Archive for outubro, 2009

Os Cadernos da Morte

Uns meses atrás uma navegação randômica na Wikipédia me levou a um anime chamado “Death Note“. A história gira em torno da posse por humanos de um caderno com poderes sobrenaturais. Neste caso, o poder de matar as pessoas cujos nomes forem escritos no caderno. Animação muito boa. Um pouco artificialmente extendida, mas com ótimas “sacadas”.

Uma delas é expressa em um dos primeiros diálogos entre o protagonista Light e o deus da Morte que “perdeu” seu Death Note (caderno da Morte) no mundo dos humanos. O aparentemente desastrado shinigami (deus da Morte) Ryuk descreve o seu mundo como muito chato, pois a morte acontece para todos os seres humanos, então não há por quê se esforçar e inventar causas de morte. Eles passam a eternidade jogando cartas, literalmente matando o tempo, enquanto os humanos seguem inexoravelmente para seus cadernos.

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Achei esta uma metáfora fortíssima para o próprio modo como algumas pessoas vivem a vida, e finalmente encontrei exemplos claros de nossos próprios cadernos da Morte.

Boletins escolares, diários, folhas de pagamento, carteira de trabalho, cartelas de fidelidade em banquinhas de cachorro quente… Um olhar crítico sobre a quantidade de tempo que gastamos tentando preencher estas páginas sem sentido da melhor maneira possível nos leva a apreciar muito mais o tempo em que não estamos envolvidos nestas atividades que de alguma maneira achamos que dão sentido e ordem às nossas vidas.

Um dos grandes motivadores da existência é a busca por um sentido na vida. Quando ela se reduz a um mero exercício de preenchimento de vazios, sejam eles em páginas ou sensações, por mais que possamos parecer felizes, estamos longe de realmente entender.

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por dougspadotto em Arte,Gente e ainda não tem comentários

Todos os truques do livro

Outro fruto da insônia foi voltar à agenda de seriados americanos, “antecipados” via Internet. “30 Rock” começou a 2 semanas, mas o drama médico (se é que ainda pode ser chamado assim) “House” começou faz um pouco mais de tempo. Assisti o episódio duplo de abertura desta que é a sexta temporada e tenho algumas observações gerais a fazer.

Antes, uma introdução:

O seriado acompanha o mestre em diagnósticos Dr. Gregory House na investigação de casos médicos raros, com um pano de fundo de relacionamentos humanos fraturados e desgastados constantemente pela personalidade ácida do protagonista, amargo, solitário e viciado em remédios para dor.

No final da quinta temporada o abuso tanto de substâncias quanto dos relacionamentos levou o médico interpretado pelo ator britânico Hugh Laurie muito próximo da insanidade, sendo que a temporada termina com ele se internando em uma instituição psiquiátrica.

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A sexta temporada começa com uma música que parece profetizar todas as ferramentas a serem utilizadas no episódio de abertura. “No Surprises” (“Sem Surpresas”), do Radiohead, em uma montagem super estilizada do dr. House sofrendo com crises de abstinência. Qualé, uma música 12 anos de idade não combina com tanta… ok, combina sim. Foi o primeiro lugar-comum usado para despertar emoções e impulsionar o personagem para fora do hospital psiquiátrico e de volta para seus diagnósticos brilhantes. Aqui vão outros dos clichês usados:

- o amigo porto-riquenho hiper-ativo;
- o sábio mentor negro;
- a ovina e compreensiva médica loira;
- pessoas catatônicas voltando do transe;
- Bach no violoncelo (com a bandeira dos EUA ao fundo);
- e muitas, muitas reviravoltas!

Chegou uma hora no episódio em que eu realmente acreditava que ele não sairia do hospital, de tantas que foram as idas e vindas do roteiro. No meio dos clichês, este é o que mais irritou e eu já declarava, mesmo que encantado com a performance do Hugh Laurie: “charm can only get you so far” (charme só pode te levar até certo ponto).

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Mas o pior é que, na tradição dos seriados de TV atuais, estas 2 horas às vezes exaustivas de “House M.D.” me fizeram ansiar por mais. Os roteiristas conseguiram me prender por mais uma temporada, definitivamente. Como? Atirando para todos os lados como fizeram. Cada um desses clichês deve ter sido cirurgicamente calculado para cada demografia da audiência, e eu estou bem no meio dela.

As cenas das consultas de House com seu psiquiatra que é o diretor negro do hospital tem uma ressonância tão gritante para uma pessoa sana tentando sobreviver neste Mundo tão cheio de burrice, falsidade e mesquinharia que cheguei a repetir algumas delas.

Assim como vou repetir a dose do seriado semana a semana nesta nova temporada. House pode ter se curado de seu vício por anestésicos, mas o meu vício por encontrar metáforas para a vida real na TV só aumentou mesmo depois desta overdose de clichês.

por dougspadotto em Arte,Atualidade e tem (2) comentários

O Software Livre e o Eixo do Mal

Mais um livro que foi-se nesta semana mal-dormida foi o tomo 3 das “Reflexiones de Fidel” que eu trouxe de Cuba. É uma coleção de artigos que o Comandante escreveu entre 3 de Agosto e 18 de Setembro de 2007. No papel ele parece mais comedido que em seus discursos quando se trata da extensão, mas mesmo assim não tem medo de abordar praticamente todo e qualquer assunto.

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O último artigo deste volume é entitulado “Mentiras deliberadas, muertes extrañas y agresión a la economia mundial“. Nele Fidel expõe, com longas citações de auto-biografias e documentos, os detalhes da operação Farewell, um conjunto de ações de inteligência econômica tomadas para derrubar a antiga URSS.

A operação é extensa e vai desde intercâmbios estudantis até a Guerra nas Estrelas, esta última sendo o último prego no caixão da sucateada nação soviética, incapaz de competir neste nível de tecnologia.

Mas o que mais me chamou a atenção foi uma missão da qual já tinha lido na Internet, sobre a inclusão de código malicioso em softwares especializados que a URSS pirateava do Ocidente. Um caso sério e documentado foi a colossal explosão de um gasoduto causado por um “reset” dos valores de configuração programado como cavalo de Tróia.

Logo depois do meu próprio link sobre as implicações do movimento do Software Livre no caso de uma tentativa de reproduzir a operação Farewell nos dias atuais, o próprio Fidel cita um líder do movimento (sem dar o nome) que disse que “a medida que se complejizan las tecnologías será más difícil detectar acciones de ese tipo”.

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Fidel também conclui dizendo que desde o fim da URSS Cuba formou centenas de milhares de pessoas em nível superior. “¡Que otra arma ideológica nos puede quedar que un nivel superior de conciencia!”, exalta o eterno líder cubano. “Si lo que desea es conocer verdaderas fieras, dejen que en el ser humano no prevalezcan los instintos”, completa.

Por que o império americano conseguiu derrubar a gigante União Soviética e não “nanicos” como Cuba e Coréia do Norte? Educação. Doutrinação para alguns, mas na base dos programas sociais destes regimes comunistas (posso falar com certeza de Cuba, não me atrevo a especular muito sobre a Coréia) está o desejo genuíno de desenvolver o ser humano, e não o mercado.

Com a liberdade do software livre e o “arsenal ideológico” advindo de uma educação superior gratuita e de qualidade, a porção tecnológica do dossiê Farewell não tem chance de ser implementado nos dias atuais. E com o império e grande parte do Ocidente passando por agruras financeiras, nem a econômica pode ser colocada em prática. Mesmo porque, combatendo em duas frentes com relação ao software, Cuba já adota o software livre como opção, estando livre do custo proibitivo do sofware fechado e se beneficiando de sua tecnologia avançada e, mais importante, segura.

Se não fosse o embargo criminoso imposto à Cuba, o Mundo teria um exemplo claro do que acontece quando um país é educado de maneira a maximizar seus esforços pelo bem comum, e não pelo lucro.

por dougspadotto em Atualidade,História e tem (3) comentários

Anedotas e exemplos

Um pouco do colorido da vida do ex-chanceler Vasco Leitão da Cunha. A primeira eu tirei da Internet mesmo:

O chanceler Vasco Leitão da Cunha aproveita uma ida para o aeroporto de Brasília, no carro oficial, para dar entrevista a um repórter. No caminho, um cachorro atravessa a avenida. O motorista dá uma guinada, o carro desliza, quase bate num poste ou capota. Passado o susto, o chanceler respira fundo e, diplomaticamente, adverte o pálido motorista. “ Meu caro Josias, tenha sempre seu bom coração, mas nunca esqueça de acionar o seu bom cérebro. Se tivesse acontecido o pior, imagine a manchete amanhã:  “MOTORISTA MATA UM MINISTRO PARA SALVAR UM CACHORRO”.

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Estas outras eu digito do livro, que vale a pena mesmo a leitura, até mesmo para desafiar alguns preconceitos contra a direita e a esquerda igualmente:

Na II Guerra Mundial, em Monte Castelo: “… Almoçamos na linha de batalha, ao norte de Florença. Osvaldo Cordeiro Farias ofereceu-nos um almoço no posto de comando do coronel Sousa Carvalho, e fomos bombardeados o tempo todo. Foi engraçadíssimo. Havia uma banda que tocava enquanto caía a metralha… Era uma beleza… Os pracinhas cantavam: ‘Que é que fizeram com a sua bicicleta, Maria? Tedeschi portare via…’”

(tedeschi significa “alemães” em italiano. Esta parte desta popular música da FEB fala  que eles levaram embora a bicicleta da Maria)

Vocês podem encontrar a música original neste link. É divertidíssima mesmo!

Em Cuba: “… Um homem sério, que me deu a melhor das impressões desde a primeira vez que o vi, foi o Che Guevara. Ele estava no sul de Cuba, não em Sierra Maestra, e chegou a Havana antes do Fidel, que veio devagar, ocupando porto por porto. O Che chegou com a tropa do diretório estudantil e, durante a noite os estudantes invadiram o hotel onde estava alojada a embaixada da Colômbia, que já tinha um asilado do Batista. Os rapazes queriam levar o asilado. Fui avisado e logo tomei minhas providências. Às sete da manhã do dia seguinte estava o Che lá na minha embaixada querendo falar comigo, dizendo que tinha ficado furioso com o comportamento dos rapazes, que reconhecia que era um comportamento inaceitável e que não ia mais admitir coisas desse gênero, de que os diplomatas tivessem de se queixar. É da essência da atividade a imunidade do chefe da missão, onde quer que esteja. De maneira que os estudantes não podiam ter invadido as habitações do embaixador da Colômbia no hotel. O Che pediu que eu os desculpasse, disse que eram cabeças quentes, mas que aquilo não se repetiria. Eu não o conhecia! Fiquei impressionado com a sua correção.
Houve outros casos depois, até cômicos. Um pelego do Batista muito conhecido se asilou na embaixada argentina. Quando anunciaram que estavam chegando rebeldes que queriam entrar, ele se meteu na cama do embaixador! O embaixador me disse: ‘Acabo de receber uma visita na minha cama!’ “

Como era de esperar, o sr. da Cunha é da opinião que Che foi forçado a sair de Cuba pelo Fidel.

Muy amigo

Muy amigo

Depois de Cuba, ele foi convidado a assumir a Secretaria Geral do Itamaraty, uma posição vista como menor que a de um embaixador. Assim foi a reação de sua esposa, dona Nininha:

“… Aceitei, telefonei para Havana e contei à minha mulher, que me disse: ‘Meu amor, és uma besta!’”

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E encontrei nesta reportagem especial sobre a África na BBC a opinião de um cidadão norte-americano que exemplifica bem como eles realmente acreditam que tudo tem solução, seguindo o exemplo bem americano da auto-determinação (eu coloquei o negrito) :

“…It is time for the peoples of Africa to look back into their past and identify people now to help direct them into a future which is fair and just. Easier said than done, but if the people take the power that is inherent to them it is possible.” — John, United States

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por dougspadotto em História e ainda não tem comentários

Império preciso

Ontem terminei de ler o livro “Diplomacia em Alto-Mar“, que é o registro de um depoimento ao CPDOC da FGV dado pelo diplomata Vasco Leitão da Cunha, que serviu por 40 anos (1927-1967) como diplomata e ministro  do Exterior, entre outros cargos públicos os quais ele foi “forçado” a assumir, pois ele sempre defendeu que um diplomata de carreira não pode assumir uma pasta de governo, sendo um mero funcionário do mesmo, capacitado para uma função e uma função apenas: ser a voz do governante no exterior.

No livro ele conta detalhes desde suas primeiras missões na América do Sul até seu cargo como ministro do Exterior passando pela participação de importantes encontros que criaram os órgãos diplomáticos internacionais que existem até hoje como a ONU. Uma memória exemplar, pois ele prestou o depoimento quando já passava dos 80 anos.

Servindo o país antes deste e de muitos outros meteoros caírem

Servindo o país antes deste e de muitos outros meteoros caírem

O “seu Vasco” vem da aristocracia e orgulhoso disso. Menino ele andava em carruagens com barões e viscondes, e sempre que introduz um novo personagem na história diplomática brasileira ele relaciona com a linhagem de onde ele veio, e o que esperar do temperamento ou natureza de tal e tal família.

O que pode parecer saudosismo por um tempo de ainda mais desigualdade fica muito mais brando quando ele descreve a necessidade de possuírmos uma elite pensante (e dirigente) no país. Ele exalta o preparo que os funcionários do Itamaraty têm para lidar com praticamente todos os temas, de Economia ao protocolo, do Direito à gestão da informação. Este preparo no passado era restrito aos filhos de barões e viscondes para conduzir e manter seus títulos e propriedades, sendo “terceirizados” pelo governo quando este tinha necessidade, fazendo-os ministros, coletores de impostos, conselheiros ou enviados especiais.

Mas o que isto tem a ver com império? A última missão do sr. Leitão da Cunha foi como embaixador do Brasil em Washington, onde teve relações muito próximas com Lyndon Johnson, um dos presidentes mais impopulares dos EUA, tendo herdado a guerra do Vietnã do querido presidente Kennedy, coisa que poucos lembram.

Uma das observações finais do diplomata foi sua admiração para com o american way of life, o otimismo inato de todos os habitantes do país, que pode resolver qualquer problema e acha que todos podem também, se seguirem o seu exemplo.

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Mesmo admirando os EUA, Vasco deixa claro a completa falta de universalidade daquele povo. Eles são ótimos especialistas, como eu presencio diariamente no meu trabalho e hoje assistindo a tentativa de lançamento do novo veículo espacial Ares IX.

Assim como os barões e viscondes de outrora no Império Brasileiro, temos agora uma aristocracia que manda no Mundo mas estamos observando que, com preparo, passando pelo “Itamaraty de nações” que foi nossa História recente, acredito que o Brasil possa crescer e assumir o papel de um líder esclarecido imbuído não só de racionalidade mas também de sentimento e universalidade advindas da convivência pacífica de tantas raças e culturas que formaram este nosso país.

por dougspadotto em Atualidade e ainda não tem comentários
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