Um dos cartunsistas que acompanho diariamente é o chileno Alberto Montt, que dá vazão a trocadilhos bobinhos e outras idéias diariamente em suas “doses diárias”. A de hoje serve de ponto de partida para algumas considerações sobre arte, comércio e roubadas em geral. Em tempo, a charge:

"Quando me perguntou se estava disposto a posar para um quadro, aceitei porque nunca imaginei a roubada que me esperava. Jamais voltarei a trabalhar de modelo para este tal Magritte."
O quadro que a charge referencia é talvez o mais famoso do surrealista belga René Magritte, chamado “O Filho do Homem“, de 1964. Supostamente um auto-retrato do pintor, a face do personagem está quase que completamente oculta por uma maçã flutuante. Críticos de arte conseguem depurar cada gesto (um botão não fechado, um cotovelo ligeiramente para trás, uma tempestade ao fundo…), mas eu terceirizei minha análise deste quadro a partir de outra “obra de arte”, um filme chamado “Thomas Crown – A Arte do Crime” (The Thomas Crown Affair, 1999). Nele, a expert em recuperação de itens roubados interpretada por Rene Russo identifica o personagem da pintura com o capitalista que oculta sua face e seus desejos mais íntimos, tomando como exemplo o magnata que se torna ladrão de museus, Thomas Crown, vivido por Pierce Brosnan.

O próprio Magritte explica: "Tudo que vemos esconde alguma outra coisa, nós sempre queremos ver o que está escondido no que vemos, mas é impossível. Humanos escondem os seus segredos bem demais."
Recentemente na minha loja favorita de camisetas na Internet, a threadless, uma nova estampa entrou em votação com muito alarde. Para quem não gosta de clicar em links e ainda caça com pedras lascadas, aqui está a ilustração:

A conexão “maçã-Branca de Neve” é imediata, mas além disso a leitura do desejo do capitalista, do desejo de consumo mais especificamente, é bem clara. Afinal, a história alemã “Schneewittchen” ficou famosa através da Disney, atualmente uma das corporações mais desumanas do planeta.
A nova bola da vez é a versão do Tim Burton para “Alice no País das Maravilhas”, que vem recebendo críticas mistas ou simplesmente desanimadoras. Mas isso não impediu que a Disney lançasse uma série de produtos associados à série (alguns deles, como estes anéis da H. Stern, bem interessantes na verdade).
As charadas lógicas e o lirismo esquizofrênico da obra de Lewis Carroll passaram primeiro pelo moedor de carne Tim Burton, que usou todos o seus clichês (o vídeo vale a pena, clique) e outros truques (3D, IMAX) para esconder a real face de Alice e nos mostrar uma opção (ou várias) de produtos para serem consumidos, da trilha sonora até os McLanches felizes, passando por anéis, bonecas e roupas.
Os segredos por trás de todas as vantagens ou belezas que possa ter uma história, produto ou intenção são vários, e é área de estudo milionário da indústria do entretenimento. Existe outra irresistível maçã que consegue esconder seus segredos muito bem e sabe despertar nossos desejos.
Mas isto é uma outra história…








