Por um jornalismo mais Gay
Ele já foi embora? Mesmo? Bacana, então vamos falar dele.
“Ele” é Gay Talese, jornalista americano que foi convidado para participar da Festa Literária de Paraty deste ano e chegou antes, participou da feira e parecia que não ia mais embora, aparecendo por todo canto do país e, mais importante, em todo jornal e revista através de entrevistas e mais entrevistas, talvez até entrevistas demais, disseram alguns.
Entende-se que ele tenha que aparecer no maior número possível de manchetes durante uma viagem que serviu para promover seu novo livro, “Vida de Escritor” (Cia. das Letras, 509p.), mas foi sua reputação e principalmente seu charme que parece ter encantado a mídia brasileira, que perguntou a opinião dele sobre quase tudo, relacionado ao jornalismo ou não.

This charming man
Foram suas idéias sobre o estado atual e o futuro do jornalismo que achei mais interessantes e pertinentes, obviamente. A declaração recorrente em todas as entrevistas e declarações que li, vi ou ouvi foi a de que “os jornalistas estão perto demais do poder”. Um exemplo: alunos das universidades de jornalismo vão às mesmas festas que filhos de “lideranças”, que por sua vez um dia serão a nova liderança, que deverá ser fiscalizada, dentre outros, pelos jornalistas que foram e podem ainda ser do seu convívio.
Também não é preciso ser tão drástico na interpretação desta aproximação. Há o benefício evidente de que estando próximos do poder, os jornalistas bem intencionados possam desmistificar o mesmo, tendo acesso às suas minúcias e trazendo isso para a população, que entenderá como as coisas estão funcionando e que por sua vez poderá decidir se elas ainda servem ou não.
A análise fria de Gay vem de seus 77 anos de vida, muitos deles dedicados à profissão jornalística, vivendo como um “outsider”. Um filho de imigrantes italianos analfabetos que encontrou um emprego em um jornal e aprendeu o ofício na prática. Seus melhores textos continuam sendo aqueles onde ele “estava lá”, mas não se envolveu com seus personagens ou temas. Seu texto mais famoso, “Frank Sinatra has a cold” é um perfil de Sinatra escrito sem ele ter trocado uma palavra sequer com o cantor.

"A-ham!"
Simpatizo mais com a opinião de Talese sobre a necessidade de distanciamento dos jornalistas de seu assunto, seja ele a política ou até mesmo o perfil de uma celebridade. O jornalista deve ser acima de tudo um ouvinte e expectador dos acontecimentos, e um transmissor destas fontes para uma audiência maior.
Para justificar esta posição, trago da ficção e realidade dois exemplos. No filme “Intrigas de Estado” (State of Play, 2009), o jornalista interpretado por Russell Crowe se envolve em uma, bem, “intriga de estado” envolvendo um antigo amigo seu, agora senador dos EUA, que “planta” informações através de seu amigo jornalista para atingir seus objetivos.

"Quebra esse galho pra mim, meu chapa?"
Outro exemplo é de uma realidade bem próxima, aqui do Brasil mesmo, com um documentário sobre a manipulação da imprensa no estado de Minas Gerais, com o objetivo final de fazer de Aécio Neves um candidato “perfeito” para o cargo de presidente da República. Aqui sabemos que existem fatores econômicos envolvidos também (dinheiro de anunciantes ou propinas diretas), mas não deixa de ser a repetição do mesmo tema: a aproximação e até dependência do jornalista com o poder testa os seus princípios e, se você não estiver preparado, compromete sua integridade.
Categorizado em: Atualidade, Comportamento, GenteTags:Atualidade, Comportamento, Gay Talese, jornalismo, poder, política
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14:42
[...] das universidades também são um problema, mesmo que menos fácil de ser comprovado. Gay Talese vem falando isso para todos que querem ouvir há um bom tempo. Além da parcialidade, este relacionamento faz com [...]