Archive for the 'Cinema' Category

Relacionamento Especial

Entre as frestas dos grandes lançamentos, estão aqueles filmes que ficam poucas semanas em cartaz, às vezes tão poucas que nem dá tempo de assistir no cinema. Ficam escondidos nestas frestas até um dia você os encontrar novamente, como uma moeda de 1 real debaixo da almofada do sofá. Mas o encontro com a moeda não foi completamente involuntário. Você teve que levantar a almofada para encontrar, ou ser encontrado, pela moeda.

É este pequeno esforço de “levantar a almofada” que é necessário para transformar o mais recente filme de Roman Polanski, “O Escritor Fantasma” (The Ghost Writer, 2010) em uma experiência cinematográfica perfeita, especialmente para os fãs do gênero thriller, com um pé em teorias da conspiração, História e eventos atuais.

Com o charme característico dos filmes de Polanski, se a história de um “escritor fantasma” (escritores contratados para escreverem biografias de figuras importantes sem tempo e/ou talento para escreverem as próprias memórias), vivido por Ewan McGregor, que é contratado para finalizar a biografia de um ex-primeiro ministro britânico (Pierce Brosnan) após seu assessor e fantasma anterior morrer em situações suspeitas não prender a atenção, só o charme com certeza irá prender o espectador. Uma trilha sonora suave que surpreende em alguns momentos, o tom soturno das cores e as química sutil do elenco são um prato completo.

Mas, vamos tirar a almofada. Dentro da trama de mistério, o roteiro busca de forma ficcional (e desperta uma reflexão de forma real) a origem do “relacionamento especial” entre Estados Unidos e Inglaterra, especialmente no contexto da “Guerra ao Terror”. Desde a Primeira Guerra Mundial, e especialmente depois da Segunda e durante os governos Reagan/Thatcher, estes dois países se comportaram praticamente como um só perante os desafios globais, e na maioria das vezes com posições contrárias às do restante do Mundo.

O roteiro também se aproxima da vida do próprio diretor. O personagem de Pierce Brosnan é forçado a ficar nos EUA por este país não ter acordo de extradição com o Tribunal de Crimes Internacionais. Polanski recentemente foi preso na Suíça a pedido dos EUA, mas teve o pedido de extradição negado e logo após foi libertado. Impossível não fazer o paralelo e ver a situação como um deboche ao país que o persegue há mais de 30 anos.

Por estas frestas, mercadológicas, políticas e judiciais, que o diretor franco-polonês continua sua brilhante carreira artística, reconhecido pelo Mundo todo, menos pelos Estados Unidos e seu atual cachorrinho-de-colo, a antes poderosa Inglaterra.

por dougspadotto em Arte,Atualidade,Cinema,História e ainda não tem comentários

Blackstar Warrior

Para começar uma boa semana… “get between this brother and his woman… and space ain’t black enough to hide from him!”:

por dougspadotto em Arte,Cinema,Na Web e ainda não tem comentários

Mais estranho que a ficção

Ultimamente tenho encarado uns filmes cada vez mais esquisitos. Michel Gondry seria um Spielberg comparado com Taika Waititi (de Eagle vs Shark, comentado aqui) ou com Jared Hess,  que guiou um  filme que nem deu sinal de aportar por aqui, “Gentlemen Broncos” (2009). Além de Jemaine Clement (da banda Flight of the Conchords), estes dois filmes tem algo mais em comum: são simplesmente sobre a vida, como cada coisa que acontece nela é esquisita, linda e mágica, tudo ao mesmo tempo.

“Gentlemen Broncos” conta a história do adolescente Benjamin Purvis, educado em casa por sua criativa mãe Judith, e escritor de histórias de ficção científica em tempo quase integral, quando não trabalha no shopping vendendo camisolas para senhoras. Em um festival para jovens escritores em algum remoto interior dos EUA, onde os anos 80 parecem durar para sempre, ele encontra o dr. Ronald Chevalier (Clement), um escritor sem talento porém cheio de si. Sem idéias próprias, ele adapta uma história de Benjamin, que ao mesmo tempo tem que viver com outra adaptação do seu trabalho, esta autorizada, na forma de um filme quase caseiro produzido por sua indeterminada relação Tabatha (Halley Feiffer).


Como “Eagle vs Shark” foi sobre as esquisitices do amor, “Gentlemen Broncos”, além de insanamente divertido, é sobre crescer, se adaptar ao Mundo mesmo com as coisas não indo do seu jeito. Relevar os abusos da realidade contra a sua versão imaginada do que a vida deve ser. E revidar quando necessário (e se possível ao som de Black Sabbath).

Os filmes anteriores deste diretor, Nacho Libre e Napoleon Dynamite, falharam comigo, respectivamente pela overdose de Jack Black e falta de conexão com a minha atualidade. Este, mesmo sendo sobre um adolescente em algum fim de Mundo sonhando com algo maior, me pegou do começo ao fim. Além de todo o fator “feel good” da trilha sonora oitentista, do ambiente criado pelo cenário e figurino e da história cativante, as seqüências das diversas adaptações do livro de Benjamin são impagáveis, tanto pela criatividade do diretor quanto a atuação caricata espetacular de Sam Rockwell.

Ao invés de ser derrubado pela vida, continue sonhando. Uma mensagem tão brega quanto esta só poderia permear um filme esquisito como este, tão esquisito quanto a vida que devemos levar por este lema.

P.S.: O trailer do filme você vê aqui. E o filme está nas locadoras ou no site de torrents mais próximo de você. Dado que você está lendo um blog e não esperando em um semáforo ou ponto de ônibus, acho que a escolha é fácil. Btjunkie, talvez?

por dougspadotto em Arte,Cinema e ainda não tem comentários

Águia contra Tubarão

Nesta noite de domingo ao invés de me submeter ao terrorismo do Fantástico e ao terror dos “curtas” da Revista RPC eu decidi assistir a um “antigo recente” desejo cinematográfico meu, o filme neo-zelandês “Eagle vs. Shark” (2007). Entrei novamente em uma fase de Flight of the Conchords e como metade da banda, na pessoa de Jemaine Clement, estava no filme e o trailer era simplesmente fantástico (anexo no final do post), não deu outra. Comprei o DVD, paguei 60% de taxa de importação e… brincadeirinha. Baixei como torrent e enrolado em uma coberta descobri muito mais do que esperava. Não é bom quando as coisas são assim inesperadas?

Para o espectador desavisado (ou impaciente), o filme pode parecer uma coleção de freaks, característico de um filme patrocinado pela fundação Sundance. Mas olhe um pouquinho abaixo da superfície e você descobrirá ouro. A atuação da Loren Horsley, protagonista e também criadora desta estranha história de amor é genial, dando vida a uma personagem que avança a passos largos para se tornar… ela mesma.

A esquisita balconista Lily vive uma paixão secreta pelo ainda mais esquisito e “complexo” Jarrod (Jemaine), um artista que trabalha em uma loja de eletrônicos e que vem se preparando há anos para se vingar de seu “nemesis” de colégio.

É nos momentos finais desta vendetta que Jarrod e Lily se conhecem e automaticamente ficam juntos. Eles voltam à cidade de natal do rapaz para encontrar a paz na forma de uma luta final, mas antes a família disfuncional, com uma boa dose de segredos e revelações, e o próprio Jarrod, tentando encontrar problemas onde eles não existem, arrastam Lily para o papel de líder de uma transformação sem movimentos, dramas nem fugas. Uma mudança dela mesma e de todos estes que os cercam, para aceitarem quem eles são e simplesmente serem felizes juntos.

Cada pequena cena, por mais absurda e às vezes até incômoda em sua esquisitice, carrega um sentimento bonito. E não poderíamos esperar menos de uma história de amor, este poder transformador que nos deixa todos iguais e tão… esquisitos.

“I have 2 things to say: One, I’m leaving tomorrow. Two, that could change.”

por dougspadotto em Arte,Cinema e tem 1 comentário

Camaleões e sapos

Continuando as comemorações do dia da Mandioca, apresento um trecho do filme “A Montanha Sagrada” (The Holy Mountain, 1973) que tive o privilégio de assistir ontem:

Simplesmente genial! Logo vou me educar mais em Jodorowsky e apresentar/comentar seus feitos multimídia tão a frente do seu tempo. Já tinha lido a sua contribuição para os quadrinhos, Incal, mas “A Montanha Sagrada” foi o primeiro filme dele que eu vi (apesar de já ser um de seus admiradores via a reputação cult de El Topo).

por dougspadotto em Arte,Cinema,História e ainda não tem comentários
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