Archive for outubro 28th, 2009

Todos os truques do livro

Outro fruto da insônia foi voltar à agenda de seriados americanos, “antecipados” via Internet. “30 Rock” começou a 2 semanas, mas o drama médico (se é que ainda pode ser chamado assim) “House” começou faz um pouco mais de tempo. Assisti o episódio duplo de abertura desta que é a sexta temporada e tenho algumas observações gerais a fazer.

Antes, uma introdução:

O seriado acompanha o mestre em diagnósticos Dr. Gregory House na investigação de casos médicos raros, com um pano de fundo de relacionamentos humanos fraturados e desgastados constantemente pela personalidade ácida do protagonista, amargo, solitário e viciado em remédios para dor.

No final da quinta temporada o abuso tanto de substâncias quanto dos relacionamentos levou o médico interpretado pelo ator britânico Hugh Laurie muito próximo da insanidade, sendo que a temporada termina com ele se internando em uma instituição psiquiátrica.

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A sexta temporada começa com uma música que parece profetizar todas as ferramentas a serem utilizadas no episódio de abertura. “No Surprises” (“Sem Surpresas”), do Radiohead, em uma montagem super estilizada do dr. House sofrendo com crises de abstinência. Qualé, uma música 12 anos de idade não combina com tanta… ok, combina sim. Foi o primeiro lugar-comum usado para despertar emoções e impulsionar o personagem para fora do hospital psiquiátrico e de volta para seus diagnósticos brilhantes. Aqui vão outros dos clichês usados:

- o amigo porto-riquenho hiper-ativo;
- o sábio mentor negro;
- a ovina e compreensiva médica loira;
- pessoas catatônicas voltando do transe;
- Bach no violoncelo (com a bandeira dos EUA ao fundo);
- e muitas, muitas reviravoltas!

Chegou uma hora no episódio em que eu realmente acreditava que ele não sairia do hospital, de tantas que foram as idas e vindas do roteiro. No meio dos clichês, este é o que mais irritou e eu já declarava, mesmo que encantado com a performance do Hugh Laurie: “charm can only get you so far” (charme só pode te levar até certo ponto).

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Mas o pior é que, na tradição dos seriados de TV atuais, estas 2 horas às vezes exaustivas de “House M.D.” me fizeram ansiar por mais. Os roteiristas conseguiram me prender por mais uma temporada, definitivamente. Como? Atirando para todos os lados como fizeram. Cada um desses clichês deve ter sido cirurgicamente calculado para cada demografia da audiência, e eu estou bem no meio dela.

As cenas das consultas de House com seu psiquiatra que é o diretor negro do hospital tem uma ressonância tão gritante para uma pessoa sana tentando sobreviver neste Mundo tão cheio de burrice, falsidade e mesquinharia que cheguei a repetir algumas delas.

Assim como vou repetir a dose do seriado semana a semana nesta nova temporada. House pode ter se curado de seu vício por anestésicos, mas o meu vício por encontrar metáforas para a vida real na TV só aumentou mesmo depois desta overdose de clichês.

por dougspadotto em Arte,Atualidade e tem (2) comentários

O Software Livre e o Eixo do Mal

Mais um livro que foi-se nesta semana mal-dormida foi o tomo 3 das “Reflexiones de Fidel” que eu trouxe de Cuba. É uma coleção de artigos que o Comandante escreveu entre 3 de Agosto e 18 de Setembro de 2007. No papel ele parece mais comedido que em seus discursos quando se trata da extensão, mas mesmo assim não tem medo de abordar praticamente todo e qualquer assunto.

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O último artigo deste volume é entitulado “Mentiras deliberadas, muertes extrañas y agresión a la economia mundial“. Nele Fidel expõe, com longas citações de auto-biografias e documentos, os detalhes da operação Farewell, um conjunto de ações de inteligência econômica tomadas para derrubar a antiga URSS.

A operação é extensa e vai desde intercâmbios estudantis até a Guerra nas Estrelas, esta última sendo o último prego no caixão da sucateada nação soviética, incapaz de competir neste nível de tecnologia.

Mas o que mais me chamou a atenção foi uma missão da qual já tinha lido na Internet, sobre a inclusão de código malicioso em softwares especializados que a URSS pirateava do Ocidente. Um caso sério e documentado foi a colossal explosão de um gasoduto causado por um “reset” dos valores de configuração programado como cavalo de Tróia.

Logo depois do meu próprio link sobre as implicações do movimento do Software Livre no caso de uma tentativa de reproduzir a operação Farewell nos dias atuais, o próprio Fidel cita um líder do movimento (sem dar o nome) que disse que “a medida que se complejizan las tecnologías será más difícil detectar acciones de ese tipo”.

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Fidel também conclui dizendo que desde o fim da URSS Cuba formou centenas de milhares de pessoas em nível superior. “¡Que otra arma ideológica nos puede quedar que un nivel superior de conciencia!”, exalta o eterno líder cubano. “Si lo que desea es conocer verdaderas fieras, dejen que en el ser humano no prevalezcan los instintos”, completa.

Por que o império americano conseguiu derrubar a gigante União Soviética e não “nanicos” como Cuba e Coréia do Norte? Educação. Doutrinação para alguns, mas na base dos programas sociais destes regimes comunistas (posso falar com certeza de Cuba, não me atrevo a especular muito sobre a Coréia) está o desejo genuíno de desenvolver o ser humano, e não o mercado.

Com a liberdade do software livre e o “arsenal ideológico” advindo de uma educação superior gratuita e de qualidade, a porção tecnológica do dossiê Farewell não tem chance de ser implementado nos dias atuais. E com o império e grande parte do Ocidente passando por agruras financeiras, nem a econômica pode ser colocada em prática. Mesmo porque, combatendo em duas frentes com relação ao software, Cuba já adota o software livre como opção, estando livre do custo proibitivo do sofware fechado e se beneficiando de sua tecnologia avançada e, mais importante, segura.

Se não fosse o embargo criminoso imposto à Cuba, o Mundo teria um exemplo claro do que acontece quando um país é educado de maneira a maximizar seus esforços pelo bem comum, e não pelo lucro.

por dougspadotto em Atualidade,História e tem (3) comentários
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