Terra, pátria e Crepúsculo
Eu sempre me considerei um cara abaixo da minha idade. Sempre pensei que sentir-me jovem me liberta para adotar uma estilo de vida mais divertido e assim ficar mais fácil encarar esta tão super-estimada “vida adulta”. Mas se o que significa ser jovem nos anos 00 é o que mostram na saga Crepúsculo, me matriculem no próximo curso de dança de salão da terceira idade!
Neste domingo quente e úmido em Curitiba (coisa de velho falar do tempo), recorri ao ar condicionado de uma sala de cinema e finalmente fui assistir “Lua Nova” (New Moon, 2009), a segunda parte da adaptação cinematográfica da saga Crepúsculo, que trata das transformações da adolescência colocando humanos em meio a vampiros angustiados e, agora, lobisomens também.
Sem dúvida as declarações de amor do vampiro Edward deixariam qualquer menina encantada. Como não li nenhum dos livros ainda, acho a paixão transmitida na tela bem pouco convincente. O que convence, nas palavras da vampira interpretada pela insossa Dakota Fanning (nossa, ela virou a caipira mais sem graça que os hormônios femininos poderiam criar!) é a dor.
Quanta dor! Ó meu Deus! Durmo na floresta, grito no meu sono, esqueço de trocar o agasalho por três meses seguidos! Quanta dor!
Tudo isso por uns beijinhos, andar de mãos dadas e uma ou outra adaptação de Shakespeare? Muito mais inacreditável que vampiros e lobisomens é esta história de amor.
Mas o que realmente me prendeu a atenção, enquanto eu me deliciava no ar condicionado e tentava encontrar algum mérito cinematográfico em alguma coisa no filme (tem uns movimentos de câmeras legais na floresta, mas é só) foi a caretice de tudo isso. Bella ama Edward, que a deixa. Ela é uma menina que vive com o pai, um cara bacana, que daria todo o apoio que ela poderia querer. Mas nããão… ela vai para a reserva indígena e fica amiga do jovem Jacob que, surpresa!, vira um lobisomem e a abandona também. Para o bem de Bella, claro.
O que ela faz? Tira 10 nos últimos anos do colégio e segue para uma bela carreira vendendo plataformas de petróleo ou cosméticos? Não. Ela chora, grita, esperneia e, quando o pai dela tenta ajudá-la mandando ela de volta para a mãe para se distanciar da depressiva cidade de Forks (onde NUNCA tem sol, aparentemente), ela vai às compras!
Se ela vai às compras ou não, não é o ponto. Ela vai ao cinema, ok. E daí ao olhar para motoqueiros caipiras ela sente um gelinho lá embaixo e vê Edward. Pronto. Ela se rebela, se arrisca, faz algo irresponsavelmente jovem para rever o cara que a abandonou. Segue-se uma seqüência mais ou menos conexa de eventos, até Edward que, de todos os lugares onde ele poderia estar, liga de numa favela no Rio de Janeiro (e o sol!?) e, poderes psíquicos e conexões cósmicas à parte, é enganado e acha que Bella morreu. Edward decide morrer (Paulo Coelho deveria mandar seus advogados investigar um possível plágio aí).
Vermelho, verde e amarelo e estamos na Itália, onde mais super-poderes são revelados (quem mais aqui acha os Cullen uma versão pálida dos X-Men levanta a mão) e finalmente Edward e Bella estão juntos novamente e, no fim, ele pede a co-protagonista em casamento.
A breguice de toda a história ao invés de fazer eu querer tomar uma garrafa de tequila e puxar uma briga me levou a um parque, onde passei o resto da tarde em uma sombra, tomando água e lendo um bom livro. Se ser jovem é sofrer por essas caretices, me deixem radicalizando fazendo o que eu quiser, seja viajar, escrever, resmungar como um velho ou só assistir enquanto o mundo volta a viver uma Jovem Guarda.
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Quem foi o primeiro presidente do Brasil?
É domingo, mas pouca gente lembra que é feriado também. 15 de Novembro, Proclamação da República. Lembro do primário e ginásio quando esta data era tão ou mais importante que o 7 de Setembro, comemorada com encenações, cartazes e aulas especiais. Hoje é só mais um feriado, e quando cai em um domingo, nem isso.
Uma revista semanal (Veja) não se atreveu nem a mencionar a data na capa ou em qualquer parte de seu conteúdo, dando mais espaço a seus ataques coléricos contra o presidente e ainda mais ao guia de compras de eletrônicos para o Natal e mais uma lista de coisas que fazem bem para o corpo (aparentemente comer salmão enquanto ri e faz sexo é bom para você).
O Estado de São Paulo traz a boa notícia que o meu time agora é líder isolado, mas passa longe até da singela mas honesta cobertura que a Gazeta do Povo fez em sua edição online (e provavelmente impressa, mesmo com uma capa tenebrosa surfando na onda dos medos de apagões).

A reportagem foi baseada em um questionário enviado a diversos estudiosos, que avaliaram diversos aspectos da cultura republicana brasileira, e o resultado foi bem abaixo da média. Nos quesitos de eleição e rotatividade no poder estamos bem. Mas o mecanismo de escolha de uma minoria para governar a maioria (um dos pilares da República) é uma questão mais técnica do que cultural neste ponto da nossa História.
O peso que não carregamos é a aplicação de outros elementos fundamentais da República, como a criação de leis (pelo Legislativo, não outro poder) que reflitam as realidades da maioria, não permitir que a minoria governante utilize recursos públicos como extensão de seus bens particulares (o “patrimonialismo“) e a criação de meios para que a maioria seja ouvida quando reparar o mau uso da coisa pública.
Já que um assunto que recebe atenção é a Copa do Mundo, vamos olhar este exemplo, talvez exagerado, mas mostra um caminho a seguir: na África do Sul foi estabelecida uma linha direta para denunciar a corrupção. O próprio presidente, Jacob Zuma, atendeu a alguns telefonemas para divulgar o serviço e inspirar os trabalhadores aos telefones a agirem sobre todas as denúncias recebidas. Ele mesmo foi investigado por corrupção e absolvido, durante as eleições e após elas.

"Aqui é a República, como posso ajudar?"
Vocês sabiam que temos serviços similares aqui no Brasil? É o Ministério Público que, na minha opinião, é mais movido pelo ego de seus servidores do que denúncias efetivas. Os promotores deste Ministério parecem correr atrás das manchetes de jornais e levantam um alvoroço tremendo sobre temas menores, como piadas no Twitter, enquanto a corrupção e o abuso do poder público corroem as fundações de uma república ainda tão jovem.
Mas não é só o Ministério Público que deve ser responsabilizado por isto. A sociedade civil pode e deve encontrar meios de se manifestar. Movimentos como o Disque-Denúncia arranham a pele pútrida que ainda se agarra ao brasão da República. E é também o trabalho de cada um respeitar o bem público, sejam livros na biblioteca, salas de aula, parques e ruas. O que é de todos é de todos, e é seu também. Este é o “patrimonialismo invertido” que devemos cultivar para evoluir nossa nação em uma república de fato.

Tags:120 anos, África do Sul, apagão, Brasil, crítica, Estado de São Paulo, Gazeta do Povo, História, República, Veja
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A claustrofobia espaçosa da vida normal
Existe algo de assustador e ao mesmo tempo facilitador em escrever sobre grandes obras de arte. Assustador por parecer pequeno em relação a tamanho empreendimento, e facilitador uma vez que se estabelece um subconjunto da mesma para ser analisado.

What do you want to talk about?
A obra em questão é o filme “O Iluminado” (The Shining, 1980), do diretor Stanley Kubrick, baseado na obra do escritor serial de best sellers Stephen King. Muitos já devem estar familiares com a história do filme, que segue uma família aparentemente normal que assume os cuidados de um hotel que fica fechado durante o inverno.
O “aparentemente normal” que usei no parágrafo anterior foi deliberado para abordar um dos subtextos que me chamou a atenção nesta “releitura” do filme: a claustrofobia da vida normal.
Eliminando os elementos sobrenaturais do enredo, acompanhei os elementos desta família normal a medida que ela ia se deteriorando. Um pai fracassado e alcóolatra que culpa a mulher pela sua mediocridade, e que recentemente (com relação ao início da história) descontou esta fúria em seu filho. A culpa gerada por esta violência fez este homem encontrar um novo sentido para sua vida, parando de beber e “assumindo a responsabilidade” de cuidar do hotel.
Ao parar de beber e encarar esta responsabilidade, o personagem de Jack Nicholson (Jack Torrance) parecia em paz, nos espaçosos cômodos do hotel, livre para se dedicar ao seu livro e ter sua família próxima. Durante todo o filme os planos são muito abertos, deixando muito espaço para respirar.
Mas assim como o pequeno Danny pedala freneticamente pelos amplos corredores, algo começa a se movimentar dentro de Jack, até o ponto da insanidade. E o resto é história do cinema.

Here's Johnny!
De alucinações sobre uma vida boêmia perdida até a perseguição de seus familiares com um machado é apenas um passo, mas um passo inevitável para alguém que não se encaixa nos moldes normais mas que por qualquer motivo, seja por convenção ou conveniência, tenta mesmo assim.
escrito por Douglas
Categorizado em: UncategorizedTags:Arte, Cinema, crítica, Jack Nicholson, O Iluminado, Stanley Kubrick
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Me contem o óbvio, Matt e Trey
Wow. Acabei de ver um episódio de South Park, que foi ao ar em Março, mas só hoje jogou na minha cara um óbvio que eu não tinha percebido: os Jonas Brothers se fazem de certinhos para vender sexo para crianças!
No episódio “The Ring”, o Kenny arranja uma namorada que é meio safada, mas que se torna uma beata depois de receber um “anel de pureza” dos Jonas Brothers. Enquanto Kenny vive uma vida de casado, seus amigos descobrem a verdade e tentam desmascarar o terrível arquiteto deste plano maléfico.

Sexo! Sexo! Sexo!
South Park continua interessante como nunca, apelando algumas vezes, mas seus maiores acertos são quando eles encontram uma pérola dessas e não tem medo de fazer o que fazem melhor: uma sátira sem limites, que ao romper as fronteiras da moral dos expectadores os fazem pensar por ângulos diferentes. Ou, pelo menos, dar risadas loucas por uma meia hora. No meu caso funciona para as duas coisas!
Aí está a marca do humor que informa e transforma. Temos exemplos bem tupiniquins, como o Pasquim de outrora e o CQC de nossos dias, jogando o óbvio na cara de quem espera uma risada.
Talvez ao enxugar uma lágrima depois do riso algumas pessoas notem que não foi somente a piada ou as personagens que a fizeram rir, mas a violação das fronteiras da sua percepção que até então era condicionada pelo noticiário sério/oficial. E este é um bom humor (trocadilho não intencional, hehe…).
escrito por Douglas
Categorizado em: Round 1Tags:crítica, humor, jonas brothers, óbvio, South park
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Malandragem portenha
A “magia” do cinema. Tantas vezes esta metáfora foi utilizada que dá até dó de usá-la novamente. Mas é o que une as pessoas, às vezes tão diferentes quanto brasileiros e argentinos. Se não une definitivamente, pelo menos forma uma breve ponte que o espectador consciente pode atravessar até chegar ao outro lado da compreensão.
O filme “Nove Rainhas” (“Nueve Reinas”, 2000), de Fabián Bielinsky, tem este efeito. Nele uma história de golpistas, com todos os seus elementos básicos de chantagem, família e reviravoltas assume um tom absolutamente sulamericano, quando nem o mais charmoso e cruel criminoso é páreo para a “mão invisível” da economia volátil dos países do Sul.

Correndo atrás do prejuízo
Sem estragar as surpresas, mesmo que previsíveis para este tipo de filme, resta comentar sobre o ritmo frenético do filme, que não deixa o espectador tirar os olhos por um minuto da tela, do visual claustrofóbico que o diretor impõe aos ambientes e personagens (câmeras em close-ups que recordam um tango) e das atuações impecáveis de Ricardo Darín (o Brad Pitt portenho) e grande elenco, destacando a bela Leticia Brédice (que logo estará no novo filme de Francis Ford Copolla, Tetro). Com traços tão brasileiros, ela, além da… talvez penúltima reviravolta do filme, serviu muito bem como a ponte a que me referi no começo deste post.
Nós latinos desconfiamos da influência estrangeira (“Crunchy… elaborado en Grecia. Este país se vá a la mierda…”), mas mesmo assim nos voltamos para dentro e nos congratulamos da nossa malemolência, do nosso modo de vida improvisado que só nos deixa mais vulneráveis a estafadas, sejam elas estrangeiras ou nacionais.
Nada de errado nisso, é o nosso jeito. De brasileiros e argentinos igualmente e, se podemos esperar alguma coisa do futuro, é que esta desconfiança global vá acabando as poucos, entre vizinhos. E nada como um boa história com valores comuns, mesmo que às avessas, para ajudar nesta aproximação. Nove Rainhas faz isso muito bem.
Categorizado em: Round 1Tags:Argentina, Cinema, cinema argentino, crítica, nove rainhas
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