Acompanhando durante esta semana os preparativos e hoje a celebração dos 60 anos da fundação da República Popular da China, escorreguei na irônica noção de almoçar em um restaurante de cozinha de Formosa (Taiwan) que encontrei aqui em Curitiba.
Ataquei a Web em busca de informação sobre o que me espera para o almoço e, como de praxe acabei descobrindo muito mais do que esperava. Durante o dia escreverei aqui alguns fatos e observações pessoais sobre o Império do Meio, a China.
Como ainda é cedo para o almoço, vamos falar de política. De ditadura, repressão e controle. E não estou falando da República Popular da China (comunista, vermelha, comedora de criancinhas), e sim da simples República da China, conhecida como Taiwan ou, para os saudosos lusófonos, Formosa.

中華民國
Estabelecida 37 anos antes da sua contraparte comunista, a República da China, hoje limitada à ilha de Formosa e outras ilhotas, já abrangeu todo o continente chinês, servindo como o governo oficialmente reconhecido de todos os chineses até os anos 70. Foi a fundadora da ONU e o assento no Conselho de Segurança era ocupado por seus representantes.
Seu início foi turbulento como muito da história da China. Com o fim da dinastia Qing, o Kuomintang (KMT), partido mais poderoso na época, assumiu o poder, e um presidente foi eleito. Até aí tudo bem mas, como o poder absoluto corrompe absolutamente, o presidente eleito, Yuan Shikai, sem oposição, dissolve o parlamento e se declara imperador.
Com este golpe, Yuan perde seus aliados, e a China descende em um período de guerra civil, que só vai estabilizar sob o novo líder do KMT, Chiang Kai-Shek que, com a ajuda de consultores soviéticos consegue consolidar o país. Só que logo após conseguir o poder, Chiang organiza um expurgo dos elementos comunistas do KMT, forçando-os para o interior.
Este acontecimento volta para assombrar o KMT após a II Guerra Mundial, quando os comunistas liderados por Mao Tsé-Tung marcham a partir do interior reconquistando o continente chinês, forçando Chiang Kai-Shek para fora do país, restrito à Taiwan.

Uma vez na ilha, a perseguição comunista torna-se mais e mais retórica, enquanto a repressão na República nacionalista fica bem real, com a República da China sob o KMT tornando-se uma ditadura feroz, acuada por elementos que queriam a independência da ilha ou a integração com o regime comunista. Estima-se que durante o “Terror Branco” 140 mil pessoas tenham sido presas, torturadas e assassinadas pelo governo da ilha.
Parece pouco se comparado com os milhões que morreram durante os desastres comunistas no continente, mas colocando em perspectiva o tamanho territorial e populacional, o regime reconhecido mundialmente era tão bárbaro quanto o comunista.
Mas não é só em repressão e desastres que as duas repúblicas se aproximam. Ambas são exemplos de desenvolvimento tecnológico e principalmente econômico a partir dos anos 80, fruto de sua ênfase na educação e a manutenção de um regime fiscal rigoroso e amigável às exportações.
Espero que o dia de hoje (e estes posts) sirvam como incentivo para que todos busquem uma visão mais esclarecida sobre o que é o Bem ou o Mal em um contexto geopolítico e cultural. Encontramos na História da China do século XX os ingredientes básicos de luta pelo poder que se repetem em todo o Mundo, mas em especial observamos a transformação de regimes aparentemente opostos em modelos para o futuro.
Que chinês sou eu?
P.S.: Taiwan passou por recentes reformas políticas, e agora possui um partido que defende a independênica fazendo oposição a um KMT que agora quer a re-unificação com a República Popular. Vai entender, né?
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