel.
Um país que Che visitou durante sua juventude e onde testemunhou as primeiras injustiças contra os pobres, como mostrado em “Diários de Motocicleta” (The Motorcycle Diaries, 2004), a Bolívia tinha, em sua opinião, as condições para a revolução porque, como ele mesmo disse, “em todo lugar onde o homem é explorado por outro homem, há condições para a revolução”.
Che na Bolívia
Mas não foi assim. Por mais revezes que a revolução cubana tenha sofrido, o que é mostrado no diário e no filme é uma seqüência muito maior de fracassos, derrotas e dificuldades. Che sofre com sua asma, com problemas logísticos e deserções. A todo momento sua convicção é testada, e em nenhuma ela parece falhar.
Ele sofre e se contradiz, ele sofre e perde o controle, ele sofre. Mas nunca desiste. Essa insistência por si só é a inspiração para os poucos revolucionários que continuaram com ele até o último momento, quando foram cercados por um número absurdo de tropas e obliterados. No fim, ele é executado anunciando que seu corpo pode morrer, mas a revolução nunca!
O mais próximo da divindade, santidade ou idolatria que um homem pode alcançar Che alcançou, não sendo um Super-Homem, mas sendo nada mais do que humano.
Mais um livro que foi-se nesta semana mal-dormida foi o tomo 3 das “Reflexiones de Fidel” que eu trouxe de Cuba. É uma coleção de artigos que o Comandante escreveu entre 3 de Agosto e 18 de Setembro de 2007. No papel ele parece mais comedido que em seus discursos quando se trata da extensão, mas mesmo assim não tem medo de abordar praticamente todo e qualquer assunto.
O último artigo deste volume é entitulado “Mentiras deliberadas, muertes extrañas y agresión a la economia mundial“. Nele Fidel expõe, com longas citações de auto-biografias e documentos, os detalhes da operação Farewell, um conjunto de ações de inteligência econômica tomadas para derrubar a antiga URSS.
A operação é extensa e vai desde intercâmbios estudantis até a Guerra nas Estrelas, esta última sendo o último prego no caixão da sucateada nação soviética, incapaz de competir neste nível de tecnologia.
Mas o que mais me chamou a atenção foi uma missão da qual já tinha lido na Internet, sobre a inclusão de código malicioso em softwares especializados que a URSS pirateava do Ocidente. Um caso sério e documentado foi a colossal explosão de um gasoduto causado por um “reset” dos valores de configuração programado como cavalo de Tróia.
Logo depois do meu próprio link sobre as implicações do movimento do Software Livre no caso de uma tentativa de reproduzir a operação Farewell nos dias atuais, o próprio Fidel cita um líder do movimento (sem dar o nome) que disse que “a medida que se complejizan las tecnologías será más difícil detectar acciones de ese tipo”.
Fidel também conclui dizendo que desde o fim da URSS Cuba formou centenas de milhares de pessoas em nível superior. “¡Que otra arma ideológica nos puede quedar que un nivel superior de conciencia!”, exalta o eterno líder cubano. “Si lo que desea es conocer verdaderas fieras, dejen que en el ser humano no prevalezcan los instintos”, completa.
Por que o império americano conseguiu derrubar a gigante União Soviética e não “nanicos” como Cuba e Coréia do Norte? Educação. Doutrinação para alguns, mas na base dos programas sociais destes regimes comunistas (posso falar com certeza de Cuba, não me atrevo a especular muito sobre a Coréia) está o desejo genuíno de desenvolver o ser humano, e não o mercado.
Com a liberdade do software livre e o “arsenal ideológico” advindo de uma educação superior gratuita e de qualidade, a porção tecnológica do dossiê Farewell não tem chance de ser implementado nos dias atuais. E com o império e grande parte do Ocidente passando por agruras financeiras, nem a econômica pode ser colocada em prática. Mesmo porque, combatendo em duas frentes com relação ao software, Cuba já adota o software livre como opção, estando livre do custo proibitivo do sofware fechado e se beneficiando de sua tecnologia avançada e, mais importante, segura.
Se não fosse o embargo criminoso imposto à Cuba, o Mundo teria um exemplo claro do que acontece quando um país é educado de maneira a maximizar seus esforços pelo bem comum, e não pelo lucro.
Um pouco do colorido da vida do ex-chanceler Vasco Leitão da Cunha. A primeira eu tirei da Internet mesmo:
O chanceler Vasco Leitão da Cunha aproveita uma ida para o aeroporto de Brasília, no carro oficial, para dar entrevista a um repórter. No caminho, um cachorro atravessa a avenida. O motorista dá uma guinada, o carro desliza, quase bate num poste ou capota. Passado o susto, o chanceler respira fundo e, diplomaticamente, adverte o pálido motorista. “ Meu caro Josias, tenha sempre seu bom coração, mas nunca esqueça de acionar o seu bom cérebro. Se tivesse acontecido o pior, imagine a manchete amanhã: “MOTORISTA MATA UM MINISTRO PARA SALVAR UM CACHORRO”.
Estas outras eu digito do livro, que vale a pena mesmo a leitura, até mesmo para desafiar alguns preconceitos contra a direita e a esquerda igualmente:
Na II Guerra Mundial, em Monte Castelo: “… Almoçamos na linha de batalha, ao norte de Florença. Osvaldo Cordeiro Farias ofereceu-nos um almoço no posto de comando do coronel Sousa Carvalho, e fomos bombardeados o tempo todo. Foi engraçadíssimo. Havia uma banda que tocava enquanto caía a metralha… Era uma beleza… Os pracinhas cantavam: ‘Que é que fizeram com a sua bicicleta, Maria? Tedeschi portare via…’”
(tedeschi significa “alemães” em italiano. Esta parte desta popular música da FEB fala que eles levaram embora a bicicleta da Maria)
Vocês podem encontrar a música original neste link. É divertidíssima mesmo!
Em Cuba: “… Um homem sério, que me deu a melhor das impressões desde a primeira vez que o vi, foi o Che Guevara. Ele estava no sul de Cuba, não em Sierra Maestra, e chegou a Havana antes do Fidel, que veio devagar, ocupando porto por porto. O Che chegou com a tropa do diretório estudantil e, durante a noite os estudantes invadiram o hotel onde estava alojada a embaixada da Colômbia, que já tinha um asilado do Batista. Os rapazes queriam levar o asilado. Fui avisado e logo tomei minhas providências. Às sete da manhã do dia seguinte estava o Che lá na minha embaixada querendo falar comigo, dizendo que tinha ficado furioso com o comportamento dos rapazes, que reconhecia que era um comportamento inaceitável e que não ia mais admitir coisas desse gênero, de que os diplomatas tivessem de se queixar. É da essência da atividade a imunidade do chefe da missão, onde quer que esteja. De maneira que os estudantes não podiam ter invadido as habitações do embaixador da Colômbia no hotel. O Che pediu que eu os desculpasse, disse que eram cabeças quentes, mas que aquilo não se repetiria. Eu não o conhecia! Fiquei impressionado com a sua correção.
Houve outros casos depois, até cômicos. Um pelego do Batista muito conhecido se asilou na embaixada argentina. Quando anunciaram que estavam chegando rebeldes que queriam entrar, ele se meteu na cama do embaixador! O embaixador me disse: ‘Acabo de receber uma visita na minha cama!’ “
Como era de esperar, o sr. da Cunha é da opinião que Che foi forçado a sair de Cuba pelo Fidel.
Muy amigo
Depois de Cuba, ele foi convidado a assumir a Secretaria Geral do Itamaraty, uma posição vista como menor que a de um embaixador. Assim foi a reação de sua esposa, dona Nininha:
“… Aceitei, telefonei para Havana e contei à minha mulher, que me disse: ‘Meu amor, és uma besta!’”
E encontrei nesta reportagem especial sobre a África na BBC a opinião de um cidadão norte-americano que exemplifica bem como eles realmente acreditam que tudo tem solução, seguindo o exemplo bem americano da auto-determinação (eu coloquei o negrito) :
“…It is time for the peoples of Africa to look back into their past and identify people now to help direct them into a future which is fair and just. Easier said than done, but if the people take the power that is inherent to them it is possible.” — John, United States