Crônica de um samurai solitário III
Como eu não dou a mínima para o dia de ação de graças e, sei que o Doug vai fazer um post sobre isso, vou é postar mais uma crônica do samurai solitário!

Deixe-me criar novamente o pano de fundo de tudo isso, como as cronicas anteriores, ela se passa no período da Guerra Civil Japonesa, conhecida como Bakumatsu (vejam os outros posts para melhor localização).
Satsuma foi uma região que conseguiu manter um certo nível de paz e foi um reduto a princípio dos monarquistas, depois da invasão americana as coisas mudaram um pouco, mas não é disso que tratamos aqui.
Hitokiri , ao pé da letra significa assassino, porém o termo foi usado também pra descrever os samurais que não eram abatidos mesmo depois de muitas batalhas.
Saigo Takamori foi um grande samurai que esteve ao lado dos monarquistas para a restauração Meiji, era conhecido por ser sábido e, além de um samurai forte, gostar de poesia, pintura, escrita, arte do chá e ikebana. No filme ‘O último Samurai’, Ken Watannabe faz às vezes de Takamori com o nome de Katsumoto.
Hai-kai, pra quem não sabe, é uma poesia curta, de normalmente 17 sílabas que não dizem algo, mas se inclinam em dizer, é uma arte de conseguir colocar significado em algo sucinto.
Bushi é o próprio Samurai, assim como várias artes marciais são conhecidas como caminho, o samurai também tinha um, chamado de Bushi-do, caminho da honra, ou caminho da retidão, em algum momento ainda farei um texto sobre o Credo do Samurai (ou bem que o Wilian podia fazer…), enfim, deleitem-se com a nova cronica:

A mais de 12 meses que estamos nessa vida, se é que se pode chamar isso de vida…
Nestes mais de 360 dias, esse é um dos poucos momentos de paz
Chegamos ao quartel general no feudo de Satsuma
Diferente de meus homens, fui recebido por Saigo Takamori
Esse, um homem forte, ainda que um pouco gordo para um samurai,
Porém com um semblante que transcendia a nobreza
Diferente dos outros políticos que conheci,
Ele tinha um olhar sereno, com uma pureza diferente
Após a formalização de nossos cumprimentos,
Ele chamou-me para caminharmos, dizia pensar melhor assim
Atrás do palácio onde o quartel general estava, havia um belo jardim
Um caminho com várias Sakuras e Ameixeiras floridas tirou meu pensamento e me lembrou de alguém que amo
Mas meu pensamento foi rapidamente interrompido pela frase do comandante Takamori:
- Então você é o homem que faz chover sangue?

O cheiro das flores de ameixeira da lugar ao denso e terroso odor de sangue e lágrimas
As pequenas flores caindo se transformam em gotículas escarlates que escorrem pelo meu rosto
Por um segundo que dura uma eternidade, sinto-me sozinho de novo
Preso num inferno por pecados que aceitei ter em nome do que acho certo

Quando o brilho do sol reflete novamente em minhas pupilas,
Muito educadamente ouço um pedido de desculpas
- Desculpe filho, não falei para ofendê-lo, é um grande serviço, esse que presta ao nosso país!
Apenas agradeço com um aceno de cabeça.
Conversamos sobre algumas frivolidades, sobre juventude e sagacidade
Takamori fala que os dias dos Samurais estão contados, a honra já não é mais a mesma
Apenas concordo, é incrível o conhecimento que esse homem possui
Poderia passar anos apenas ouvindo o conhecimento que ele angariou em todos estes anos
Descubro que o comandante, forte como uma rocha, tem um lado delicado como um painel imperial

Ele explica sobre a dificuldade de se escrever um bom Hai-kai ou de se preparar o chá
Percebendo minha cara de espanto com esse lado tão distinto de um samurai tão calejado
Ele me ensina sobre a importancia de equílibrio, sobre a necessidade das trevas para apreciar a luz
Continuando, ele fala sobre que mesmo a mais sólida rocha pode ter cristais dentro dela
Penso em mim, será que há algum cristal em mim? Só consigo pensar em quão brilhante você é ao meu lado
Percebendo minha expressão, o comandante ri completamente bonachão:
“Também tenho alguém que amo Hitokiri! E pelo jeito já sei porque você não quer morrer! Há uma bela moça te esperando, não?”
Enrubeço e apenas me calo, sinto uma vergonha de amar alguém.
“Não seja assim meu caro, é natural… deixe-me falar sobre meu haikai” diz o grande comandante
“No inverno, a sakura,
como o bushi
apenas florece
apenas…”

Poucas palavras, com tanto significado, o prisma pelo qual esse homem enxerga é muito abrangente.
O Bushi, normalmente é jovem, está no inverno de sua vida e, assim como a flor de sakura, que é bela e forte por tão pouco tempo.
E é essa a nossa vida, defender a honra, enquanto ainda somos jovens, para nem chegar a primavera de nossas vidas
“Está pensando sobre vida e morte Hitokiri? Somos sim todos uma flor de Sakura, mas veja o meu caso, já sobrevivi a várias primaveras! Você também o fará!”
Agradeço a confiança e as sábias palavra e retiro-me para descansar, preciso meditar e acalmar o coração.
Sinto que esse tempo de tranquilidade não durará muito, mas vou aproveitar enquanto posso, curar minha cicatrizes e me preparar para novas batalhas!

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Ação de graças: o filtro
Hoje nos EUA e Canadá é comemorado o dia de Ação de Graças, um dos feriados deles que ainda não chegou por aqui (uma vez que o Halloween já está aqui a alguns anos como um pré-carnaval). A data é móvel, parecida com a Páscoa, e é usado para agradecer as boas coisas que aconteceram no decorrer do ano. Se vocês seguiram o link acima, podem reparar que a data coincide com o fim da colheita, e foi celebrado pela primeira vez pelos colonizadores nos EUA em conjunto com os nativos. Uma história clássica que as produções de Hollywood já nos ensinaram melhor do que o alfabeto.
Mas se tem outra coisa que estas mesmas produções nos ensinaram, especialmente em filmes mais “realistas”, é que o dia de Ação de Graças é uma oportunidade de lavar a roupa suja dentro das famílias, com cenas de discussão ao redor de uma mesa farta aparecendo em diversas oportunidades. Como esta aqui, no filme “Tempestade de Gelo” (Ice Storm, 1997) de Ang Lee (desculpem, sem legendas):
Tudo indica que as graças são substituídas pela reunião da família para discutir seus problemas deste ou de outros anos, limpando um pouco o caminho para um Natal e Ano Novo menos tensos. Usando outra metáfora, é como limpar a entrada da garagem da neve acumulada, mesmo sabendo que o inverno está só começando.
Olhando por este lado, acharia legal se importássemos esta data, e que cada famĺia (ou grupo de amigos, como a família eStendida da propaganda da Sadia) adote um dia de Ação de Graças e “discuta suas relações” para limpar o caminho para um feliz Natal e próspero Ano Novo!

Mas dá pra substituir o peru por um churras mesmo... né?
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Tags:ação de graças, angústia, Cinema, discussão, família, feriado, Sadia, thanksgiving
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