Há pouco menos de um ano encontrei santos. Eles não curam paralisias ou trazem sorte. Talvez prosperidade, não do individual como pregado em nossas inúmeras igrejas, mas da comunidade.
Na “Grande Antilha”, a república de Cuba, toda casa em que fiquei tinha um retrato de Fidel, Camilo e, em menos quantidade, Che. As pessoas que eu encontrava e conversava sobre a revolução falavam destes seus heróis com uma paixão extraterrena. Eles deviam tudo à longínqua luta que estes homens começaram há mais de 50 anos.
Por mais que a propaganda queira imbuir estas pessoas de características especiais (lembro do curador que me deixou entrar em uma exposição fotográfica de Fidel antes de sua abertura dizer que ele era “um gigante”), elas também adoecem, como podemos acompanhar nos últimos anos de ausência de Fidel, do “desaparecimento físico” de Camilo e o assassinato de Ernesto “Che” Guevara.
Este último, argentino mas cubano honorário, é o que mais atrai culto fora da ilha, por ter sido um revolucionário global, quando o termo “globalização” ainda só se manifestava em alguns artigos acadêmicos obscuros. Ele continua popular através da emblemática estampa de camiseta, seus slogans (alguns deles na verdade citações de outros), e também imortalizado em seus próprios diários, biografias, músicas e filmes.
Uma das últimas manifestações deste último são os dois filmes de Steven Soderbergh, “Che, o Argentino” (Che: Part One, 2008) e “Che: Guerrilha” (Che: Part Two, 2008).

Os dois filmes são baseados nos diários que Che escreveu, primeiro durante a revolução cubana, e depois da sua malfadada tentativa de revolução na Bolívia. O primeiro livro tive o privilégio de obter e ler, em uma edição distribuída a todos os estudantes cubanos que terminaram o ensino secundário (algo quase inimaginável antes da revolução). Impulsionado pela paixão de ter presenciado alguns benefícios, bem como malefícios, da revolução, devorei o livro em poucos dias. O primeiro filme portanto para mim parece ter sido um pouco desapaixonado, tirando a aura mágica que coloquei ao redor do Che.
Com idas e vindas no tempo, desde os preparativos para a revolução até seu discurso na ONU após o seu triunfo, o filme pareceu além disso instável, desequilibrado. Mesmo assim, como todo livro filmado, foi interessante ver os personagens imaginários (mesmo que reais) na telona.

Bashir, Santoro, Del Toro: Fidel, Raul e Che
Inicialmente foi divulgado que os filmes foram separados por formarem um filme só de 4 horas e meia. Mas o tom do segundo filme é bem diferente. Sem idas e vindas, ele continua sim logo após o triunfo da Revolução que encerra o primeiro filme. Mas a conexão ou similaridade acaba aqui. Todas as falhas do primeiro filme parecem corrigidas neste.
Começamos com Che e sua família. Nenhum diálogo concreto. Somente cenas de um jantar e um descanso no sofá, sem uma palavra trocada com sua esposa. Neste ponto ele já tinha “desaparecido” da política cubana e se preparava para seus próximos passos revolucionários. Ele segue disfarçado para a Bolívia, com o apoio de Fidel.
Um país que Che visitou durante sua juventude e onde testemunhou as primeiras injustiças contra os pobres, como mostrado em “Diários de Motocicleta” (The Motorcycle Diaries, 2004), a Bolívia tinha, em sua opinião, as condições para a revolução porque, como ele mesmo disse, “em todo lugar onde o homem é explorado por outro homem, há condições para a revolução”.

Che na Bolívia
Mas não foi assim. Por mais revezes que a revolução cubana tenha sofrido, o que é mostrado no diário e no filme é uma seqüência muito maior de fracassos, derrotas e dificuldades. Che sofre com sua asma, com problemas logísticos e deserções. A todo momento sua convicção é testada, e em nenhuma ela parece falhar.
Ele sofre e se contradiz, ele sofre e perde o controle, ele sofre. Mas nunca desiste. Essa insistência por si só é a inspiração para os poucos revolucionários que continuaram com ele até o último momento, quando foram cercados por um número absurdo de tropas e obliterados. No fim, ele é executado anunciando que seu corpo pode morrer, mas a revolução nunca!
O mais próximo da divindade, santidade ou idolatria que um homem pode alcançar Che alcançou, não sendo um Super-Homem, mas sendo nada mais do que humano.
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Maravilhoso post!! Falou com objetividade e ao mesmo tempo com paixão de alguém que é de fato, o meu super-herói!!
Parabéns pelo texto e keep going rapaz!
Tu escreve mto bem além d fazer ótimos pastéis apimentados!