Ninhos: agora só R$ 99,99!

por dougspadotto em 10 de novembro de 2009

Estou em mini-férias. Mas ao invés de relaxar em uma praça/parque/praia,  me pego fazendo tarefas e pequenas reformas domésticas que vinha protelando. Uma delas hoje foi instalar uma nova torneira na cozinha, pois a anterior já estava quebrada em 3 lugares.

Para isto antes fui até a Leroy Merlin, a Meca da bricolagem, para encontrar a tal torneira que eu tanto queria. Menos de 10 passos dentro da loja e já fiquei me perguntando se não precisava de uma lâmpada nova, ou de uma cortina para dividir alguns ambientes… É o reflexo em mim de algo que eu chamo de “o instinto de pássaro” que o ser humano vem desenvolvendo.

Ao invés de voar, este meio-homem/meio-pássaro somente faz ninhos. O ambiente violento em que vivemos é explorado cientificamente por lugares que vendem não mais um estilo de vida, mas um estilo de morar.

Um ninho humano

Um ninho humano

Não entendo muito de evolução humana, mas o “homem das cavernas” muito provavelmente não ficava o tempo todo dentro das ditas cavernas, e sim na floresta, savana ou montanha caçando, descobrindo novas paragens, e finalmente mudando até de caverna.

Estamos perdendo do kiwi. Não a fruta, o pássaro nativo da Nova Zelândia. A falta de predadores fez com que este pássaro desenvolvesse traços únicos que o aproximam de um mamífero: não voa, tem um bom senso de olfato, consegue aprender e não faz ninhos. Ele vive em buracos, que usa por um período e depois se muda para outro em algum lugar que seja mais vantajoso para sua sobrevivência.

Até depois da introdução de predadores que o levou a mudar alguns de seus hábitos (os kiwis viraram em sua maioria noturnos depois da colonização humana), o kiwi continua sua vida nômade, sempre procurando novas oportunidades e usando sua capacidade de aprender (característica de mamíferos) para se adaptar.

A kiwi!

A kiwi!

O reflexo humano atual, ao ser ameaçado por predadores, é fazer ninhos. E o mercado está aí para suprir todas as nossas necessidades. Sendo que existe tanto mundo por aí, tanto a aprender, até a como combater ou pelo menos evitar os predadores!

Mas nãããooo… preciso comprar essas caixas organizadoras por R$16,95!

P.S.: tip o’ the hat pelo estilo de finalização de posts para meu amigo blogueiro Chefe.

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Queremos pamonha!

por dougspadotto em 8 de outubro de 2009

Primeiro quero dedicar toda a honra e toda a glória desta metáfora linda para o Fábio Gandour, cientista-chefe da IBM Brasil. Escutei ela no encerramento do seu keynote speech em uma conferência técnica que tive o privilégio de participar no começo desta semana em São Paulo.

O que é a pamonhalização? Antes vamos entender o seu contrário, que é a miojização. É o mundo feito pronto para consumir. Você consome sem nem ter fome. Porque está na hora de comer e porque é fácil de fazer. “Uma caneca vermelha por R$ 2,99? Muito barato! Tenho que comprar!”, esse tipo de coisa.

A pamonhalização é o saudoso mundo de outrora, onde você não anda solitário por um shopping center e busca soluções para os problemas que você não tem. É colaborar com outras pessoas para um prazer duradouro, desde o preparo até o consumo. É assistir a uma aula de cerâmica, fazer uma caneca toda torta e ficar feliz com o resultado. É jogar barro no vizinho de classe.

Colocando a mão na massa

Colocando a mão na massa

Exemplos bizarros à parte, a correria do mundo atual por si só justifica a miojização. Não há como escapar dela de vez em quando. Mas é importante nunca perder de vista o “incômodo” de preparar uma pamonha. De abandonar a rotina, convidar um amigo e inventar moda por aí. Se divertir e colaborar.

Falando em bizarrices, a idéia era ligar o desejo de Miojo com esta notícia do Estadão de ontem, que analisa as causas da prostituição de menores. Diferente do que se imagina, ela não é causada principalmente pela pobreza extrema, e sim pelo desejo de comprar coisas. Sejam elas roupas melhores ou celulares. A compra de drogas muitas vezes é a conseqüência, com as meninas (e meninos) traumatizados pelo que fazem e recorrendo ao álcool e outras drogas para fazer esta realidade Miojo em que se inseriram menos difícil de encarar. É o equivalente de colocar salsicha para deixar o Miojo mais palatável, mas quando você menos espera, está consumindo dois produtos prontos e não sabe mais o que é real e prazeiroso na vida.

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Uma solução, para todos, é crescer a consciência para fora deste ciclo vicioso de “comidas” e oportunidades prontas, do mercado de estilo de vida e conquistar um estilo próprio e mais colaborativo de se viver e até mesmo produzir.

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Eu como tarefa

por dougspadotto em 29 de setembro de 2009

Se Chaplin estivesse vivo ele desbancaria qualquer “The Office” com um “Tempos Mais Modernos” satirizando os delírios de produtividade que se manifestam nos escritórios ao redor do Mundo. Mas como não temos mais aquele gênio presente, temos o Twitter.

Sim, Twitter pode ser a marca, mesmo que irônica, da produtividade do trabalhador de escritório. É o ego de pessoas amarradas ao computador por 8, 12, 16 horas diárias manifestado em 140 caracteres.

Sinto pena de quem emite tweets do tipo “odeio meu emprego”, “quero matar meu chefe” e “socorro, ainda são 3:27 da tarde!”. No mundo do trabalho virtual, onde os objetivos cumpridos raramente são palpáveis, vejo cada tweet como um tijolo de uma parede etérea levantada diariamente pela crescente categoria dos pedreiros virtuais, na qual me incluo.

Tijolos intocáveis

Tijolos intocáveis

Diferente do construtor civil normal, o trabalho atrelado ao computador e à Internet é solitário, ainda mais se feito a partir dos cada vez mais populares home offices. Algum contato humano, algum julgamento de valor é necessário para manter um elo com um mundo maior do que as listas de tarefas diárias e objetivos do quartil, mesmo que de uma forma virtual.

O problema é quando isto começa a abraçar demais da sua vida real. Quando moldar e manter a sua personalidade virtual atrapalha sua personalidade real, seja ela pessoal ou profissional.

Assim como as maravilhas que a linha de produção nos trouxe, dos Fords modelo T aos processadores de alimentos, a “nova economia” também oferece novos benefícios, mas também problemas a serem tratados. Nossa poluição agora é da alma, do ego, que pode suprimir a aplicação do conhecimento em nossos trabalhos de escritório da mesma forma como a poluição destruía os pulmões do mineradores de carvão, tomando suas forças e os deixando sem emprego.

Se o canário morrer, algo está bem errado...

Se o canário morrer, algo está bem errado...

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Excesso de bagagem

por dougspadotto em 12 de setembro de 2009

O que vou observar neste post é muito óbvio, mas a quantidade de vezes que o tema se repetiu esta semana nos filmes que assisti foi tamanha que é impossível não registrar.

Desde “Viagem para Darjeeling” (resenhado aqui) a metáfora de “bagagem” se repetiu ontem em “Up – Altas Aventuras” (2009) e hoje em “Os Normais 2” (2009), este último sendo a gota d’água para eu, além de gargalhar, balançar a cabeça ao realizar que é isso aí, como didaticamente falado em Fight Club (1999), “It’s only after we’ve lost everything that we’re free to do anything” (“é só depois que perdemos tudo que estamos livres para fazer qualquer coisa”).

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Nos três filmes desta semana as perdas acontecem de diferentes formas. Em Darjeeling e Os Normais ela vem depois que as personagens aparentemente falham na tentativa de evoluírem em seus relacionamentos ou simplesmente como seres humanos.

Em Darjeeling, a perda das espalhafatosas malas da família (decoradas com padrões animais que parecem ser uma sátira à chiquérrima Louis Vitton) acontece como o símbolo de que mesmo após as tentativas falhas de reconciliação e evolução espiritual, livres da bagagem “ruim” (do pai morto), os irmãos ainda encontram algo que os une, a busca pela mãe e a realização de que eles sempre terão um ao outro.

Igualmente em “Os Normais 2″, depois de uma noite em busca de uma novidade para tirar seu noivado da normalidade, Rui (Luiz Fernando Guimarães) e Vani (Fernanda Torres) perdem tudo, certamente de um jeito cômico, só para reconhecerem que não são as coisas que eles acumularam nos anos juntos que representam o que eles tem, e sim simplesmente o amor.

Dos três filmes, a “perda” mais consciente, e também a mais significativa, aconteceu no filme teoricamente infantil, “Up”. O velhinho Carl Fredricksen chega ao cúmulo de fazer voar a casa inteira, entulhada de lembranças e velharias, como o cumprimento da promessa que fez à sua esposa de viverem uma vida de aventuras.

Sem dúvida ele vive aventuras com Russell, o explorador da natureza júnior que bate em sua porta em uma hora… inoportuna. Mas a verdadeira aventura começa quando Carl é obrigado a jogar todas as suas lembranças para fora para fazer sua casa voltar a voar, e a aventura continuar.

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The Age of Not Caring

por dougspadotto em 17 de agosto de 2009

Na noite antes do festival de Woodstock completar 40 anos, uma figura estranha andava por um bairro de Nova Jérsei nos EUA. Chovia muito, e os cautelosos donos da casa à venda que esta pessoa estava inspecionando chamaram a polícia.

Uma policial de 24 de anos de idade atende ao chamado e se aproxima do cidadão, perguntando o seu nome. Ele responde: “Bob Dylan”.

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Não acreditando, a policial faz diversas perguntas, entre elas sobre onde ele está hospedado. Ele diz que está nos ônibus da turnê, e ela pede para que ele a acompanhe até os ônibus para checar. Chegando lá, o mal-entendido é desfeito, mas não sem uma das lendas vivas do rock passando um tempo numa viatura de polícia.

Ele deve ter achado engraçado até. Bob Dylan vem do início de uma era de “não se importar” (“the age of not caring” do título do post). Mesmo no olho do furacão dos anos 60, ele sempre desmereceu o status de suas músicas nos movimentos sociais daquela época e de todas as épocas subseqüentes.

Bob Dylan é um artista na arte de viver. Ele faz o que bem entende dentro do que gosta, e isso é tudo. Individualista ao máximo, atinge milhões. Uma contradição ambulante.

Já as pessoas que chamaram a polícia refletem o lado ruim da era de não se importar. Deste individualismo doentio que não cria, não vive, só sobrevive entre uma ameaça e outra. Em um tempo em que temos todos os confortos necessários e desnecessários para viver, parece que voltamos à Idade das Cavernas, tentando nos proteger contra os tigres dentes-de-sabre lá fora.

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Ao invés de olhar para trás e celebrar liberdades do passado, temos que olhar ao nosso redor e reconquistar o que é nosso de direito. Andar pela chuva a procura de um novo lar.

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