O olho do furacão

A crítica de arte é importante. É uma das origens da discussão que leva a apreciação completa de uma obra. Mais do que uma recomendação do que assistir/ouvir/experimentar, ela ajuda no “depois” da experiência. Ler várias críticas diferentes de um filme por exemplo é um prazer imenso, com cada take sobre as imagens e história aumentando em ordens de magnitude o valor da sessão.

No caso do desafortunadamente entitulado “Amor sem Escalas” (Up in the Air, 2009) a crítica na imprensa brasileira mais parece um eco (eco, eco, eco…). O filme “é sobre” (o que já arrepia os mais formais) relacionamentos em uma era digital. Ponto.

Hein?

Ponto perdido. Me permitam levantar a voz sobre o eco e adicionar à discussão que um dos temas mais fortes do filme é a busca de objetivos em meio em meio à crise, seja da meia idade ou financeira mundial. George Clooney vive um “especialista em encerramentos”, que viaja pelos EUA demitindo pessoas e os ligando a um programa de recolocação no mercado de trabalho. No clima financeiro atual dos EUA, esta recolocação chega a ser uma piada de mau gosto.

Mas não é. Ryan Bingham, o personagem de Clooney, faz com que as pessoas demitidas sintam-se bem, ou ao menos não fiquem fora de controle. Seria uma profissão insuportável para uma pessoa sensível. Mas sua convicção sobre seu modo de vida é tão grande que sobra espaço para ele ser o melhor no que faz. Ele é um solitário que viaja de cidade em cidade, sem contato com família e amigos, e se orgulha disso.

O que o confunde e desvia de seu objetivo são os “relacionamentos” nos quais ele se envolve, seja com uma charmosa desconhecida (Vera Farmiga), uma colega de trabalho (Anna Kendrick) ou sua família distante. Poderia ser um romance bem comum se não fossem os momentos poderosos retratados de Ryan em seu trabalho, visitando empresas em colapso, carregando o peso da recessão e das malas de dinheiro que sua empresa de “exterminadores” está lucrando com a crise. Só que o romance e relacionamentos do personagem principal no fim só aumentam a certeza de que seu modo de vida, seu objetivo final de viajar mais de 300 dias por ano encerrando carreiras e motivando novas (destaque para a cena em que ele salva sua colega de trabalho ao assumir uma demissão convencendo o empregado de que este era um novo começo, sem usar clichês) é o que o define. As crises trazidas pela tecnologia, pelo ambiente e pela idade são atravessadas e somos (ou podemos) ser mais fortes no final.


As imagens lindas dos vôos e os truques espertinhos de cena feitos pelo diretor Jason Reitman (exemplo: Ryan saindo de uma loja de ternos para o corredor de um aeroporto) também precisam ser valorizadas. A escolha de extras entre pessoas que foram realmente demitidas durante a crise é o toque (e não truque) de gênio deste filme que revela a sua verdadeira alma: pessoas que perdem o seu norte, mas que, acreditando nelas mesmas, poderão continuar.

Se este toque, o roteiro enxuto e a ótima cinematografia não fossem nada menos do que geniais, ele não mereceria tantas indicações para os prêmios do ano. O valor desta obra, na minha opinião, foi traduzir o sentimento de um país em uma história pessoal e até divertida. Mas isto é o que eu acho. E vocês?

Compartilhe:
  • Print
  • Digg
  • del.icio.us
  • Facebook
  • Google Bookmarks
  • MySpace
  • StumbleUpon
  • Tumblr
  • Twitter

Posts relacionados:

  1. Medida por Medida
  2. Na luzinha do cinema
  3. A comédia da vida real
por dougspadotto em Atualidade,Cinema e tem 1 comentário

Um comentário para “O olho do furacão”

  1. Everton disse:

    Verei e depois faço um comentário!

    Mas pareceu bem interessante, toda a questão de crise é sempre uma via em Y, vc pode escolher se perder ou respirar fundo e melhorar! Estou sendo simplista eu sei, mas no final é só isso mesmo, todo fim é apenas um novo começo!

    Everton, 10 in 2010

Comente

Por favor complete os campos abaixo para comentar.
Nome
E-mail
Website
Seu comentário
  • RSS
  • Twitter
  • Facebook
  • NetworkedBlogs
  • Orkut