Pela vida simples que não volta mais
Não tenho do que reclamar. Seja da violência sofrida (carro arrombado e assalto em ocasiões separadas) ou da quantidade de ótimos e acessíveis programas culturais do final de semana que passou. E talvez o segundo ajude a entender o primeiro. A arte refletindo a vida.
Não posso reclamar da violência porque não faço nada para evitá-la. Ela para mim era um fato de noticiário e mesmo se tornando dolorosamente real (levei uma garrafada na cabeça ao resistir ao assalto nesta sexta-feira), continuo sem a menor idéia de como posso mudar isto.
Fujo para a arte então. No sábado, acompanhado de um casal de amigos super cool assisti à apresentação da Camerata Antiqua de Curitiba na Capela Santa Maria e, antes da peça de teatro Kabul (da qual fiz a resenha no post anterior) visitamos a exposição “Escrituras e Filigranas” do artista R. Godá no museu do Centro Cultural Caixa. O que uma coisa tem a ver com a outra? Enquanto desce a página, aprecie uma de suas obras e conversamos depois dela:

Primeiro, uma rápida passada no repertório da apresentação da Camerata: a “Missa Breve” e “Alma Dei Creatoris” de Mozart. Essencialmente duas missas da época do compositor, cheias de louvor e arrebatamento, lindas, e que casam perfeitamente com o ambiente de concertos da Capela Santa Maria. Logo após houve a interpretação de um quarteto de cordas com flauta e coro de “Tota Pulchra es Maria” do compositor brasileiro José Maurício Nunes Garcia. E, pela segunda vez na História, houve a interpretação de “In memoriam Tina Pereira”, do professor Caio Senna, uma peça contemporânea que segundo a explanação do próprio compositor, presente na ocasião, foi feita para refletir a dor da perda de sua companheira musical Tina Pereira.
Provavelmente balisado pelo discurso do professor, mas muito mais pelo seu talento como compositor, a interpretação competente e o arranjo marcadamente contemporâneo da peça, o sentimento de pesar e confusão da perda de algo ou alguém foi muito bem transmitido. Tanto que o ambiente, antes exaltado pelos missais, ficou notadamente soturno. O maestro e orquestra previram isto e, para o bis, “para elevar os ânimos”, repetiram um pedaço de uma das missas.

Hoje em dia o sério Beethoven seria um cara feliz (Ed Harris em "Copying Beethoven")
Depois de um café, cuja ida e volta foi marcada por pedintes nos abordando, completamos o tempo até a peça vendo a exposição de R. Godá. É uma série de cerca de 20 gravuras e algumas esculturas de máquinas impossíveis, cheias de referências à diversos movimentos artísticos, da arte pop à oriental, com bastante de quadrinhos nela também. O principal na exposição eram suas “máquinas de criar florestas”, uma inversão dos acontecimentos atuais, cheias de humor mas também esperança na recuperação da inocência, representada nesta exposição pela natureza.
A dor da perda na obra de Caio Senna refletiu as violências que sofri na semana que passou, me fez conectar com outros seres humanos (nem que somente o próprio Caio) que sentem a realidade se transformar em algo sombrio e doloroso pela surpresa/violência da perda. Já as obras de R. Godá e Mozart e até do colonial Nunes Garcia revelaram que um antigo senso de justiça, sem maiores questionamentos e análise insiste em viver entre nós. Nem que seja somente na arte. Mas, assim como a arte reflete a vida, um dia a vida reflete a arte.
Tags:Atualidade, Caio Senna, José Maurício Nunes Garcia, Mozart, Música, R. Godá
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O político egoísta e o ornitorrinco
Se pudéssemos enumerar as razões de tanta tristeza em nossas sociedades, após alguma reflexão chegaríamos à corrupção como a fonte da maioria delas. Por sua vez, a corrupção tem uma fonte ainda mais profunda, algo que existe na natureza humana de querer sempre mais para si e para os seus, não importando as conseqüências.
A compra e venda de influências, muitas mas não todas as vezes com dinheiro público, faz o sistema “sangrar” recursos que seriam melhor aplicados em bens que beneficiariam uma comunidade como um todo, não só os envolvidos nas negociatas.
Sejam estes recursos financeiros porém até mesmo humanos, pois um criminoso que é inocentado através do tráfico de influências continuará fazendo mal à sociedade. E mais importante, o campo da acusação, vendo seus esforços legais desprezados pelos atalhos da corrupção, perdem a esperança, e no final acabam entrando para este jogo sujo ou pior, desistem.
A atração para o “lado negro” é muito forte, pela constatação de que é o caminho mais rápido para conquistar seus objetivos. Mas há também a atração natural de garantir a sua subsistência em detrimento dos outros, o “gene egoísta” já confirmado como um fato científico popular.

Vamos olhar o caso recente do presidente Sarney, que teve todas as acusações arquivadas antes mesmo de qualquer apuração ou julgamento. Em um “acordão” que fede, mesmo acontecendo no meio do nada, em Brasília.
Por um lado, reconhecemos em Sarney e todos os políticos que nomeiam parentes o reflexo direto da evolução, tentando garantir a sobrevivência dos seus do melhor jeito possível, para que possam procriar e ter filhos fortes. Isso não é biologicamente verdadeiro, pois dinastias têm o costume de virar uma coleção de mutantes devido ao cruzamento entre parentes. Serve simplemente como uma ilustração da evolução agindo em outros meios.

Primos Sarney, ano 2087
Nestas garantias de cargos e um estilo de vida privilegiado, recursos do Estado são desviados por meios legais, estampados em gordos contra-cheques dados a parentes. Ao invés de gastar com produção de armas como os EUA, simplesmente jogamos dinheiro na direção de um setor improdutivo, que é o próprio Estado, que poderia com este dinheiro garantir melhores condições de vida para sua população.
Finalmente, este costume sujo faz cidadãos íntegros perderem a fé no sistema, como claramente exemplificado nas recentes desfiliações do PT, partido responsável por garantir o “acordão” de olho na, literalmente, nova geração que é a eleição de 2010.
A Evolução sempre tem seus becos sem-saída, então resta torcer para que a atual direção da evolução do cenário político brasileiro esteja no caminho do ornitorrinco. Mas nós mesmos podemos agilizar esta extinção, pois é fácil exterminar estes ornitorrincos. Eles são lentos e sucumbem a um único tiro certeiro: o voto.

Atire no ornitorrinco!
Tags:Atualidade, corrupção, crise, cuba, democracia, política, PT, Renan, Sarney, saúde, Senado
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Por um jornalismo mais Gay
Ele já foi embora? Mesmo? Bacana, então vamos falar dele.
“Ele” é Gay Talese, jornalista americano que foi convidado para participar da Festa Literária de Paraty deste ano e chegou antes, participou da feira e parecia que não ia mais embora, aparecendo por todo canto do país e, mais importante, em todo jornal e revista através de entrevistas e mais entrevistas, talvez até entrevistas demais, disseram alguns.
Entende-se que ele tenha que aparecer no maior número possível de manchetes durante uma viagem que serviu para promover seu novo livro, “Vida de Escritor” (Cia. das Letras, 509p.), mas foi sua reputação e principalmente seu charme que parece ter encantado a mídia brasileira, que perguntou a opinião dele sobre quase tudo, relacionado ao jornalismo ou não.

This charming man
Foram suas idéias sobre o estado atual e o futuro do jornalismo que achei mais interessantes e pertinentes, obviamente. A declaração recorrente em todas as entrevistas e declarações que li, vi ou ouvi foi a de que “os jornalistas estão perto demais do poder”. Um exemplo: alunos das universidades de jornalismo vão às mesmas festas que filhos de “lideranças”, que por sua vez um dia serão a nova liderança, que deverá ser fiscalizada, dentre outros, pelos jornalistas que foram e podem ainda ser do seu convívio.
Também não é preciso ser tão drástico na interpretação desta aproximação. Há o benefício evidente de que estando próximos do poder, os jornalistas bem intencionados possam desmistificar o mesmo, tendo acesso às suas minúcias e trazendo isso para a população, que entenderá como as coisas estão funcionando e que por sua vez poderá decidir se elas ainda servem ou não.
A análise fria de Gay vem de seus 77 anos de vida, muitos deles dedicados à profissão jornalística, vivendo como um “outsider”. Um filho de imigrantes italianos analfabetos que encontrou um emprego em um jornal e aprendeu o ofício na prática. Seus melhores textos continuam sendo aqueles onde ele “estava lá”, mas não se envolveu com seus personagens ou temas. Seu texto mais famoso, “Frank Sinatra has a cold” é um perfil de Sinatra escrito sem ele ter trocado uma palavra sequer com o cantor.

"A-ham!"
Simpatizo mais com a opinião de Talese sobre a necessidade de distanciamento dos jornalistas de seu assunto, seja ele a política ou até mesmo o perfil de uma celebridade. O jornalista deve ser acima de tudo um ouvinte e expectador dos acontecimentos, e um transmissor destas fontes para uma audiência maior.
Para justificar esta posição, trago da ficção e realidade dois exemplos. No filme “Intrigas de Estado” (State of Play, 2009), o jornalista interpretado por Russell Crowe se envolve em uma, bem, “intriga de estado” envolvendo um antigo amigo seu, agora senador dos EUA, que “planta” informações através de seu amigo jornalista para atingir seus objetivos.

"Quebra esse galho pra mim, meu chapa?"
Outro exemplo é de uma realidade bem próxima, aqui do Brasil mesmo, com um documentário sobre a manipulação da imprensa no estado de Minas Gerais, com o objetivo final de fazer de Aécio Neves um candidato “perfeito” para o cargo de presidente da República. Aqui sabemos que existem fatores econômicos envolvidos também (dinheiro de anunciantes ou propinas diretas), mas não deixa de ser a repetição do mesmo tema: a aproximação e até dependência do jornalista com o poder testa os seus princípios e, se você não estiver preparado, compromete sua integridade.
Categorizado em: Atualidade, Comportamento, GenteTags:Atualidade, Comportamento, Gay Talese, jornalismo, poder, política
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A pandemia e a Av. das Torres
Às vésperas de um possível estado de emergência (oficial), continuo embasbacado com a amplitude da inocência ou ignorância de nossa sociedade. Por mais uma semana as aulas foram canceladas, eventos públicos e culturais continuam sendo adiados (eu admito que iria no show do Abba cover) e os que não são são sujeitos a limitações bizarras, como a torcida de um estádio inteiro em Cascavel sendo obrigada a usar máscaras cirúrgicas (por determinação da Justiça!).
Mas nem tudo está perdido. Normalmente no final do meu dia de trabalho me encaminho para o centro da cidade para tomar umas em um boteco ou para algum cinema ou show. Moro no Jardim das Américas, e meu principal elo de comunicação com o centro é a Avenida Comendador Franco, popularmente conhecida como Av. das Torres, devido ao seu extenso canteiro central.
Normalmente entre 6 e 7 da noite esta via está congestionada do Walmart até o acesso ao Capanema e à Rodoferroviária. Para eu que trabalho em casa, era meu esporte assistir às pessoas estressadas saindo de seus trabalhos em São José dos Pinhas e arredores, presas no trânsito, buzinando à beira de um ataque de nervos, à caminho de universidades ou trazendo os filhos de colégios ou cursos na região.

Everybody hurts...
Agora, com a pandemia e as férias prolongadas, a famosa avenida se transformou em uma highway no sentido centro-bairro, e chego no centro em 1/3 do tempo que levava antes. Obrigado pandemia!
Mas ontem eu tive uma visão mais pragmática desta liberdade urbana que ganhei às custas do pânico. Fui ao mercado do bairro neste mesmo horário das 6 às 7 e fiquei chocado com quantidade de pessoas estocando comida! Como se o estado de emergência realmente fosse acontecer.
Posso estar dando uma de Cigarra Cantante aqui, mas de qualquer maneira não acho que será uma gripe que nos levará ao Apocalipse. Depois de ver o supermercado ontem eu desejei um engarrafamento na Av. das Torres novamente, para que tudo voltasse ao normal.

Vamos ser felizes juntos!
Tags:Atualidade, Comportamento, curitiba, Gripe suína, trânsito
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Cores desbotadas
Todos estamos acompanhando a Revolução Verde que varre as ruas de Teerã com bastões e cacetetes e as lava com sangue. Uma tragédia política e social que marcará a História mas, segundo minha opinião, não irá trazer mudança duradoura ao país dos aiatolás.
O que a galerinha do Twitter parece não saber é diferenciar as revoluções coloridas da virada do século XXI e uma Revolução com “r” maiúsculo que fez surgir a República Islâmica do Irã. Para começar, as revoluções coloridas somente aconteceram realmente nas ex-repúblicas soviéticas. As outras receberam nomes de revoluções mas nada mais foram do que protestos, alguns com resultados, outros não.
Outro aspecto que foge ao ativismo imediatista gerado pela Internet foi o desenrolar dessas revoluções, que acabaram em compromisso com o status quo anterior e em alguns casos até o retorno ao ancien régime.
Estou longe de ser um expert nas ditas revoluções. Acompanhei-as pela BBC como qualquer outro nerd, e estou aberto a comentários e correções onde forem cabíveis. Vou exemplificar as duas condições do parágrafo anterior (compromisso e retorno) com os dois exemplos mais conhecidos das revoluções coloridas: a Rosa da Geórgia e a Laranja da Ucrânia.

Será que deixaram ela murchar?
Entre 2003 e 2004, a Geórgia passou por uma situação muito semelhante à do Irã atual, com resultados da eleição disputados com protestos de rua. Uma nova eleição foi realizada e Mikhail Saakashvili recebeu uma votação à la Saddam Hussein: 96% dos votos foram para ele. Difícil de acreditar também, porque desde os primeiros momentos de seu mandato milhares de refugiados e uma massa de desempregados o forçam a cumprir suas promessas. Não conseguindo, parte da Geórgia se volta novamente à Mãe Rússia, o poder regional que a acolheu por tanto tempo. O apoio dos EUA parece ter sido muito aquém do que foi suposto, e Saakashvili está sendo obrigado, à força, a se dobrar aos desígnios russos.
Na Ucrânia, também após eleições contestadas e até uma tentativa de assassinato, Viktor Yushchenko chegou ao cargo de presidente, mas meses depois entregou o cargo de primeiro-ministro ao seu rival, Viktor Yanukovych. (Pode-se dizer que os dois Viktors saíram vitoriosos!) Também a falha em cumprir promessas de campanha (ou poderíamos dizer, promessas revolucionárias) levou a Revolução Laranja ao caminho do comprometimento e, com a provável eleição de Yulia Tymoshenko em 2010 o que veremos é mais uma fraca tentativa de sair da esfera russa pois uma das propostas principais da candidata é fazer a Ucrânia entrar para a União Européia “sem antagonizar a Rússia”. Se isso não fosse falho o suficiente, o comportamento populista da candidata não inspira confiança.

Propaganda de Yulia Tymoshenko
Vivemos uma era de ansiedade por transformações radicais que possam salvar nossa cidade, país e planeta mas parece que por mais que tenhamos evoluído em ferramentas, ainda carecemos de métodos revolucionários que tornem seus efeitos duradouros.
Categorizado em: Round 1Tags:Atualidade, contra-revolução, EUA, Geórgia, revolução, revoluções coloridas, Rússia, Ucrânia
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