O maior show da Terra

por dougspadotto em 12 de fevereiro de 2010

É sexta-feira antes do carnaval mas aquele cheiro de lança-perfume já está no ar há muito tempo. Até em Curitiba o pré-carnaval chegou, e não deve demorar muito para o “Garibaldis e Sacis” virar uma nova micareta, na progressão de números que venho observando empiricamente durante minhas despreocupadas visitas ao evento nestes últimos anos.

O aumento de “carnavais oficiais” também é reflexo desta progressão em nível nacional. Antes o Rio de Janeiro era o único carnaval oficial (coberto pela TV) mas, secretarias de turismo ao redor do país e poderosos lobbies agora incluíram São Paulo, Salvador e Recife como pólos da folia oficial da nação. O aumento da população também deve contar para isso, pois o Rio só pode abrigar tantos foliões.

Lendo as notícias do dia encontro algumas semelhanças desta progressão do nosso carnaval com um festival hindu que tem hoje como seu dia mais significativo. É o Maha Kumbh (ou Maha Kumbh Mela), o maior dos “Kumbh Melas”, ou festivais da jarra, em tradução livre.

"A-lá-lá-ôôôôôô... mas que calôôôôô..."

"A-lá-lá-ôôôôôô... mas que calôôôôô..."

Ele acontece a cada 12 anos, com os anos intermediários contendo versões menores do festival. Ele celebra o fim de uma guerra entre deuses e demônios por uma jarra de um néctar sagrado (amrita) que eles se uniram para preparar a partir do “oceano de leite” que existia na Terra primordial. Uma vez pronto o néctar, eles guerrearam para terem posse exclusiva da jarra. Enquanto brigavam, Vishnu passou pela Terra e levou a jarra embora, deixando cair quatro pingos do amrita. Estes pingos caíram nas quatro localidades onde os festivais são celebrados alternadamente conforme a posição dos astros: Trimbakeshwar, Haradwar, Prayag e Ujjain (Rio, São Paulo, Salvador e Recife talvez?).

Além da história, costume e cálculos, o que me chamou mais atenção foi o total de celebrantes deste festival através do tempo. Ele é celebrado desde o período Védico da Índia (1500 a.C.), com alguns relatos de viajantes espalhando a notícia deste grande festival, principalmente descrevendo seus rituais, como a procissão dos sadhus (homens e mulheres santos) nus e cobertos em açafrão. Muito da santidade e boa sorte deste festival é atribuída somente a presença de tantos homens santos em um mesmo lugar. É como se os deuses ficassem em segundo plano e a festa e êxtase espiritual fossem gerados pela massa, tanto santa como profana.

Não é só no carnaval brasileiro que se põe as bundas de fora...

Na era moderna os números deste festival é que começaram a ser contabilizados. Em 1903, 400.000 celebrantes participaram do festival. Em 1998, 10 milhões e em 2001 foi atingido o marco de maior concentração de pessoas no planeta, com 60 milhões de pessoas reunidas em Prayag, pois além de ser um Kumbh Mela, o alinhamento dos astros naquele ano só se repete a cada 144 anos.

Observando estes números e a longa história do festival indiano, o nosso carnaval brasileiro, “o maior show da Terra”, fica nanico mas nem por isso menos especial. Assim como a reunião de santos e da massa na Índia, nosso carnaval traz o êxtase a alguns milhares de pessoas (chegamos aos milhões contando o total das quatro maiores cidades) no país inteiro. Tanto no Brasil quanto na Índia, estas festas são um amontoado de pessoas que, com o aumento populacional mas ainda mais pela busca por algum contato com o divino nestes tempos tão mundanos, continua crescendo e se transformando.

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Shake your moneymaker

por dougspadotto em 27 de janeiro de 2010

Foda-se o Haiti. É isso que escuto a cada história sobre os “esforços” brasileiros de auxílio às vítimas. A última barbaridade foi o Lula dizendo que em “possivelmente 30 dias” será instalada uma unidade de pronto atendimento no Haiti. A ONG Médicos sem Fronteiras instalou um em 72 horas, se lamentando que não pôde fazê-lo em 48. Até Israel montou um em 48 horas. Aqui, as doações vão para o Rio, para depois irem para Belém, daí com sorte para a República Dominicana e com mais sorte ainda chegam a Porto Príncipe. Até o John Travolta já pousou em Porto Príncipe levando ajuda (e algo mais).

John Travolta 1 x 0 Brasil

O que aumenta ainda mais a revolta é o ressentimento dos governos latino-americanos ao verem a presença massiva dos EUA, Israel ou qualquer outra força que está fazendo a diferença no solo na capital arrasada. Para usar uma expressão conhecida, “nunca na história” da MINUSTAH (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti) tanto foi feito pelo país.

Eu já tinha cantado a pedra neste post, onde mostrei que a participação brasileira não estava fazendo o suficiente (para ser gentil) para estabilizar, muito menos para desenvolver este país economicamente, ecologicamente e politicamente falido. As ONGs brasileiras que se aproveitavam das mamatas governamentais para darem bolas e berimbaus para miseráveis continuam firmes e fortes, diferentemente dos edifícios da capital haitiana.

Um “twiteiro” mal informado chegou a twitar o futuro dizendo: “empreiteiras brasileiras enriquecem com contratos para reconstrução do Haiti”. Tarde demais. O jeitinho brasileiro não tem chance contra a doutrina Powell de ocupação massiva. O Haiti em 2 semanas passou para o controle norte-americano e, provavelmente, a Halliburton já tem um prédio de 5 andares construído no centro de Porto Príncipe, com 5 mais em construção. A China já vem cercando território fora da capital a anos também. Enquanto isso, a MINUSTAH aparece em “Miami Vice” virando a cara para os negócios excusos dos quais o país virou entreposto. A arte imita a vida, temos que lembrar disso, nem que seja em um remake de um seriado ruim.

Não procure por ordem e progresso. Eles não estão aqui.

Em 24 horas os EUA estabeleceram uma nova torre de controle no aeroporto da capital e ficaram responsáveis por todo o tráfego aéreo do país. A única coisa que o Brasil fez foi resmungar e chorar uma dúzia de mortos. Jay-Z e Bono gravaram uma música, George Clooney comandou um teleton para arrecadar doações. Endividado e em crise, o governo americano já gastou mais de 300 milhões de dólares na operação. Isso é muito dinheiro, que será retornado muitas vezes com a reconstrução e ocupação pelos anos vindouros.

Se o Brasil ganhou alguma coisa desta história foram os belos cachos de boneca da personagem Helena de “Viver a Vida”, feitos de cabelo natural vindo do Haiti (sigam o link se duvidam). Talvez a(s) doadora(s) dos cabelos estejam precisando de ajuda agora mas, se depender do governo ou instituições tupiniquins, é melhor esperar soterrado.

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Quem foi o primeiro presidente do Brasil?

por dougspadotto em 15 de novembro de 2009

É domingo, mas pouca gente lembra que é feriado também. 15 de Novembro, Proclamação da República. Lembro do primário e ginásio quando esta data era tão ou mais importante que o 7 de Setembro, comemorada com encenações, cartazes e aulas especiais. Hoje é só mais um feriado, e quando cai em um domingo, nem isso.

Uma revista semanal (Veja) não se atreveu nem a mencionar a data na capa ou em qualquer parte de seu conteúdo, dando mais espaço a seus ataques coléricos contra o presidente e ainda mais ao guia de compras de eletrônicos para o Natal e mais uma lista de coisas que fazem bem para o corpo (aparentemente comer salmão enquanto ri e faz sexo é bom para você).

O Estado de São Paulo traz a boa notícia que o meu time agora é líder isolado, mas passa longe até da singela mas honesta cobertura que a Gazeta do Povo fez em sua edição online (e provavelmente impressa, mesmo com uma capa tenebrosa surfando na onda dos medos de apagões).

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A reportagem foi baseada em um questionário enviado a diversos estudiosos, que avaliaram diversos aspectos da cultura republicana brasileira, e o resultado foi bem abaixo da média. Nos quesitos de eleição e rotatividade no poder estamos bem. Mas o mecanismo de escolha de uma minoria para governar a maioria (um dos pilares da República) é uma questão mais técnica do que cultural neste ponto da nossa História.

O peso que não carregamos é a aplicação de outros elementos fundamentais da República, como a criação de leis (pelo Legislativo, não outro poder) que reflitam as realidades da maioria, não permitir que a minoria governante utilize recursos públicos como extensão de seus bens particulares (o “patrimonialismo“) e a criação de meios para que a maioria seja ouvida quando reparar o mau uso da coisa pública.

Já que um assunto que recebe atenção é a Copa do Mundo, vamos olhar este exemplo, talvez exagerado, mas mostra um caminho a seguir: na África do Sul foi estabelecida uma linha direta para denunciar a corrupção. O próprio presidente, Jacob Zuma, atendeu a alguns telefonemas para divulgar o serviço e inspirar os trabalhadores aos telefones a agirem sobre todas as denúncias recebidas. Ele mesmo foi investigado por corrupção e absolvido, durante as eleições e após elas.

"Aqui é a República, como posso ajudar?"

"Aqui é a República, como posso ajudar?"

Vocês sabiam que temos serviços similares aqui no Brasil? É o Ministério Público que, na minha opinião, é mais movido pelo ego de seus servidores do que denúncias efetivas. Os promotores deste Ministério parecem correr atrás das manchetes de jornais e levantam um alvoroço tremendo sobre temas menores, como piadas no Twitter, enquanto a corrupção e o abuso do poder público corroem as fundações de uma república ainda tão jovem.

Mas não é só o Ministério Público que deve ser responsabilizado por isto. A sociedade civil pode e deve encontrar meios de se manifestar. Movimentos como o Disque-Denúncia arranham a pele pútrida que ainda se agarra ao brasão da República. E é também o trabalho de cada um respeitar o bem público, sejam livros na biblioteca, salas de aula, parques e ruas. O que é de todos é de todos, e é seu também. Este é o “patrimonialismo invertido” que devemos cultivar para evoluir nossa nação em uma república de fato.

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Império preciso

por dougspadotto em 27 de outubro de 2009

Ontem terminei de ler o livro “Diplomacia em Alto-Mar“, que é o registro de um depoimento ao CPDOC da FGV dado pelo diplomata Vasco Leitão da Cunha, que serviu por 40 anos (1927-1967) como diplomata e ministro  do Exterior, entre outros cargos públicos os quais ele foi “forçado” a assumir, pois ele sempre defendeu que um diplomata de carreira não pode assumir uma pasta de governo, sendo um mero funcionário do mesmo, capacitado para uma função e uma função apenas: ser a voz do governante no exterior.

No livro ele conta detalhes desde suas primeiras missões na América do Sul até seu cargo como ministro do Exterior passando pela participação de importantes encontros que criaram os órgãos diplomáticos internacionais que existem até hoje como a ONU. Uma memória exemplar, pois ele prestou o depoimento quando já passava dos 80 anos.

Servindo o país antes deste e de muitos outros meteoros caírem

Servindo o país antes deste e de muitos outros meteoros caírem

O “seu Vasco” vem da aristocracia e orgulhoso disso. Menino ele andava em carruagens com barões e viscondes, e sempre que introduz um novo personagem na história diplomática brasileira ele relaciona com a linhagem de onde ele veio, e o que esperar do temperamento ou natureza de tal e tal família.

O que pode parecer saudosismo por um tempo de ainda mais desigualdade fica muito mais brando quando ele descreve a necessidade de possuírmos uma elite pensante (e dirigente) no país. Ele exalta o preparo que os funcionários do Itamaraty têm para lidar com praticamente todos os temas, de Economia ao protocolo, do Direito à gestão da informação. Este preparo no passado era restrito aos filhos de barões e viscondes para conduzir e manter seus títulos e propriedades, sendo “terceirizados” pelo governo quando este tinha necessidade, fazendo-os ministros, coletores de impostos, conselheiros ou enviados especiais.

Mas o que isto tem a ver com império? A última missão do sr. Leitão da Cunha foi como embaixador do Brasil em Washington, onde teve relações muito próximas com Lyndon Johnson, um dos presidentes mais impopulares dos EUA, tendo herdado a guerra do Vietnã do querido presidente Kennedy, coisa que poucos lembram.

Uma das observações finais do diplomata foi sua admiração para com o american way of life, o otimismo inato de todos os habitantes do país, que pode resolver qualquer problema e acha que todos podem também, se seguirem o seu exemplo.

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Mesmo admirando os EUA, Vasco deixa claro a completa falta de universalidade daquele povo. Eles são ótimos especialistas, como eu presencio diariamente no meu trabalho e hoje assistindo a tentativa de lançamento do novo veículo espacial Ares IX.

Assim como os barões e viscondes de outrora no Império Brasileiro, temos agora uma aristocracia que manda no Mundo mas estamos observando que, com preparo, passando pelo “Itamaraty de nações” que foi nossa História recente, acredito que o Brasil possa crescer e assumir o papel de um líder esclarecido imbuído não só de racionalidade mas também de sentimento e universalidade advindas da convivência pacífica de tantas raças e culturas que formaram este nosso país.

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Sim, nós podemos

por dougspadotto em 2 de outubro de 2009

É um traço tipicamente curitibano ser contra tudo. Nada está bom, nunca. Como curitibano adotado eu já fui muito disto e sofri por isso também. Agora até “brinco” de intolerâncias, mas tenho conseguido ser uma pessoa bem mais light.

Uma brincadeira recente era dizer que me mudaria para o Paraguai se o Rio ganhasse a disputa para sediar as Olimpíadas de 2016. Pois é, ele ganhou, mas eu ganhei também, porque parei de brincar e estou muito orgulhoso pela vitória e ansioso sobre o que o futuro reserva para este nosso país. O futuro do “país do futuro” chegou, e os anos 2010 tem tudo para serem memoráveis!

rio2016
Fica fácil ficar alegre depois da conquista, sinto-me culpado por isso, e poderia justificar isso de n maneiras mas não vou. Vou comemorar como um bom brasileiro e se duvidar tomo uma caipirinha no processo. Mas antes vou me intoxicar nos louros de ser brasileiro neste novo milênio:

Esta análise da Reuters é completamente açucarada e releva muitos dos nossos problemas atuais mas, olhando pelo lado do analista, o Brasil está “bombando” mesmo! Economia estável, democracia livre, mercado interno aquecido, 2 eventos esportivos mundiais… até dá para esquecer as barbaridades da corrupção endêmica do nosso sistema político e judiciário.

Enquanto eu queria passar vida tomando tererê, os pessimistas anti-Rio atiravam para todos os lados, trazendo os argumentos mais estapafúrdios para não sediar as Olimpíadas. Listo alguns:

- o dinheiro deveria ser investido em educação (não era para isso o dinheiro do pré-sal?);
- não somos um povo que pratica esportes (como?);
- o Rio não é culturalmente relevante e se sediasse os jogos este mito iria perpetuar-se (aham);
- nossos atletas não estarão preparados até lá (mas: o importante não é competir?);
- uma das missões avançadas no jogo do Facebook “Dictator Wars” é “Host an International Sports Tournament” (“Sedie um torneio esportivo internacional”), então nos tornaremos um ditatura até lá? (este último e mais bobo veio de mim mesmo, sem comentários…)

… a lista é mais longa do que a espera até 2016 para conferir se alguma destas profecias se tornará realidade.

Voltando à análise da Reuters e ao discurso do nosso vendedor-mor Lula, as condições realmente parecem favoráveis para o Brasil entrar de vez no cenário mundial como um gigante. Todo gigante é uma contradição ambulante, senão seria uma criatura normal. Então temos que encarar que crescemos de um lado, corrigimos do outro, pioramos em algumas coisas mas seguimos em frente e no fim das contas temos sempre que melhorar. Se não como país, pelo menos como pessoas. Se conseguirmos pelo menos este último, o anterior daí vira conseqüência.

"As pessoas diziam que não se pode ter os Jogos porque tem criança pobre, porque tem favela. Nós temos que arrumar tudo isso, sem dúvida. Sabemos que ainda temos muito trabalho pela frente."

"As pessoas diziam que não se pode ter os Jogos porque tem criança pobre, porque tem favela. Nós temos que arrumar tudo isso, sem dúvida. Sabemos que ainda temos muito trabalho pela frente."

P.S. (para manter o equilíbrio kármico, uma espetada): Mas aquele Carlos Arthur Nuzman ainda continua um nojento. E na direção do COB ainda! Ele e o Ricardo Teixeira devem ter fotos comprometedoras do Brasil inteiro em seus cofres.

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