Arte, ciência e Michael Jackson

por dougspadotto em 10 de novembro de 2009

O autor Arthur C. Clarke escreveu como uma de suas 3 (depois 4) leis de “predição” que “qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistigüível de mágica”. E é citando este grande pensador que eu peço licença para outro corolário, este de minha (até onde eu sei) autoria: “a ciência transforma o imprevisível em previsível; a arte (pop) transforma o previsível em imprevisível”.

Foi este jogo de definições que ficou pulando na minha cabeça, talvez por ela estar balançando para cima e para baixo, de um lado para o outro, acompanhando os ensaios da turnê nunca realizada de Michael Jackson no apaixonado documentário “This is it” (2009).

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Dirigido por Kenny Ortega, um dos idealizadores do show, o documentário é um apanhado de cenas de ensaios, gravações de curtas e depoimentos dos envolvidos na montagem do espetáculo. Nele além de conferir parte das músicas que entrariam no show, podemos espiar um lado de Michael Jackson que poucos se importavam em reparar ou levar a sério: o artista, o visionário.

Perfeccionista sem se tornar um ditador, gentil e trabalhador. Essas são as faces do ídolo que transparecem na película, muito mais do que os escândalos que acompanharam sua vida sob os holofotes.

Fazendo o que o povo gosta, ou o que ele escreveu (estas posições se misturam oportunamente em um diálogo entre Michael e seu diretor musical no documentário), ainda assim Michael consegue inovar, adicionar um tempero aqui e ali, uma nova pausa, uma nota mais longa, tornando o previsível imprevisível, para delírio das platéias que só puderam ver um pequeno pedaço desta sua nova visão de “escapismo”, mas com mensagem: amor.

É para esta força imprevisível que o “cientista” Michael Jackson apela para que a situação do planeta seja revertida. Modelando seu show e sua música em torno de uma mensagem de amor ao próximo, Michael queria que o comportamento da Humanidade se tornasse previsível e direcionado para a cura do planeta.

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Perdemos o artista, o “cientista” da experiência musical, mas sua mensagem continua viva e quem sabe pode ajudar a reverter as previsíveis catástrofes que causamos a nós mesmos e aos outros ao agirmos sem amor, próprio e ao próximo.

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O retorno do macaco aquático

por dougspadotto em 17 de setembro de 2009

Assim como a evolução dos seres humanos, algumas mudanças de comportamento demoram tanto tempo quanto. Em Julho deste ano, quando assisti pela primeira vez o vídeo no final deste post, eu já queria fazer natação. Depois de quase 3 meses, volto da minha terceira aula duvidando da teoria do macaco aquático.

Basicamente o que esta hipótese levanta é a possibilidade dos seres humanos terem evoluído não dos macacos que foram para a savana, como os babuínos, e sim de um “macaco aquático”, que vivia da coleta de moluscos e desenvolveu características físicas adaptadas a uma vida aquática, entre elas o controle da respiração, falta de pêlos e uma camada de gordura para isolar o frio.

Ironicamente, os humanos agora procuram a natação para eliminar esta mesma “capa de gordura”. Podemos ter o reflexo do mergulho desde bebês, mas deixe eu lhes dizer que cair numa piscina com seriedade não é nada natural! Na segunda piscina o seu fôlego já se esvai, mas mesmo assim o nosso dom de controlar a respiração e algumas características físicas, como um nariz “encapado”, fazem com que pelo menos a água não entre em seus pulmões.

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A maioria dos animais consegue nadar. Quem nunca jogou seu cachorro na piscina quando era criança para ver ele nadando? Virou até uma modalidade de nado. Mas mergulhar, entre todos os animais terrestres os seres humanos são os únicos.

Que bom se uma aula de natação fosse só mergulhar! Mas lá vamos nós gerando propulsão com nossos membros, que tem somente vestígios de membranas natatórias, de todo jeito imaginável: com um braço, só com as pernas, alternando braços, de frente, de costas.

Mesmo com o cansaço e a frustração ao realizar que assim como do macaco da savana já nos afastamos muito do hipotético macaco aquático, um benefício muito grande de colocar a cabeça debaixo d’água e percorrer alguns metros é o silêncio e tranqüilidade que encontramos nesses momentos. Por alguns minutos saímos da floresta e temos tempo de clarear e talvez evoluir nossas mentes.

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O continente das maravilhas

por dougspadotto em 27 de julho de 2009

Depois da recomendação de um muito estimado amigo, resolvi assistir ao documentário “Encounters at the End of the World” (2007) do diretor alemão Werner Herzog.

Foi um documentário produzido pela National Science Foundation dos EUA, que levou Herzog ao continente antártico para filmar “o que ele quisesse”. Herzog garantiu que não iria produzir outro filme sobre pingüins, arrumou as malas, embarcou em um avião militar da Nova Zelândia e pousou na base de McMurdo na Antártida, de onde visitou diferentes bases científicas ao redor do continente gelado.

O que poderia ser um simples documentário científico se tornou algo mais, com Herzog interpretando cada diferente pesquisa não pelo que elas significam cientificamente, mas dando idéias para que a audiência imagine os seus propósitos. Um desafio que parece saído diretamente de “Alice no País das Maravilhas”, e que funciona muito bem.

Por que ela desceu o buraco do coelho?
Por que ela desceu o buraco do coelho?

Funciona não só pelos questionamentos fora do comum do diretor, mas também porque, como no país que Alice visitou, a Antártida desafia todas as nossas concepções de realidade sendo, entre outras coisas, um vazio “vivo” segundo um glaciologista entrevistado.

Esta declaração enigmática é apenas uma das várias que o diretor tira dos habitantes do continente. Além da beleza das paisagens, das interessantes pesquisas e questionamentos do diretor, o que realmente chama a atenção e inspira o título do documentário são os “encontros” que acontecem durante o seu desenrolar. De motoristas de ônibus que foram perseguidos com machetes na Guatemala a cientistas que tocam guitarra no teto de uma estação de pesquisa para comemorar a descoberta de novas espécies, são estas pessoas, todas “desprendidas do Mundo” e que acabaram “caindo” todas para o extremo Sul que fazem deste documentário algo tão valioso e digno de ser assistido.

Em mais um paralelo com o país das maravilhas, o diretor nos leva, todo o tempo perguntando “por quê? por quê? por quê?” por um túnel bem debaixo do verdadeiro pólo Sul magnético da Terra, com temperaturas abaixo de -70 graus Celsius, somente para encontrar um peixe congelado, algumas fotos e pipoca congelada deixada pelos cientistas. O que fazer disso vai da nossa imaginação, algo raro para um documentário.

O que você vê?
O que você vê?
escrito por Douglas
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Fora da casinha

por dougspadotto em 22 de julho de 2009

Ontem começou outra edição da conferência super-hype TED, que une pensadores, ativistas, cientistas, políticos e empresários por alguns dias para debater idéias sobre o futuro, mas também sobre o impacto das coisas acontecendo agora mesmo.

O que no começo parece uma coleção de buzzwords, metáforas espertonas (com na apresentação de ontem sobre a Internet) e gráficos caprichados, na verdade é a popularização do conhecimento mais avançado da Humanidade de um jeito que qualquer pessoa capaz de interpretação pode processar.

Gordon Brown: "Tecnologia alterando política externa dos países"

Gordon Brown: "Tecnologia alterando política externa dos países"

Como diria um grande amigo meu, quando se começa a ligar idéia com idéia com idéia a coisa vira “conversa de boteco”, ou “pitacologia”. Mas acredito que no campo das idéias, a rigidez científica nem sempre é necessária ou bem vinda.

Este tipo de conversa que a TED inicia serve para inspirar, e também apresentar idéias que precisam de mais mãos para se tornarem realidade. A conferência disponibiliza todas as apresentações de graça no site TED.com e também tem um programa de “fellows” (bolsistas) que conecta ativistas, artistas e cientistas para que suas causas ou inventos tenham maior impacto no Mundo.

escrito por Douglas
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Ao Mundo Novo

por dougspadotto em 11 de julho de 2009

Ontem seriam comemorados os 153 anos de vida do célebre engenheiro elétrico e inventor Nikola Tesla. Nem que tenha sido no colégio como unidade de medida dos resultados das fórmulas de eletromagnetismo, todos já devem ter ouvido falar dele.

Ele foi um dos maiores inventores da História, um cientista que vivia cercado por artistas, um filósofo dos elétrons. Suas contribuições vão da melhoria na utilização da corrente alternada até uma releitura da teoria da gravidade, passando pelo design de novos meios de transporte e comunicação no caminho (ele é oficialmente o inventor do rádio).

Tesla devorava (e memorizava) livros, tendo uma base teórica que o deixava estranhamente (para os expectadores) confortável durante as manifestações dramáticas de seus inventos, como a bobina Tesla.

Assustador. Inofensivo. Útil.

Assustador. Inofensivo. Útil.

Este orgulhoso iugoslavo imigrou para os Estados Unidos com nada mais do que uma carta de recomendação à Thomas Edison, seu primeiro empregador no país e depois seu arqui-rival. Na Europa ele nunca chegou a concluir um curso superior, sofrendo desde cedo com distúrbios de personalidade.

Resolvendo problemas de engenharia complicadíssimos a 18 dólares por semana ele não teria ido longe. Mas uma inquietação muito comum se manifestou dentro deste incomum imigrante: o clima de liberdade da nova pátria o fez acreditar em suas idéias, sair da companhia de Edison e prosseguir com suas próprias pernas.

É um tema recorrente, principalmente na vida de imigrantes de países pequenos, sejam em território (Itália, Iugoslávia) ou em liberdades (China, Rússia): o impulso gerado pela troca de ares ou a simples luta pela sobrevivência extraem o melhor de pessoas que em seus países de origem seriam “só mais um”. No novo cenário elas se tornam algo mais do que o seu país de origem, quebrando estereótipos e reinventando sua cultura, misturando-a com a do país hospedeiro e de outros imigrantes, formando algo novo e vibrante.

Se fôssemos feitos para ficar em um só lugar teríamos raízes e não pernas, folhas e galhos e não sentidos que se aguçam a cada novo estímulo e que são transformados pelo nosso intelecto. Seja imigrando ou simplesmente experimentando, somos uma espécie movida à busca do “novo”, não há como negar.

Não só um pensador

Não somente um pensador

escrito por Douglas
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