O Credo do Samurai

Finalizando a série de textos de introdução do Bushido (os outros posts O caminho do Guerreiro e As 7 virtudes do Bushido, Só mudam as ferramentas), segue um poema entitulado “O Credo do Samurai”. Este poema foi o prefácio de uma cópia do Sun Tzu – A arte da guerra, escrito a 2400 anos atrás. O poema em si é atribuido a um Samurai desconhecido do século 14. Acredita-se que esse poema foi uma tentativa de se escrever o que não era escrito, apenas passado verbalmente de mestre para aprendiz, de senhor para servo, e de pai para filho sobre o Bushido.

A parte em negrito é o poema em sí, como foi traduzido do inglês. Enjoy.

O Credo do Samurai

Eu não tenho Pais;
Eu faço do Céu e da Terra meus Pais

Não significa descartar as figuras paternas,
mas ver a si mesmo como um filho do Universo.
Um ser feito da mesma matéria e energia que todas as coisas.

Eu não tenho Poderes Divinos;
Eu faço da minha Honestidade meu Poder Divino.

O poder da verdade e da honestidade com o mundo e todos seus representantes,
sem devaneios, apenas a realidade na mente, equivale à graça divina.

Eu não tenho Lar;
Eu faço de Tan T’ien meu Lar.

O Tan T’ien é o nome dado ao nosso Eu interior… lá , e somente lá o Samurai está em casa.
Lar não é um lugar, lugares mudam, são vulneráveis, o Lar da própria mente no entanto é eterno.

Eu não tenho Meios;
Eu faço da Docilidade meus Meios.

Humildade e aceitar o que o destino te determinou.
O Bushido é mais importante do que riqueza e notoriedade, o Samurai leva sua vida de acordo com ele, sem desperdiçar tempo à caça de fama e fortuna.
Obediência e lealdade ao Daimiyo é o unico meio de que o Samurai precisa.

Sua docilidade lhe proverá de tudo.

Eu não tenho Poderes Mágicos;
Eu faço da minha Personalidade meus Poderes Mágicos.

Auto explicativo. Sua personalidade é o seu poder, é a única mágica que você realmente possui, e tudo oque você realmente precisa.

Eu não tenho Vida nem Morte;
Eu faço de A Um minha Vida e Morte.

A Um é o nome dado à alma imortal, eterna.
É o estado do espirito entre uma encarnação e a próxima.
Tsunetomo Yamamoto diz em seu livro (um dos mais compreensivos sobre o Bushido), O Hagakure :
“…O Caminho do Samurai, se encontra na morte…”
Toda a vida do Samurai é uma preparação para uma morte digna.

A visão da vida como um estado transitório, apenas mais um ciclo de sua existência, assim como a morte.

Eu não tenho Corpo;
Eu faço do Estoicismo meu Corpo.

Para um guerreiro, ser estóico perante a batalha é a maior virtude.
Para o Samurai, nós não somos carne. Somos espírito, somos atitude.
Não é o quanto nós vivemos, mas como nós vivemos o que realmente importa.
O Grande Samurai Miyamoto Musashi costumava dizer:
“A vida de alguém é limitada, honra e respeito são eternos.”

Eu não tenho Olhos;
Eu faço do Raio do Relâmpago os meus Olhos.

Nossos olhos são ferramentas fantásticas, mas mesmo quando perfeitos, podem nos pregar peças.
Mágicos ilusionistas, Cinema e a TV são provas disso.
O Samurai treina para atingir um estado mental chamado de Mushin, com a mente calma e vazia, e como os olhos observando o mundo como através de uma lente grande angular, que como o relâmpago, vê o todo num instante.
Ter confiança na conexão do A Um com o Universo, e sua intuição.

Eu não tenho Ouvidos;
Eu faço da minha Sensibilidade meus Ouvidos.

Não crer no que você ouve só por que está ouvindo aquilo.
Analise com sensibilidade, razão e lógica.
Palavras não querem dizer nada até serem processadas com inteligência.

Eu não tenho Membros;
Eu faço da minha Prontidão meus Membros.

Ninguém precisa pensar para andar, os movimentos simplesmente acontecem.
O Samurai não precisa pensar no que fazer para se defender, apenas que estar em prontidão para saber a hora de se defender, os movimentos, vem naturalmente, como andar.

Eu não tenho Leis;
Eu faço da Proteção Pessoal minha Lei.

Apesar do conceito de vida do Samurai ser bem mais amplo, este cultiva grande apreço pela própria integridade, pela aptidão a estar pronto para lutar.
O ritual diário do Samurai, é intrinsicamente ligado ao seu relacionamento com a espada, envolve várias minucias que incluem o jeito certo de andar, sentar-se, fazer reverência, e até descansar sempre sem perder de vista a forma mais eficiente de desembainhar a espada e entrar em combate em caso de perigo.
O Samurai vai sim defender seu senhor com a vida, mas sem se descuidar da própria.

Eu não tenho Estratégia;
Eu faço do “Direito de Matar e Restaurar Vida” minha Estratégia.

Herança do Xintoísmo, e seu preceito de que “A espada que derrota o mal, restaura a vida”.
Hoje pode ser interpretado de forma mais leve, aquele que combate a injustiça de uma forma geral, restaura a vida.
Mas a frase se refere ao Japão feudal, quando ainda não existia um estado unificado e as leis e a ordem eram impostas sob o fio da espada.
Então, quando um facínora era morto, sua morte beneficiava a vida de todos os demais, pois estes não mais seriam importunados por ele, tornando a existência deles melhor, de certa forma restaurando-lhes a vida.

Eu não tenho Planos;
Eu faço da “Captura das Oportunidades pelos Colarinhos” meus Planos.

Mais uma vez um indicativo de como viver um momento por vez é importante para o Samurai.
O Bushi vivia em uma época de poucas constantes, basta nos lembrar que a localização e geografia do Japão,
com seus tufões, terremotos e clima rigoroso, fazem dele até hoje um ambiente inóspito.
Some-se a isso guerras entre clãs e duelos pessoais, e vai ter ideia do porque o Samurai valorizava tanto cada momento.

O Samurai vive cada momento como se fosse o ultimo daquela existência. Apesar de ver a vida de uma forma mais ampla,
cada ciclo de existência gera um karma, levar bom karma para a próxima vida (através de uma morte digna) é seu unico propósito.

Eu não tenho Milagres;
Eu faço das Leis Justas meu Milagre.

As leis justas são as leis da natureza,
que é o maior milagre de todos.

Eu não tenho Princípios;
Eu faço da Adaptabilidade a todas as circunstâncias meu Princípio.

Uma das lendas nipônicas sobre a origem do Jiu-Jutsu, chamada “A cerejeira e o Salgueiro“, conta a história de um médico e filósofo chamado Shirobey Akiyama.
Precursor da medicina psicossomática ele também deu origem à uma das maiores heranças do Japão observando o comportamento dos galhos de cerejeira e do salgueiro sob a neve.
Os galhos da cerejeira permaneciam firmes enquanto a neve se acumulava, até o ponto em que não suportavam mais o peso e se quebravam.
Os galhos do salgueiro por sua vez, iam sedendo até o ponto que a neve caía de cima deles e estes voltavam à posição inicial.
Em resumo, devemos ser resilientes para não quebrar.

Eu não tenho Táticas;
Eu faço do Vazio e do Pleno as minhas Táticas.

O caminho do vazio é o caminho do início, onde todas as coisas são novas, onde cada novo passo é um estado de graça.
Ser pleno, é perceber o mundo com a admiração que tinhamos quando crianças, quando tudo era novo e impressionante.
Nós planejamos muito. Vivemos tão longe no futuro, que às vezes nos esquecemos do aqui e agora, onde as nossas vidas estão acontecendo.

Eu não tenho Talento;
Eu faço da minha Perspicácia meu Talento.

Não precisamos de talento, tudo o que precisamos é de uma mente apta a ver e entender, e podemos saber tudo, e ser tudo pois aprenderemos conforme seguimos adiante.

Eu não tenho Amigos;
Eu faço da minha Mente minha Amiga.

Nós vivemos muito dependentes de outras pessoas, para companhia, para o amor, para a felicidade.
Se queremos ser felizes, devemos ser felizes com a pessoa com a qual nós já nascemos, nós mesmos.

Eu não tenho Inimigos;
Eu faço da Inadvertência meu Inimigo.

As palavras impensadas, a coisa errada feita às pressas.
Estes são os inimigos.
Coisas feitas sem cautela são nossa unica ruína.

Eu não tenho Armadura;
Eu faço da minha Benevolência minha Armadura.

Não precisa de armadura aquele que não corre perigo.
Não corre perigo aquele que não oferece perigo e é benevolente.
Isso significa que nunca teremos problemas? Claro que não, apenas que não vamos procura-lo.
A armadura te dá uma falsa sensação de segurança. Ausência de culpa e sabedoria são nossas unicas reais defesas.

Sem culpa, sem punição, e sábio não se colocar no caminho de problemas ou perigo.

Eu não tenho Castelo;
Eu faço da Mente Impassível meu Castelo.

Castelos são grandes pedras empilhadas como um jogo de blocos para crianças, apenas maiores…
Castelos com suas torres e cidadelas eram visões dissuasivas, mas não impenetraveis, e isso já a vários séculos atrás. Com o advento dos novos meios de guerra (Bunker-busters, armas termobáricas, laser de estado sólido aerotransportado, etc…) a mais incrível fortificação pode ser feita em migalhas em um piscar de olhos… Nosso único e sacrossanto refúgio é nossa mente, onde podemos realmente ser intocáveis.

Eu não tenho Espada;
Eu faço de Mushin minha Espada.

Mushin é o estado mental do vazio,
da perfeição do zero.
Um estado mental de puro potencial,
sem a busca pelas ações e portanto pronto para qualquer coisa.

Se entrar em confronto, seu rival é todo o adversário de que você precisa,
deixe de lado o embate consigo mesmo,
seus conceitos e preconceitos não tem valia, são uma carga dispensável neste momento.

Em mushin estamos a encargo do incrivel potencial latente do nosso subconciente.

Eu  gostaria de lembrar que eu sou apenas um Kenshi não graduado e entusiasta do Bushido, não sou nenhum tipo de autoridade sobre o assunto, por isso e este texto não serve de referencia. Se você gostou e quer saber mais sobre o Bushido a internet é farta em material para estudos, mas eu recomendo que também apele aos livros e procure um Dojo em sua região, peça a um mestre graduado que te oriente. Se você é Kenshi, praticante de qualquer outra arte do Budo, ou apenas mais um entusiasta, e discorda de qualquer coisa que eu escrevi, por favor não julgue, manifeste sua opinião, eu ficaria muito grato pois seria da grande valia para meu próprio desenvolvimento.

Muito grato pela atenção, espero que tenha gostado da leitura e até mais ver.

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3 comentários para “O Credo do Samurai”

  1. Caro Bushi, obrigado por partilhar conosco este texto. Gostei muito das explicações filosóficas por detrás de cada “Credo”, comprimentos.

  2. Warllen Pantuzzo disse:

    Tenho procurado um caminho para seguir a 33 anos. Sempre me senti ligado ao codigo samurai, mas acreditava ser inviável nos dias de hoje. Porêm, seu texto tirou a venda dos meus olhos e me mostrou a direção correta. Obrigado meu irmão.

  3. yamaue disse:

    Obrigado pelos comentários e por ler nosso blog. Ficamos muito satisfeitos em ajudar.

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