Uivando na Lua
Em uma destas noites sufocantes, em que o calor do sol diário parecia continuar a afligir a Terra refletindo na Lua noturna, na poltrona entre tela e janela finalmente assisti a “Lunar” (“Moon“, 2008). Já resignado por ter perdido o show do Metallica e estar prestes a perder o show da Beyoncé, me surpreendi com este filme indie que tinha entrado em meu radar lá por 2007 e do qual perdi contato até então.
O trailer me intrigou, e as comparações com “Solaris” e “2001” foram imediatas senão inevitáveis. Mas o que 2001 tem de extremamente assustador e Solaris de extremamente psicológico, Lunar consegue comprimir estes dois extremos em um filme novo, em que o humano toca o espectador, graças à(s) performance(s) perfeitas de Sam Rockwell, e o elemento de thriller é muito bem dosado pelo diretor.
O filme acompanha o final de uma jornada de 3 anos de um empregado da Lunar Industries, que coleta material na Lua para a geração de energia limpa na Terra. Ele é o único humano na base, acompanhado de um computador que o ajuda, Gerty (“interpretado” por Kevin Spacey).
A rotina, o isolamento e seus efeitos são muito bem acompanhados nos primeiros minutos do filme. É claustrofóbico, angustiante, em alguns momentos até engraçadinho. Novamente, genial parceria entre diretor e o protagonista aí. A partir do segundo ato, um acidente dá inicio a porção thriller de ficção científica do filme, com clones, conspirações e até uma dose de computador maligno.
Como observei ali em cima, nada é extremo no filme. Até quando a trama vai se desenrolando com estes elementos conhecidos de sci-fi, o conflito humano continua em primeiro plano, com os clones discutindo memórias, propósitos e seu(s) futuro(s). Sam Rockwell está fantástico assim, acreditem. Este ator, se não parecesse tão deslocado do sistema de Hollywood, estaria empilhando estatuetas por aí. Só que ele parece se encontrar nestes papéis de filmes menores, cults (Confessions of a Dangerous Mind, Matchstick Men e, logo antes de Lunar, Choke). E nós amantes do cinema agradecemos, pois vivemos de filmes bons, não de prêmios.
Vale nominar (não para prêmios, ainda) o diretor do filme, o quase-estreante Duncan Jones, que aparece como uma promessa do cinema de ficção científica de qualidade, com seu filme anterior “Whistle” sobre um assassino via satélite que vira alvo de sua própria arma e seu próximo projeto, “Source Code”, acompanhando um soldado que acorda no corpo de um trabalhador de escritório.
Jogar o humano contra o terror trazido pela tecnologia. Esta velha fórmula parece encontrar novas abordagens nesta era em que o terror tecnológico já está presente em nosso dia a dia, e o que mais nos aterroriza é sermos humanos.
Categorizado em: CinemaTags:2001, Cinema, clones, Duncan Jones, ficção científica, humanidade, Moon, psicologia, Sam Rockwell, Solaris
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