Dois livros do Saramago em uma tirinha do Sinfest hoje. Tatsuya é um gênio!
Dois livros do Saramago em uma tirinha do Sinfest hoje. Tatsuya é um gênio!
Passeando pelas estantes da Saraiva, encontrei o novo livro do escritor José Saramago, “Caim” (Companhia das Letras, 176pgs.). Não lia nada dele desde “O Ensaio sobre a Cegueira”, que virou um filme cult por esses tempos, então resolvi experimentar.
O estilo continua o mesmo, com os célebres parágrafos longos sem quebras para diálogos, mas talvez a experiência como blogueiro fez seus “posts” (capítulos) mais curtos, e a linguagem um pouco mais fácil. Foi uma delícia de ler, tanto por esta adaptação estilística como pela maestria com que o escritor português abordou um tema tão interessante.

Em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” Saramago mostrou a face humana do divino, com um Jesus e os apóstolos cheios de conflitos e desejos terrenos. O mais divino que aparece naquele livro é o próprio Diabo, com suas promessas de vida fácil se a personagem Jesus somente usasse sua inteligência e não sua fé.
Já em “Caim”, Saramago mostra o divino no ser humano, e a flagrante insanidade e inerente maldade do Deus do Velho Testamento da Bíblia.
O livro começa com a expulsão de Adão e Eva do Éden, e além de contar a história de um ângulo bem humano, Saramago sugere que a origem dos filhos de Eva veio da “troca de favores” com um querubim que trouxe comida do Éden para os recém-banidos primeiros seres humanos. Desde aí vemos a divindade desta linhagem: filhos de um anjo corrupto e esta primeira (pura?) mulher.

Mas o foco do restante do livro é a jornada de Caim através dos tempos do Velho Testamento após sua condenação pela morte de Abel. Deus não pode matá-lo depois que Caim prova neste primeiro tribunal que Deus é tão culpado pela morte de Abel quanto ele próprio, então Caim é marcado e enviado a vagar pela terra e pelo tempo.
Nesta jornada ele cruza com personagens marcantes: o alucinado Abraão, o cruel Josué, o ingênuo Jó e finalmente o megalomaníaco Noé. Cada um desses, cegamente seguindo este carente Deus, fazem ou presenciam atrocidades que deixariam a II Guerra Mundial parecendo uma festa junina, da destruição de Sodoma e Gomorra (com crianças e tudo) até o genocídio perpretado por Josué na primeira conquista da Terra Santa.
Caim atravessa todos estes eventos, à pé e com seu jumento, desenvolvendo sua consciência e ainda mais sua noção de que Deus está totalmente insano. Em seus contínuos encontros com o criador, Caim acaba dando lições sobre o próprio Mundo que este deus criou, do princípio de Arquimedes até o heliocentrismo, lembrando um tipo de Richard Dawkins in loco.
Este livro, uma reintepretação e uma farsa, com o mister de um prêmio Nobel da Literatura, jocosamente faz o que a Bíblia deveria fazer: certificar de que o ser humano é em si mesmo divino, um milagre dentro de outro milagre que é este Mundo, que não é nenhum Éden, mas é o nosso lar.