Outro fruto da insônia foi voltar à agenda de seriados americanos, “antecipados” via Internet. “30 Rock” começou a 2 semanas, mas o drama médico (se é que ainda pode ser chamado assim) “House” começou faz um pouco mais de tempo. Assisti o episódio duplo de abertura desta que é a sexta temporada e tenho algumas observações gerais a fazer.
Antes, uma introdução:
O seriado acompanha o mestre em diagnósticos Dr. Gregory House na investigação de casos médicos raros, com um pano de fundo de relacionamentos humanos fraturados e desgastados constantemente pela personalidade ácida do protagonista, amargo, solitário e viciado em remédios para dor.
No final da quinta temporada o abuso tanto de substâncias quanto dos relacionamentos levou o médico interpretado pelo ator britânico Hugh Laurie muito próximo da insanidade, sendo que a temporada termina com ele se internando em uma instituição psiquiátrica.

A sexta temporada começa com uma música que parece profetizar todas as ferramentas a serem utilizadas no episódio de abertura. “No Surprises” (“Sem Surpresas”), do Radiohead, em uma montagem super estilizada do dr. House sofrendo com crises de abstinência. Qualé, uma música 12 anos de idade não combina com tanta… ok, combina sim. Foi o primeiro lugar-comum usado para despertar emoções e impulsionar o personagem para fora do hospital psiquiátrico e de volta para seus diagnósticos brilhantes. Aqui vão outros dos clichês usados:
- o amigo porto-riquenho hiper-ativo;
- o sábio mentor negro;
- a ovina e compreensiva médica loira;
- pessoas catatônicas voltando do transe;
- Bach no violoncelo (com a bandeira dos EUA ao fundo);
- e muitas, muitas reviravoltas!
Chegou uma hora no episódio em que eu realmente acreditava que ele não sairia do hospital, de tantas que foram as idas e vindas do roteiro. No meio dos clichês, este é o que mais irritou e eu já declarava, mesmo que encantado com a performance do Hugh Laurie: “charm can only get you so far” (charme só pode te levar até certo ponto).

Mas o pior é que, na tradição dos seriados de TV atuais, estas 2 horas às vezes exaustivas de “House M.D.” me fizeram ansiar por mais. Os roteiristas conseguiram me prender por mais uma temporada, definitivamente. Como? Atirando para todos os lados como fizeram. Cada um desses clichês deve ter sido cirurgicamente calculado para cada demografia da audiência, e eu estou bem no meio dela.
As cenas das consultas de House com seu psiquiatra que é o diretor negro do hospital tem uma ressonância tão gritante para uma pessoa sana tentando sobreviver neste Mundo tão cheio de burrice, falsidade e mesquinharia que cheguei a repetir algumas delas.
Assim como vou repetir a dose do seriado semana a semana nesta nova temporada. House pode ter se curado de seu vício por anestésicos, mas o meu vício por encontrar metáforas para a vida real na TV só aumentou mesmo depois desta overdose de clichês.


