Quem foi o primeiro presidente do Brasil?
É domingo, mas pouca gente lembra que é feriado também. 15 de Novembro, Proclamação da República. Lembro do primário e ginásio quando esta data era tão ou mais importante que o 7 de Setembro, comemorada com encenações, cartazes e aulas especiais. Hoje é só mais um feriado, e quando cai em um domingo, nem isso.
Uma revista semanal (Veja) não se atreveu nem a mencionar a data na capa ou em qualquer parte de seu conteúdo, dando mais espaço a seus ataques coléricos contra o presidente e ainda mais ao guia de compras de eletrônicos para o Natal e mais uma lista de coisas que fazem bem para o corpo (aparentemente comer salmão enquanto ri e faz sexo é bom para você).
O Estado de São Paulo traz a boa notícia que o meu time agora é líder isolado, mas passa longe até da singela mas honesta cobertura que a Gazeta do Povo fez em sua edição online (e provavelmente impressa, mesmo com uma capa tenebrosa surfando na onda dos medos de apagões).

A reportagem foi baseada em um questionário enviado a diversos estudiosos, que avaliaram diversos aspectos da cultura republicana brasileira, e o resultado foi bem abaixo da média. Nos quesitos de eleição e rotatividade no poder estamos bem. Mas o mecanismo de escolha de uma minoria para governar a maioria (um dos pilares da República) é uma questão mais técnica do que cultural neste ponto da nossa História.
O peso que não carregamos é a aplicação de outros elementos fundamentais da República, como a criação de leis (pelo Legislativo, não outro poder) que reflitam as realidades da maioria, não permitir que a minoria governante utilize recursos públicos como extensão de seus bens particulares (o “patrimonialismo“) e a criação de meios para que a maioria seja ouvida quando reparar o mau uso da coisa pública.
Já que um assunto que recebe atenção é a Copa do Mundo, vamos olhar este exemplo, talvez exagerado, mas mostra um caminho a seguir: na África do Sul foi estabelecida uma linha direta para denunciar a corrupção. O próprio presidente, Jacob Zuma, atendeu a alguns telefonemas para divulgar o serviço e inspirar os trabalhadores aos telefones a agirem sobre todas as denúncias recebidas. Ele mesmo foi investigado por corrupção e absolvido, durante as eleições e após elas.

"Aqui é a República, como posso ajudar?"
Vocês sabiam que temos serviços similares aqui no Brasil? É o Ministério Público que, na minha opinião, é mais movido pelo ego de seus servidores do que denúncias efetivas. Os promotores deste Ministério parecem correr atrás das manchetes de jornais e levantam um alvoroço tremendo sobre temas menores, como piadas no Twitter, enquanto a corrupção e o abuso do poder público corroem as fundações de uma república ainda tão jovem.
Mas não é só o Ministério Público que deve ser responsabilizado por isto. A sociedade civil pode e deve encontrar meios de se manifestar. Movimentos como o Disque-Denúncia arranham a pele pútrida que ainda se agarra ao brasão da República. E é também o trabalho de cada um respeitar o bem público, sejam livros na biblioteca, salas de aula, parques e ruas. O que é de todos é de todos, e é seu também. Este é o “patrimonialismo invertido” que devemos cultivar para evoluir nossa nação em uma república de fato.

Tags:120 anos, África do Sul, apagão, Brasil, crítica, Estado de São Paulo, Gazeta do Povo, História, República, Veja
Permalink | Comentários (1)