Archive for agosto 30th, 2009

Violência no cotidiano

Colecionadores de world music, usuários de keffiyehs fashion e alpargatas convergiram timidamente durante esta semana para o Teatro da Caixa em Curitiba onde foi apresentado, de quinta à domingo, a peça “Kabul” da companhia de teatro Amok, do Rio de Janeiro.

Encontraram instrumentos exóticos (santour, saz kumbuz, tombak, kamantché e daf), e um figurino e cenografia impecáveis que os envolveram e os transportaram para a Kabul do tempo dos talibans. Mas uma vez imersos nesta realidade de violência extrema, perceberam como ela está presente bem mais perto do que imaginamos.

music

A peça conta a história de dois casais vivendo em Kabul. Um casal idoso e outro jovem. Porém o sofrimento de ambos, por motivos diversos, os envelhece precocemente e eles acabam representando um limbo da vida adulta, repleto de arrependimentos, memórias e ideais perdidos.

O casal de “velhos”, Tariq e Mariam, formam um par que chegaria ao bizarro se não entendêssemos suas histórias. Corcundas, mancos, gemendo e babando de dor, refletem o estado final de sua vida juntos (Mariam tem uma doença terminal e segundo as regras do Taliban, não pode ser atendida por médicos), e onde Tariq foi parar depois de uma vida seguindo ordens cegamente seus superiores, fossem os mujahedin ou os talibans.

Já o casal de jovens, Madji e Zunaira, vive ainda mais da nostalgia dos dias mais livres, onde podiam passear e conversar juntos ao ar livre, e quando ambos tinham empregos (Madji perde seu comércio quando os talibans tomam o poder). Desesperado pelo desemprego e o estado das coisas, Madji aos poucos descende para a loucura, levando consigo Zunaira.

Ainda se fosse só isso...

Ainda se fosse só isso...

As cenas se alternam entre um casal e outro, com rápidas re-montagens de cenário, e vão revelando nas entrelinhas um texto nada exótico e sim dolorosamente real. Logo na primeira cena, o cansado Tariq chega do trabalho e não quer conversar com a mulher. Ambos discutem. Também Madji se desespera ao contar para Zunaira que continua sem emprego.

Aos poucos estas situações bem reais se misturam com a loucura do regime extremista, com a violência permeando cada aspecto do cotidiano (a peça inicia com o recital em megafone de algumas das leis adotadas sob o regime Taliban), até que envolve irreversivelmente as personagens, que se tornam todas vítimas do cotidiano.

“Eu não confio mais no homem que me tornei”, diz profundamente Madji ao contar que apedrejou uma mulher. A espiral de loucura ganha velocidade e é uma questão de tempo para que as pressões externas façam a vida doméstica também se tornar violenta, com conseqüências trágicas.

apedrejamento[1]

Em alguns momentos super-dramatizada (alguns problemas na projeção de voz dos atores) a peça nos leva a uma realidade extrema para revelar por trás dela o ser humano e como ele reage ao exterior e, em especial, à violência. Nos deixar levar pela “monomania mortífera e insensata” que a realidade por vezes nos apresenta (e não estou falando só em Kabul) não é a resposta. O que as personagens e as pessoas reais parecem esquecer é que o amor é uma força que pode vencer tudo.

por dougspadotto em Arte,Comportamento e tem 1 comentário
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