Mantendo o tom conversacional que o blog vem assumindo ultimamente, oi, tudo bem com vocês? Feliz Ano Novo e tal. Passaram bem as festas? Espero que sim.
Depois de encarar uma semana deprimente entre Natal e Ano Novo, trabalhando como se fosse um operador de estação de trem abandonada, eu merecia férias e, graças ao saudoso Getúlio Vargas, tenho meus 30 dias garantidos por lei e não tenho medo de usá-los! Graças aos saudosos Collor de Mello, FHC e agora Lula, a economia vai bem pra quem quiser, e pude novamente viajar.
Ao invés de Chile, Cuba, Chipre ou Cantão resolvi voltar e visitar um país atrás no alfabeto: o Brasil. Além disso, fazia muito tempo que não passava as festas em família e desenvolvimentos emocionais do meio do ano me fizeram aceitar o convite para experimentar uma coisa nova: viajar de cruzeiro.
A nova sensação da classe C, os cruzeiros são atraentes demais para deixar passar: com eles você viaja, se hospeda e come, tudo no mesmo lugar! Não é ótimo!? Não, não é. O que eu gosto é de ser uma rolling stone nas férias. Mínimo planejamento, mínima previsibilidade. Para adicionar um pouco destes ingredientes nestas férias, reservei alguns dias depois do cruzeiro para me embrenhar na travessia da Joatinga, mas teremos um texto só para isso mais tarde. Ah, eu também tirei a barba e fiquei com um bigode inspirado em Magnum PI.
Estava tão inerte no calor úmido do porto de Santos, e já com uma meia dúzia de Xingus na cabeça entrei faminto e sedento. Segundo relatos, a comida era the best e durante as refeições, bebidas eram free (vinho no meu caso, sendo que não bebo cervejas leves). Me debrucei em um vinho branco de qualidade discutível como se fosse um oásis no deserto. Não deu outra. Em 1 hora estava chapado e com dor de cabeça. Tive que apelar para o Campari acima (que já era o segundo). Capotei em um dos sofás da ante-sala do cassino e só fui acordar em alto-mar. Não tinha mais volta.
Por causa de meu ébrio cochilo, perdi o horário de reservar mesas para o jantar, e acabei no segundo turno, em uma mesa de desconhecidos, que encantei falando das histórias curtas do Hemingway e conseguindo não zoar da guria que levou 4 meses para ler “Marley e Eu”. O papo estava tão bom que o garçom hondurenho ficou em cima fazendo pressão para irmos embora. Mas ele não teve sorte e, ao ver a bandeirinha ao lado do nome dele já engatei um papo sobre Zelaya (outro notório bigodón) e a revolução na América Latina e foi-se a meia-noite. Ainda alto li os últimos capítulos de “Anansi Boys” com lágrimas nos olhos ao redor da piscina.
Acordei no dia seguinte com o leviatã do lazer parado em Ilha Bela. Poderia descer, mas o tempo estava feio e decidi começar a ler “Week-end na Guatemala”, para ter o que conversar com os garçons daquele país. Ok, não para isso, só porque estava na minha fila de leituras e eu não estava nem um pouco afim de participar de qualquer das iniciativas de “animação” do cruzeiro, sejam elas aulas de bolero, quizzes ou bingos.
Por falar em bingo, como eu já previa, a média de idade dos passageiros era algo em torno de 64… e as velhinhas (principalmente) se deliciavam com os rapazinhos da animação, que davam toda a atenção do Mundo para cada uma delas. Mais do que a logística de tanta comida e bebida sendo servidas 24 horas por dia em uma embarcação, admiro a dedicação e a paciencia do staff de animação destes cruzeiros.
A breguice imperava tão completamente que meu bigode até parecia cool, ainda mais com eu andando para cima e para baixo agarrado a um livro e tentando achar um recinto (que não fosse o meu cavernoso quarto) que não estivesse tocando axé e/ou não tivesse um grupo da terceira idade se alongando diante de uma quase afônica animadora.
A comida era em tremenda quantidade e variedade. Já a qualidade deixava a desejar em alguns momentos, principalmente porque devido a escala em que ela tinha que ser preparada, muito tinha que ser armazenado pronto antes de servir, o que impacta a qualidade final. Mesmo assim, nada horrível. Passável. Mas o vinho… esse eu aprendi. Só em quantidades moderadíssimas e tomando muita água junto!
Já os bares eram ótimos, equipadíssimos com todos os tipos de bases e misturas básicos e alguns exóticos. O preço dos drinks era salgado (e acrescido de um imaginário 15% 15!), mas sempre no fim da tarde eu embalava a leitura sobre a história da Rússia com um Bloody Mary (bem apimentado) ou apreciava um ou outro número musical apreciando um Negroni.
Sim, tinha música ao vivo também, e de qualidade às vezes. Durante a noite o teatro abria também em turnos, com o pessoal do primeiro turno do jantar assistindo o segundo turno do show e vice-versa. Não resisto e tenho que falar: era necessário dividir até o horário do alimento para o espírito, de tanta gente que estava no navio. Os shows eram um misto de musical e variedades (mágica, acrobacias, etc.). Os cantores e dançarinos eram sempre os mesmos, e com um figurino saído de uma loja de aluguel de fantasias mas, assim como todo o resto da experiência, dedicados em fazer o máximo para os passageiros. Até me emocionei com um tango cantado e dançado ao som de “Roxanne”.
Assim como o tom conversacional também me alonguei como os líricos posts recentes, portanto vou encerrando por aqui este resumo da experiência da vida aquática de Douglas Spadotto nessas férias. Em seguida, a parada em Ilhéus: calor, cacau e decadência.
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Ótimo!!! Hahaha!!! Quero viajar de novo!!!! Excelente Doug! Posta mais!!!