Dia desses na fila expressa do mercado encontrei uma prateleira giratória de livros (lugar esperto de se vender livros, vamos combinar). Nela um título me chamou a atenção: “A arte de escrever” (LP&M, 169 páginas), do filósofo alemão (Arthur) Schopenhauer. Não me considero apto a discutir muito no campo da Filosofia, muito menos a História da mesma, mas a fama deste rabugento pensador já virou cultura pop, e nisso eu entro de cabeça sem medo de ser feliz.
Ou melhor, entrava. O livro é na verdade um apanhado de alguns capítulos da obra que tornou Schopenhauer famoso, “Parerga und Paralipomena” (algo do tipo “Acessórios e remanescentes”), eles mesmo divididos em pequenas pílulas de fel contra o mercado editorial e os eruditos da época, mas não poupa qualquer um que cruzasse a mente do autor enquanto este escrevia.
Especialmente dolorido de ler foram os capítulos “Pensar por si mesmo” e “Sobre a escrita e o estilo”. Foram de tirar o ar do pulmão, por vezes com riso, como na passagem onde ele pede do leitor uma vaia para os “gastadores de tinta” da Alemanha do seu tempo, mas por outras com um medo profundo da total irrelevância, ou até mesmo criminalidade segundo ele, do que eu faço aqui no blog: eu vejo um assunto, uma idéia, junto alguns parágrafos e publico. Tudo isso em uma questão de horas, às vezes minutos.
Para Schopenhauer, é preciso ler os clássicos, mas não muito, pensar, ruminar e, se por acaso tiver uma idéia original, juntada com a prática, daí sim você pode publicar seus pensamentos, que mesmo assim são uma versão endurecida dos mesmos e por isso não são tão belos ou valorosos. Melhor simplesmente não publicar nada, se ater ao que já está escrito e deixar ele fazer o resto.
Às vezes me pego lendo antigos posts, e remoendo escolhas pobres de estilo ou até mesmo de idéias. Segundo os ensinamentos do alemão famoso por copiar a máxima budista de “viver é sofrer”, eu poderia evitar este sofrimento e simplesmente morrer. “Bloguisticamente” falando, é claro (a criação de palavras desta maneira faria o velho se remexer no caixão).
Porém, analisando o restante da blogosfera e da cultura pop que recicla tudo em ciclos de 30 anos (Schopenhauer também descreve estes ciclos entre os eruditos), blogs como o nosso são necessários. Seja para mostrar nossas idéias ou colar as idéias de outros, para que os visitantes aumentem ou vejam assuntos por nossos olhos, e nós pelos deles (no caso de comentários).
Madonna, Bono, são vocês?
O blog não é um livro. Não é um tratado filosófico. Ao menos não o nosso. É uma colagem colaborativa, mesmo quando não tem comentários. De Aristóteles a Lady Gaga, a publicação diária mesmo entre nossos compromissos do mundo real não deixam de ser um “pensar por si mesmo” e, na discussão e formulação dos textos e até buscando imagens, um “pensar por nós mesmos”.











