Destinos cruzados

Mesmo que a Rússia se complete nela mesma, com seu território, cultura e povo, ela tem anseios imperiais. Todos eles estratégicos. É como uma família aristocrata conseguindo o melhor campo de feno para seus cavalos, e os melhores serviçais para cuidar dos estábulos.

No filme quem assume este papel é a Chechênia, que deseja a independência a qualquer custo, que foi pago em dobro entre 1994 e 1996 e depois em outro período de violência que foi de  1999 até recentemente, sem conseguir efetivamente o que queriam. O resultado foi uma paz negociada, com um governo submisso à Moscou e algumas garantias mínimas de soberania.

O clima entre Alexandra e uma vendedora do mercado negro na cidade próxima à base militar onde se passa o filme é de cordialidade, até de familiaridade por terem tanta experiência em “serem” quem são. Nota-se uma humildade extremada da senhora que representaria a província rebelde. Ela sabe que não pode vencer, mas mesmo assim se mantém civilizada.

Diferente dos soldados, que tentam bestializar o lado inimigo para deixar sua tarefa mais suportável. Chega-se a tocar nesse assunto no filme também.

Em uma perspectiva mais aberta, encerra-se o filme com Alexandra sendo levada ao trem por três mulheres chechenas: uma jovem, uma adulta e uma idosa. Esta tríade pode ser associada às Moiras, que na mitologia grega decidiam o destino dos mortais tecendo os fios que representavam cada vida. A mais velha, ao invés de olhar para o trem partindo, olha para trás para sua terra arrasada, ainda longe da liberdade.

Talvez ela esteja sonhando um destino para seus filhos também.

por dougspadotto em Round 5 e ainda não tem comentários

A abstração do masculino em "Alexandra"

Uma vez que feita a associação da personagem da avó com a abstração da “Mãe Rússia” que existe na psiquê tanto russa quanto global, uma reação natural é encontrar um “pai” para esta mãe, e definir como seria a sua família. Em outras palavras, o povo russo.

Oportunidades para isso não faltam. Da cena que talvez possamos identificar como ápice do filme, quando a simpática senhora recebe um abraço de seu neto soldado e o elogia pelo seu cheiro, pela sua força, ela mostra o lado terno e carente de proteção desta mãe, ao mesmo tempo que no início do filme ela cobra do neto higiene e o chama de “camponês” por ser desleixado. É a mãe Rússia da virada do século XIX, empurrando na marra o povo em direção ao desenvolvimento.

Este empurrão foi tão forte que no século XX a avó consegue um marido severo, “que só falava aos gritos” segundo o neto. Este marido pode ser associado ao regime comunista que maltratou a avó, mas mesmo assim ela não chega a condená-lo. Só diz que foi difícil viver com ele. De fato, durante os anos sob Stálin, a motherland (Родина-мать) passou a ser chamada de fatherland (Отечество), termo que volta à moda agora com Vladimir Putin.

A avó aparece no meio da guerra da Chechênia, deslocada, mas certa de quem ela é e do que espera dos seus filhos, que é força, união e respeito, valores que são vistos em todas as interações dela com os soldados, e também com a população local, mesmo que estes valores são mais conseqüência da imposição da força do que da inclusão em uma família.

Uma família disfuncional com certeza. A Rússia tem proporções continentais, e para manter a união é necessária muita força, muita doutrinação e esforço, o que faz com que as relações dela com o mundo exterior fique difícil. Até neste ponto o diretor parece encaixar uma metáfora, revelando a dificuldade do soldado-neto de encontrar uma esposa. A avó vez por outra fala “eu vou encontrar uma noiva para você”.

Mas, da cena emblemática do abraço dos dois, pode-se ver que esta família continuará a ter problemas em se relacionar com o restante das famílias mundiais, tão absortos que eles estão em seus próprios valores.

Uma família que se completa

Uma família que se completa

por dougspadotto em Round 3 e ainda não tem comentários

Uma guerreira tranqüila

O final de semana terminou e, ao invés de ballet e música experimental, o cinema de arte foi a redenção cultural para estes dias frios e úmidos do indeciso começo de inverno de Curitiba.

"Eu disse cinema de ARTE! Seu $@&#!"

"Eu disse cinema de ARTE! Seu $@&#!"

Agora quando a semana está prestes a começar volto da exibição do filme “Alexandra” (“Александра”, 2007), do prolífico e brilhante diretor Aleksandr Sokurov. Mesmo com todo o frio lá fora, a singela história de uma babushka que visita seu neto em um quartel na Checênia é capaz de aquecer qualquer coração além de, para o observador atento disparar uma cadeia de sinapses sobre História (russa), família, boa vizinhança e até mitologia!

Para alguns, descrever este filme como uma “história” pode soar ridículo, pois o formato clássico de começo/meio/fim não existe. Não há drama. É uma série de seqüências em que todas poderiam ser começo, meio ou fim. Este é um filme de arte no senso mais puro do termo. Exploração do audiovisual para transmitir idéias e sentimentos da forma mais harmoniosa possível.

Vamos expor nesta série de posts algumas das idéias e interpretações que este filme nos trouxe, desde o pessoal até o geopolítico, passando pelo histórico e mitológico. Vamos rotular todos os posts com a tag Alexandra para ajudar na leitura. Junte-se à nós e comente!

por dougspadotto em Round 1 e tem 1 comentário
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