Bruschetta Goonie
Primeiro gibi-receita feito em São José dos Pinhais que se tem notícia. Boa leitura e apetite.
Categorizado em: Arte, Cinema, Culinária
Tags:Arte, Cinema, cozinha, humor, sessão da tarde
Permalink | Comentários (3)
Máfia sem família
Chegando perto do Oscar e morando aqui na província dos pinheirais fica difícil ter acesso a todos os filmes nas salas de exibição. Ainda bem que meu colega Beto Torrente oferece sessões especiais de filmes que não chegam por aqui. Foi o caso ontem à noite, quando tive o prazer de uma exibição privada de “Un Prophète” (2009), representante da França este ano na competição de melhor filme estrangeiro.
As comparações com “O Poderoso Chefão” vieram desde o primeiro trailer que vi na Web, mas o filme do diretor Jacques Audiard vai muito além disso. Em uma era individualista porém globalizada, a famiglia vira uma série de alianças entre corsos, árabes, ciganos e franceses. O protagonista, o jovem Malik El Djebena (Tahar Tahim) é condenado a seis anos de detenção por agredir um policial, e há a insinuação de uma juventude aparentemente cheia de contratempos com a justiça. Só que desta vez ao invés do reformatório a prisão é de verdade.
Sozinho na prisão, Malik encontra proteção com os corsos, liderados por César Luciani (Niels Arestrup). Na França estes habitantes da ilha no Mediterrâneo são o equivalente dos sicilianos na Itália. A organização parece a mesma, e a língua é um misto de francês e italiano delicioso de (tentar) decifrar. Proteção que não vem de graça, marcando a graduação de Malik no crime.
Outra força a ser reconhecida na prisão são os muçulmanos. Para os corsos, são brutos que não usam a cabeça. São usados fora da prisão como músculos e tratados como animais. É entre estes dois mundos que Malik vive e floresce. Desprezado por seus irmãos por ser o criado dos corsos e maltratado por estes, aos poucos toda a humilhação vai trazendo conhecimento e sangue frio para que ele comece a alçar seus primeiros vôos em uma vida de crime organizado, mesmo de dentro da prisão.
Na cacofonia entre o árabe, francês e corso, na claustrofobia de um olhar que não enxerga nada além do que se apresenta logo a sua frente, Malik encontra um caminho, movido não pelo sobrenatural, mas suas próprias pulsões humanas, quase animais, de sobrevivência.
Realmente a aproximação com o clássico de Francis Ford Coppola é válido só que, também um sinal dos tempos, ele comprime os dois filmes em um só, e analisa as novas formas de sobrevivência que as pessoas à margem da sociedade encontram neste mundo onde tudo está tão próximo e interligado porém cada vez mais individualista e mesquinho.
Categorizado em: Arte, CinemaTags:árabe, Arte, Cinema, crime, curitiba, França, imigração, Oscar, prisão, Un Prophète
Permalink | Comentários (0)
Uivando na Lua
Em uma destas noites sufocantes, em que o calor do sol diário parecia continuar a afligir a Terra refletindo na Lua noturna, na poltrona entre tela e janela finalmente assisti a “Lunar” (“Moon“, 2008). Já resignado por ter perdido o show do Metallica e estar prestes a perder o show da Beyoncé, me surpreendi com este filme indie que tinha entrado em meu radar lá por 2007 e do qual perdi contato até então.
O trailer me intrigou, e as comparações com “Solaris” e “2001” foram imediatas senão inevitáveis. Mas o que 2001 tem de extremamente assustador e Solaris de extremamente psicológico, Lunar consegue comprimir estes dois extremos em um filme novo, em que o humano toca o espectador, graças à(s) performance(s) perfeitas de Sam Rockwell, e o elemento de thriller é muito bem dosado pelo diretor.
O filme acompanha o final de uma jornada de 3 anos de um empregado da Lunar Industries, que coleta material na Lua para a geração de energia limpa na Terra. Ele é o único humano na base, acompanhado de um computador que o ajuda, Gerty (“interpretado” por Kevin Spacey).
A rotina, o isolamento e seus efeitos são muito bem acompanhados nos primeiros minutos do filme. É claustrofóbico, angustiante, em alguns momentos até engraçadinho. Novamente, genial parceria entre diretor e o protagonista aí. A partir do segundo ato, um acidente dá inicio a porção thriller de ficção científica do filme, com clones, conspirações e até uma dose de computador maligno.
Como observei ali em cima, nada é extremo no filme. Até quando a trama vai se desenrolando com estes elementos conhecidos de sci-fi, o conflito humano continua em primeiro plano, com os clones discutindo memórias, propósitos e seu(s) futuro(s). Sam Rockwell está fantástico assim, acreditem. Este ator, se não parecesse tão deslocado do sistema de Hollywood, estaria empilhando estatuetas por aí. Só que ele parece se encontrar nestes papéis de filmes menores, cults (Confessions of a Dangerous Mind, Matchstick Men e, logo antes de Lunar, Choke). E nós amantes do cinema agradecemos, pois vivemos de filmes bons, não de prêmios.
Vale nominar (não para prêmios, ainda) o diretor do filme, o quase-estreante Duncan Jones, que aparece como uma promessa do cinema de ficção científica de qualidade, com seu filme anterior “Whistle” sobre um assassino via satélite que vira alvo de sua própria arma e seu próximo projeto, “Source Code”, acompanhando um soldado que acorda no corpo de um trabalhador de escritório.
Jogar o humano contra o terror trazido pela tecnologia. Esta velha fórmula parece encontrar novas abordagens nesta era em que o terror tecnológico já está presente em nosso dia a dia, e o que mais nos aterroriza é sermos humanos.
Categorizado em: CinemaTags:2001, Cinema, clones, Duncan Jones, ficção científica, humanidade, Moon, psicologia, Sam Rockwell, Solaris
Permalink | Comentários (0)
O olho do furacão
A crítica de arte é importante. É uma das origens da discussão que leva a apreciação completa de uma obra. Mais do que uma recomendação do que assistir/ouvir/experimentar, ela ajuda no “depois” da experiência. Ler várias críticas diferentes de um filme por exemplo é um prazer imenso, com cada take sobre as imagens e história aumentando em ordens de magnitude o valor da sessão.
No caso do desafortunadamente entitulado “Amor sem Escalas” (Up in the Air, 2009) a crítica na imprensa brasileira mais parece um eco (eco, eco, eco…). O filme “é sobre” (o que já arrepia os mais formais) relacionamentos em uma era digital. Ponto.
Ponto perdido. Me permitam levantar a voz sobre o eco e adicionar à discussão que um dos temas mais fortes do filme é a busca de objetivos em meio em meio à crise, seja da meia idade ou financeira mundial. George Clooney vive um “especialista em encerramentos”, que viaja pelos EUA demitindo pessoas e os ligando a um programa de recolocação no mercado de trabalho. No clima financeiro atual dos EUA, esta recolocação chega a ser uma piada de mau gosto.
Mas não é. Ryan Bingham, o personagem de Clooney, faz com que as pessoas demitidas sintam-se bem, ou ao menos não fiquem fora de controle. Seria uma profissão insuportável para uma pessoa sensível. Mas sua convicção sobre seu modo de vida é tão grande que sobra espaço para ele ser o melhor no que faz. Ele é um solitário que viaja de cidade em cidade, sem contato com família e amigos, e se orgulha disso.
O que o confunde e desvia de seu objetivo são os “relacionamentos” nos quais ele se envolve, seja com uma charmosa desconhecida (Vera Farmiga), uma colega de trabalho (Anna Kendrick) ou sua família distante. Poderia ser um romance bem comum se não fossem os momentos poderosos retratados de Ryan em seu trabalho, visitando empresas em colapso, carregando o peso da recessão e das malas de dinheiro que sua empresa de “exterminadores” está lucrando com a crise. Só que o romance e relacionamentos do personagem principal no fim só aumentam a certeza de que seu modo de vida, seu objetivo final de viajar mais de 300 dias por ano encerrando carreiras e motivando novas (destaque para a cena em que ele salva sua colega de trabalho ao assumir uma demissão convencendo o empregado de que este era um novo começo, sem usar clichês) é o que o define. As crises trazidas pela tecnologia, pelo ambiente e pela idade são atravessadas e somos (ou podemos) ser mais fortes no final.

As imagens lindas dos vôos e os truques espertinhos de cena feitos pelo diretor Jason Reitman (exemplo: Ryan saindo de uma loja de ternos para o corredor de um aeroporto) também precisam ser valorizadas. A escolha de extras entre pessoas que foram realmente demitidas durante a crise é o toque (e não truque) de gênio deste filme que revela a sua verdadeira alma: pessoas que perdem o seu norte, mas que, acreditando nelas mesmas, poderão continuar.
Se este toque, o roteiro enxuto e a ótima cinematografia não fossem nada menos do que geniais, ele não mereceria tantas indicações para os prêmios do ano. O valor desta obra, na minha opinião, foi traduzir o sentimento de um país em uma história pessoal e até divertida. Mas isto é o que eu acho. E vocês?
Categorizado em: Atualidade, CinemaTags:Amor sem escalas, avião, Cinema, crise, EUA, George Clooney, Oscar, título, tradução, Up in the Air
Permalink | Comentários (1)
Céu e Inferno
Em poucos dias faço anos. Segundo a astrologia, estou no auge do meu inferno astral. Quanto mais eu penso nisso, mais parecem que as coisas ficam arrastadas, pesadas, ruins. Por isso hoje eu resolvi subornar Caronte e pegar o barco de volta. Fiquei completamente loco no visual do blog e, pra variar, me entupi de cinema e leituras.
O filme que mais teve a ver com este meu período foi “The Men Who Stare at Goats” (2009), que deve chegar no Brasil mês que vem mas que, através das maravilhas da “distribuição independente” que a Internet permite, pude assistir esta semana.
Baseado no livro homônimo de Jon Ronson, que com a pesquisa de John Sergeant tentou encontrar ligações entre as operações psicológicas do Exército americano (e suas subsidiárias) no Iraque com as iniciativas de criação de um exército pacífico nos anos 80, o filme adiciona personagens e se torna uma suposta meta-história sobre a origem e escrita do livro, juntando o jornalista Bob Wilton (Ewan McGregor), abandonado por sua noiva e decidido a mudar sua vida, com o misterioso Lyn Cassady (George Clooney).
Juntos eles vivem “loucas aventuras” no Iraque, enquanto flashbacks contam a história do “New Earth Army”, do qual Lyn foi o maior talento durante sua existência . Este exército sem armas foi uma iniciativa do oficial Bill Django (Jeff Bridges) que, depois de uma epifania no Vietnã tentou encontrar um novo jeito de manter a paz sem guerra. Para isso ele embarcou em uma jornada por diversos movimentos new age (mostrada em uma hilária montagem no filme), retornando e sendo bem recebido por um general (Stephen Lang, de Avatar) que estava convencido de que os russos já estavam pesquisando “guerra psíquica” antes dos EUA. Isto porque eles (os russos) achavam que os americanos estavam pesquisando este tipo de armamento, baseado em um rumor francês. Durante a Guerra Fria, isto era tudo o que bastava.
Então, no decorrer dos anos 80 um pelotão foi treinado para dançar, meditar, visualizar, se comunicar telepaticamente, atravessar paredes, dissipar nuvens. Sim, dissipar nuvens. Esta brincadeira que muitos fazem era levada a sério como treino neste novo exército. A doutrinação militar convenceu os recrutas, principalmente Lyn, de que eles possuíam e podiam desenvolver seus poderes.
Mas como toda história, esta também tem um vilão (Kevin Spacey), que descredita a iniciativa e encerra o sonho de um novo exército. Avançando para os anos 2000, no Iraque, é ele que nossos heróis encontram no deserto do Iraque, usando mensagens subliminares, música infantil e outros meios de tortura psicológica como um terceirizado do Exército americano. E ele tem Bill como seu empregado desiludido, tendo que aplicar o “lado negro” do New Earth Army nessas operações.
Mesmo à beira da morte e vendo que todo o seu modo de ver o mundo era uma mentira feita para desviar dinheiro do exército, Lyn, junto com o recém-convertido Bob e libertado Bill contra-atacam e, usando táticas bem terrenas, salvam o dia. Bill e Lyn, altos em LSD, decolam em um helicóptero para o deserto, e Bob fica para trás para contar a história, que de tão inacreditável vira apenas um factóide na televisão.
Ao invés de ver nisto uma derrota, Bob segue os “ensinamentos” de Lyn e Bill, que na verdade não são nada mais do que acreditar em si mesmo e ser bom com os outros. Este é um poder maior do que qualquer exército jamais poderá alcançar. Não há inferno (astral ou terreno) que resista.
Categorizado em: Arte, ComportamentoTags:astrologia, Cinema, Ewan McGregor, George Clooney, inferno astral, new age, The Men Who Stare at Goats
Permalink | Comentários (0)








