Eu andava meio devagar com os posts… Entre eu e o Everton o blog ia naquele ritmo mineiro que prometi que os posts do Vinícius teriam quando, de repente…
Ataque humanitário!
Um grupo de hackers feminino (Pink_spider) atacou o site, alterando o index do tema atual com mensagens e imagens chocantes contra a fome mundial. Ataque básico, mas não sei ao certo como conseguiram. Já alterei as senhas dos sistemas que sustentam o blog e continuamos vivos e bem depois do susto.
Parabéns meninas, Ada Lovelace ficaria orgulhosa de vocês! Nos deram um presente de 400 posts. Este aqui é o #401 que, na lista de códigos de retorno do protocolo http significa “Não Autorizado”, a mensagem que futuros ataques aracnídeos receberão.
Dia desses na fila expressa do mercado encontrei uma prateleira giratória de livros (lugar esperto de se vender livros, vamos combinar). Nela um título me chamou a atenção: “A arte de escrever” (LP&M, 169 páginas), do filósofo alemão (Arthur) Schopenhauer. Não me considero apto a discutir muito no campo da Filosofia, muito menos a História da mesma, mas a fama deste rabugento pensador já virou cultura pop, e nisso eu entro de cabeça sem medo de ser feliz.
Ou melhor, entrava. O livro é na verdade um apanhado de alguns capítulos da obra que tornou Schopenhauer famoso, “Parerga und Paralipomena” (algo do tipo “Acessórios e remanescentes”), eles mesmo divididos em pequenas pílulas de fel contra o mercado editorial e os eruditos da época, mas não poupa qualquer um que cruzasse a mente do autor enquanto este escrevia.
Cara de poucos amigos
Especialmente dolorido de ler foram os capítulos “Pensar por si mesmo” e “Sobre a escrita e o estilo”. Foram de tirar o ar do pulmão, por vezes com riso, como na passagem onde ele pede do leitor uma vaia para os “gastadores de tinta” da Alemanha do seu tempo, mas por outras com um medo profundo da total irrelevância, ou até mesmo criminalidade segundo ele, do que eu faço aqui no blog: eu vejo um assunto, uma idéia, junto alguns parágrafos e publico. Tudo isso em uma questão de horas, às vezes minutos.
Para Schopenhauer, é preciso ler os clássicos, mas não muito, pensar, ruminar e, se por acaso tiver uma idéia original, juntada com a prática, daí sim você pode publicar seus pensamentos, que mesmo assim são uma versão endurecida dos mesmos e por isso não são tão belos ou valorosos. Melhor simplesmente não publicar nada, se ater ao que já está escrito e deixar ele fazer o resto.
Às vezes me pego lendo antigos posts, e remoendo escolhas pobres de estilo ou até mesmo de idéias. Segundo os ensinamentos do alemão famoso por copiar a máxima budista de “viver é sofrer”, eu poderia evitar este sofrimento e simplesmente morrer. “Bloguisticamente” falando, é claro (a criação de palavras desta maneira faria o velho se remexer no caixão).
Porém, analisando o restante da blogosfera e da cultura pop que recicla tudo em ciclos de 30 anos (Schopenhauer também descreve estes ciclos entre os eruditos), blogs como o nosso são necessários. Seja para mostrar nossas idéias ou colar as idéias de outros, para que os visitantes aumentem ou vejam assuntos por nossos olhos, e nós pelos deles (no caso de comentários).
Madonna, Bono, são vocês?
O blog não é um livro. Não é um tratado filosófico. Ao menos não o nosso. É uma colagem colaborativa, mesmo quando não tem comentários. De Aristóteles a Lady Gaga, a publicação diária mesmo entre nossos compromissos do mundo real não deixam de ser um “pensar por si mesmo” e, na discussão e formulação dos textos e até buscando imagens, um “pensar por nós mesmos”.
No dia 21 do mês passado este blog completou seu primeiro ano de existência. Primeiro! Eu ainda tenho dificuldade em acreditar que faz tão pouco tempo. Parecem pelo menos três! Eu estava me bronzeando na Escandinávia e longe de qualquer computador, então fiquei todo este tempo fora, e como estas pequenas férias offline passaram rápido em comparação!
Dos primeiros posts com cowboys metafísicos e o Poderoso Chefão como cânone da cultura ocidental em trocas relâmpago com minha cara co-editora original (faz pouco mais de seis meses desde o “cisma”?) aos atuais posts popularíssimos do Everton (Topete) e as contribuições eventuais mas caras de Alexandre (Cabelo), Cristiano, Willian e Vinícius, este blog já passou por tanta coisa, e com ele o Mundo, e com ele, eu. Nós.
Até um filme de Star Trek sem o Piccard tivemos neste ano!
Em “Jornada nas Estrelas: Insurreição” (Star Trek: Insurrection, 1998) os Ba’ku, uma raça de imortais, tem como filosofia que “todo o Mundo cabe em um momento perfeito, e você pode viver nele”. Mesmo sendo imortais, a percepção do momento para esta raça era algo inestimável. A imortalidade desta forma passava como o vento, mesmo não indo a lugar algum.
Sinto um pouco disso olhando para trás na história de um ano deste blog. Prestando atenção aos arredores, seja para brincar, criticar, procurar idéias novas ou simplesmente exercitar o cérebro e os dedos, o tempo pareceu congelar, se movendo devagar, o contrário do que a maioria das pessoas experimenta no seu cotidiano atribulado sem tempo para nada. Nestes momentos congelados, que já parecem tão distantes no passado, um post, link ou vídeo era o Mundo todo enquanto era escrito (e depois lido), por ser algo que reunia as condições dos arredores e o imortalizava em texto e referências. O momento era pensado, e isso o carregava deste valor metafísico impossível de quantificar.
A filosofia simples de Jornada nas Estrelas na verdade tem raízes na ioga tibetana, onde já ouvi falar que prestar atenção ao momento é muito importante. No budismo em geral a “mindfulness” é perseguida (ou não, para os zen budistas, hehe). Até em Friends ela aparece, com o “unagi” do Ross, lembram?
Com este post marco este pequeno retorno, e espero que quem ler o blog também experimente os benefícios das nossas doses diárias de momentos nem tão perfeitos assim, mas que fazem o tempo e o Mundo muito mais divertidos de serem apreciados.
P.S.: Tem layout novo por aí, aguardem! Mesmo com o andar do tempo alterado no blog, fora dele a correria do dia-a-dia impede algumas melhorias estéticas que demandam tempo.
Quebrado de um treino de rugby, no qual cheguei atrasado porque esta tirinha tem muito a ver com o atual estado do blog. Ajustes para não só servir conteúdo mas aumentar a interatividade.
Alguns de vocês que visitaram o blog ontem à tarde ou que viram o feed de RSS devem estar se perguntando o que aconteceu. Posso garantir que está tudo bem, o susto passou.
Voltando do hospital ironicamente sentei para assistir o episódio mais recente de House MD. Precisava de qualquer coisa para descarregar, e nada como seriados enlatados para fazer isso. Mas qual foi minha surpresa quando o paciente da vez foi uma blogueira que publicava online tudo que acontecia na sua vida offline.
O episódio foi cheio das reviravoltas usuais, mas logo no começo o argumento “privacidade x comunidade” foi trazido em algumas cenas. O dr. Taub, mesmo sendo um adúltero reformado, defendeu que a privacidade é uma invenção moderna. Sem segredos você tem comunidade, e a proteção resultante. House disparou que é bem por este motivo que as pessoas se mudam de vilarejos para as cidades grandes.
Blogs, micro-blogs e redes sociais podem ajudar a nos aproximar, sem dúvida. Mas não podem substituir o contato com a vida real, com pessoas de verdade e, principalmente, não podem servir como ferramentas de decisão. Não é porque um desconhecido em Angola comentou que você estava certo em não tomar um certo remédio que você irá parar.
Claro que o exemplo é extremo. É ficção. Um blog pode ser uma válvula de escape de seus pensamentos mais íntimos. Mesmo que direcionados a algo ou alguém, às vezes é melhor pensar em um post como uma catarse que começa e termina nela mesma. Joga-se toda (ou alguma) de sua energia criativa na massa disforme dos seus pensamentos e cria-se um cinzeiro mesmo que você não fume, ou um vaso que você vai dar para alguém que vai usar por um tempo e depois jogar fora.
Nunca considerei posts ou micro-posts como reais pedidos de ajuda, ou chamados à revolução. Considero-os pequenos cinzeiros e vasos que vou construindo, praticando para um dia talvez moldar uma jarra bonita. Mas depois de hoje, do meu episódio real de House, eu aprendi que não são todos que se comportam assim. Existem pessoas buscando um certo sentido de comunidade, proteção ou simplesmente uma audiência para aliviar as pressões do dia-a-dia, que aparentemente só aumentam quando se corta muito perto do osso e se escolhe revelar segredos pelas metades em uma coleção de links qualquer.
Estamos engatinhando para uma nova forma de comunidade, talvez agora levando em conta a recente a adição da privacidade neste conceito tão avesso a mesma. É normal acontecerem alguns tombos enquanto tentamos ficar de pé. Mas é bom saber que podemos nos apoiar uns nos outros para superar os obstáculos, sejam eles reais ou virtuais.