Em um final de semana que começou com um refrescante clima de Hemisfério Norte em Curitiba e que terminou abafado na base da porrada, estive fora da realidade “consumindo” alguns bens culturais (mesmo sem meu Vale Cultura) que refletiram sobre esta mesma realidade e, especialmente, as diferentes maneiras de encontrar um sentido nela.
O primeiro foi a peça teatral “Bartleby”, adaptação do dramaturgo espanhol José Sanchis Sinisterra do conto homônimo do autor americano Herman Melville, mais conhecido pelo seu clássico “Moby Dick” mas que, já em 1853, ano em que escreveu este conto, também voltou sua atenção não só para os grandes conflitos do ser humano (como a obsessiva caçada em alto mar de Ahab), mas para a manifestação mais íntima dos mesmos, em um mínimo escritório espremido entre prédios de Manhattan.
A montagem da peça também é minimalista, com paredes formadas por pranchetas segurando papéis amarelados, alguns móveis de escritório e dois atores que, durante toda a duração da peça, prendem a atenção da platéia até o seu desfecho.

“O Advogado”, vivido pelo ator Rodrigo Gaion, ele mesmo uma pessoa mediana mesmo levando em consideração seu aparente sucesso na profissão, se vê obrigado a contratar um novo escrevente para seu escritório, o ainda mais insignificante Bartleby, vivido pela atriz e produtora da peça, Cácia Goulart. Da contratação até o desfecho dramático da peça, essas duas personagens abrem fissuras mínimas através das quais podemos enxergar além de suas caricatas performances, com as explosões do Advogado em meio ao seu “método e prudência” e os trejeitos Chaplinianos do quase mudo Bartleby, que aos poucos vai se retraindo da realidade com o seu bordão “Prefiro não”.
A simplicidade e obediência bovinas de Bartleby desarmam seu patrão quando a frase começa a ser usada, primeiro para negar qualquer tarefa além de suas cópias, depois para a própria tarefa de copiar, até simplesmente se recusar a sair do escritório, que ele transforma em sua casa. Do alto do seu sucesso, o Advogado começa a se sentir responsável pelo seu ex-funcionário, até o visitando na prisão após sua remoção forçada do escritório já alugado por outro bem sucedido profissional.
Antes de tentar refletir sobre este desfecho, devo falar do outro “bem cultural” (adoro o peso mercadológico desta expressão, me desculpem o abuso) do final de semana. O filme “O Solista” (The Soloist, 2009), do diretor Joe Wright, o mesmo do ótimo “Desejo e Reparação” (Atonement, 2007).

O filme acompanha a história do jornalista Steve Lopez (Robert Downey Jr., em ótima forma) perseguindo uma história, a do morador de rua Nathaniel Ayers (Jamie Foxx, impecável), que demonstra um talento excepcional em um violino com duas cordas e aos poucos revela uma história de vida fascinante, saindo dos subúrbios de Cleveland para a prestigiosa escola Julliard e acabando nas ruas de Los Angeles.
Um personagem a princípio confiante de seus dons, Lopez aos poucos vai se desconstruindo ao tentar “consertar” Nathaniel, primeiro entregando-lhe um violoncelo, seu instrumento favorito, depois levando-o à um centro de desabrigados e até conseguindo um apartamento para o curioso músico voltar a praticar.
Só que a cada tentativa de reabilitação, Nathaniel resiste e parece se afastar ainda mais da realidade, abrindo assim as feridas de Lopez ao reconhecer sua falha, primeiro como o “deus” pessoal de Nathaniel, mas também como ex-marido e pai. Seu sucesso aparente como jornalista e até mesmo provocador social se transforma em um amontoado de conquistas vazias no meio do desespero da situação do seu protagonista e das ruas de Los Angeles, com seus mais de 90.000 moradores de rua.

Em uma das cenas mais tocantes do filme, o esquizofrênico Nathaniel tagarela sobre seus sonhos e as imagens de bondade que ele sobrepõe à uma realidade tão brutal, e deseja a todos na Skid Row, e no mundo todo, que tenham uma boa noite. Mesmo em meio à miséria abjeta, após acessos de fúria, esta personagem que parece ter visto além do que nossos olhos enxergam só deseja que as pessoas sejam boas umas com as outras.
Menos messiânica é a frase “Você consegue ver?”, sussurada por Bartleby no meio da peça, que leva o Advogado a questionar seus meios, seus sucessos, e se importar com a figura insignificante que o rodeia, como reparação por uma vida em busca do sucesso medido por ele mesmo, sem refletir seus motivos.
O choque entre essas personagens tão diferentes aparentemente traz benefícios a todos, menos para o simples Bartleby, que acaba na prisão, soltando um grito silencioso e sofrido sabe-se lá por qual motivo, talvez por ter conseguido ver longe demais e, já em 1853, concluído que o Mundo estava perdido e além da sua capacidade de compreendê-lo, e quem dirá transformá-lo.

