A “magia” do cinema. Tantas vezes esta metáfora foi utilizada que dá até dó de usá-la novamente. Mas é o que une as pessoas, às vezes tão diferentes quanto brasileiros e argentinos. Se não une definitivamente, pelo menos forma uma breve ponte que o espectador consciente pode atravessar até chegar ao outro lado da compreensão.
O filme “Nove Rainhas” (“Nueve Reinas”, 2000), de Fabián Bielinsky, tem este efeito. Nele uma história de golpistas, com todos os seus elementos básicos de chantagem, família e reviravoltas assume um tom absolutamente sulamericano, quando nem o mais charmoso e cruel criminoso é páreo para a “mão invisível” da economia volátil dos países do Sul.

Correndo atrás do prejuízo
Sem estragar as surpresas, mesmo que previsíveis para este tipo de filme, resta comentar sobre o ritmo frenético do filme, que não deixa o espectador tirar os olhos por um minuto da tela, do visual claustrofóbico que o diretor impõe aos ambientes e personagens (câmeras em close-ups que recordam um tango) e das atuações impecáveis de Ricardo Darín (o Brad Pitt portenho) e grande elenco, destacando a bela Leticia Brédice (que logo estará no novo filme de Francis Ford Copolla, Tetro). Com traços tão brasileiros, ela, além da… talvez penúltima reviravolta do filme, serviu muito bem como a ponte a que me referi no começo deste post.
Nós latinos desconfiamos da influência estrangeira (“Crunchy… elaborado en Grecia. Este país se vá a la mierda…”), mas mesmo assim nos voltamos para dentro e nos congratulamos da nossa malemolência, do nosso modo de vida improvisado que só nos deixa mais vulneráveis a estafadas, sejam elas estrangeiras ou nacionais.
Nada de errado nisso, é o nosso jeito. De brasileiros e argentinos igualmente e, se podemos esperar alguma coisa do futuro, é que esta desconfiança global vá acabando as poucos, entre vizinhos. E nada como um boa história com valores comuns, mesmo que às avessas, para ajudar nesta aproximação. Nove Rainhas faz isso muito bem.
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